domingo, 30 de outubro de 2016

Oração, ou quando ouvimos e falamos com Deus

     No Evangelho de Mateus, o Evangelho do próximo ano litúrgico (2017), mais precisamente no interior do primeiro discurso[1] deste Evangelho, encontramos uma preciosa passagem bíblica, que nos ensina a verdadeira prática da oração, Mt 6,  5-8: “E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente.E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes”.
            A comunidade de Mateus, que era organizada em sua maioria por judeus convertidos a palavra de Jesus e de novos seguidores, provenientes do paganismo, todos são convidados à prática de oração em segredo, na discrição, numa sintonia amorosa com Deus. Certamente, na comunidade mateana (de Mateus) havia muita gente que se aparecia nas assembleias, tais assembleias se reuniam para celebrar a memória de Jesus Cristo, à luz da Torá, do Pentateuco, celebravam a eucaristia, ação de Graças do Cristo ao Pai, na comunhão do Espírito Santo.
O contexto vital da pequena passagem acima, no Sermão da Montanha, evidencia que alguns pagãos participavam das assembleias com gritos, em um verdadeiro show para tocar o coração de Deus, não muito diferente de alguns cristãos fanáticos de hoje, que acham que Deus é surdo ou que tem ouvidos moucos. Na comunidade de Mateus havia também alguns ex-judeus que nas assembleias se comportavam como se estivessem nas sinagogas e nas praças, fazendo verdadeiros comícios para Deus. Ao contrário, a comunidade de Mateus e nossa Igreja, hoje, são convidadas a prática discreta da oração, no segredo do quarto, do coração propriamente dito. Mesmo reunidos em assembleias litúrgicas, não precisamos gritar, nem teatralizar, pois Deus, O que tudo sabe,  conhece tudo  em nós, sobretudo nossos corações.
            A oração deve ser entendida como uma arte que só o espírito humano é capaz de vivenciar e decifrar, na simplicidade. A oração pode ser considerada, antes de tudo, um diálogo fecundo, no qual Deus falamos com e ouvimos a Deus. Nós mesmos nos dizemos a Ele e Ele nos compreende com perfeição. A oração, quando praticada no silêncio do coração, no nosso quarto interior ou ainda na vida litúrgica da Igreja, torna-se realidade de intercâmbio e comunhão com Ele. Viver uma vida de oração é deixar-se exercitar e se consolar pelo Espírito Santo de Deus, que nos conduz à fé em Jesus Cristo, proclamando-o Filho de Deus e Senhor (Kírios). A oração nos conduz, ainda e acima de tudo, à prática da caridade, pois não somos convidados a orar apenas por nós, mas por todos, sem distinção.
Como nos ensina o Papa Francisco, podemos rezar na simplicidade, utilizando nossa mão, ou melhor, nossos cinco dedos. O primeiro, o dedo polegar, é o que está mais próximo de nós, com ele nos lembramos e oramos por todos os que amamos, todos os que nos têm amor. Com o segundo dedo, o indicador, lembramo-nos e rezamos por todos aqueles que nos ensinam neste mundo: o Papa, os bispos, os padres, os professores e professoras, profissionais da saúde e todos os que fazem da educação uma arte transformadora. Com o dedo maior, lembramo-nos e oramos por todos os que nos governam: Presidente, governadores, deputados, prefeitos, vereadores. Com o dedo anelar, nos lembramos e oramos por todos os que nós não amamos tanto, aqueles que nos fazem o mal, nos criticam, fofocam a nosso respeito, todos os que nós nem sempre tratamos com tanto afeto e vice-versa. Por fim, com o dedo mínino, somos convidados a orar por nós mesmos, como sempre os últimos, os servos indignos. Assim, aprendemos a fazer da oração uma prática de caridade e não apenas um murmurar a Deus, visando apenas benesses para nós e nada para os outros que vivem e convivem conosco.
Na oração, Pe. Junior Vasconcelos do Amaral


[1] O Evangelho de Mateus em sua estrutura narrativa está dividido em 5 grandes discursos, a saber: Mt 5-7 ou sermão da Montanha; Mt 10 ou discurso Missionário; Mt 13 ou discurso em Parábolas; Mt 18, ou discurso sobre a Igreja e Mt 24-25 ou discurso Escatológico ou no Monte das Oliveiras.Resultado de imagem para orar

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