segunda-feira, 15 de junho de 2015

A Ressurreição no Evangelho de Marcos


Resumo: A palavra Ressurreição no Evangelho de Marcos está fundamentalmente associada aos termos paixão e morte. Tais léxicos dependem intrinsecamente de suas semânticas, para que deem sentido teológico à ressurreição e à morte. Contudo, no Evangelho de Marcos, a experiência narrada da Ressurreição de Jesus aparece no fim “curto”[1] do Evangelho e tem como desfecho um suspense seguido de medo. Este termo, no entanto, aparece antecipado nos anúncios da Paixão e permeia toda a narrativa do Segundo Evangelho. Desta maneira, neste artigo, procuraremos perceber a importância do lexema ressurreição para a cristologia do Evangelho de Marcos, sobretudo no que se refere às predições da Paixão-Ressurreição, da parte de Jesus (Mc 8,31; 9,31; 10,33-34), e sobremaneira ao relato da Paixão e Ressurreição, o livro da Paixão de Jesus (Mc 14,1 – 16,8). Buscaremos perceber o sentido proléptico, isto é, de antecipação, na narrativa de Mc, que aparece na palavra ressurreição nos anúncios da Paixão O recurso narrativo chamado de prolepse é comum no Segundo Evangelho e antecipa uma realidade a fim de que o leitor se prepare no conhecimento de algo, ou de alguém, nesse caso, no reconhecimento de Jesus Ressuscitado. O método que utilizaremos para a leitura e interpretação do Evangelho de Marcos (sobretudo os relatos de anúncio da Paixão 8,31; 9,31; 10,33-34 e o relato da Paixão propriamente dito 14,1 – 16,8), será o de análise narrativa. Como resultado, percebemos que o relato de Marcos está embebido do signo da Ressurreição e que, embora esta seja uma palavra discreta neste Evangelho, desempenha uma função teológica indispensável, tratando de orientar o leitor real (nós) do Evangelho marcano que Jesus, o Filho de Deus (1,1; 1,9; 9,7 e 15,39), passou pela experiência da morte, está Ressuscitado e precede aos seus à Galileia.Conclui-se que o Evangelho de Marcos se alicerça, como anúncio querigmático, na certeza de fé na Ressurreição de Jesus, além de que a Paixão, que antecede a Ressurreição, só tem sentido em vista da Vida Nova de Jesus. Assim, a narrativa de Marcos atinge seu objetivo mesmo com um fim em suspense, conferindo às mulheres (16,6-7) a missão de ir e anunciar Jesus Ressuscitado que precede a seus discípulos à Galileia eclesial. Pode-se aferir que o termo Ressurreição, no Evangelho de Marcos, não é apenas uma palavra que desencadeia suspense e medo, mas é uma realidade que perpassa toda narrativa marcana, assinalando a esperança da ação de Deus na vida de Jesus, seu Filho.

Palavras-chave:Evangelho de Marcos. Paixão. Ressurreição. Prolepse. Análise narrativa.
1.    Introdução
Este artigo objetiva ressaltar a importância do termo ressurreição, anástasis,[2] em grego, para o Segundo Evangelho. O termo ressurreição tem um caráter preponderante nas narrativas do Novo Testamento, assumido como fulcro da fé cristã, pois temos fé em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, Filho de Deus. Esse é o querigma primário, comumente observado nos relatos bíblicos, sobretudo na teologia paulina; nossa questão central consiste em observar que, no relato proposto pelo narrador de Marcos, o termo ressurreição está inserido como pressuposto fundamental, embora a narrativa marcana o evidencie, com expressão significativa, em 16,7. Há, segundo nossa perspectiva, indícios claros e prévios do anúncio da ressurreição, mesmo antes do “relato curto” em 16,1-8. Fazemos uso da análise narrativa, um método muito expressivo hoje, que pressupõe a importância dos relatos prolépticos, de antecipação, inseridos nos relatos bíblicos ou literários. No caso de Marcos, observamos tais antecipações, as prolepses, nas narrativas chamadas de pré-anúncio da Paixão, em Mc 8,31; 9, 32, 10,34. Contudo, também o relato da “transfiguração de Jesus”, na montanha, já simboliza prolepticamente o que irá acontecer no fim do relato, como uma “amostra-grátis” da ressurreição. Desse modo, analisaremos estes relatos antecipatórios, tendo em vista o relato fundamental de Marcos, o fim “curto” de seu Evangelho; daí, podemos corroborar nossa consideração sobre o fato de a narrativa marcana estar embebida da expressão ressurreição: ressurreição, podendo ser considerada o motivo condutor (leitmotiv) do Segundo Evangelho.
2.    Mc 16,1-8: fim “curto” do Evangelho
Marcos é, hoje, uma narrativa amplamente visitada. Depois da redescoberta desse Evangelho, fruto do estudo histórico-crítico, constata-se que o Segundo Evangelho é mesmo o primeiro a ser escrito, tratando-se de um relato primitivo e inspirador para Mateus e Lucas.
Desde alguns anos, o final “curto” de Marcos (16,1-8), tornou-se objeto de trabalhos expressivos que mostram a pertinência da hipótese segundo a qual esse constitui o final original do Evangelho (cf. CUVILLIER, 2003, p.105). Esse fim “curto” termina com o silêncio das mulheres (16,8) – e sem o relato da aparição do Ressuscitado. Nesse sentido, Élian Cuvillier propõe a pertinente questão: “qual importância e significação o evangelista dá à ressurreição de Jesus?” (CUVILLIER, 2003, p.105). De fato, não há, em Marcos, relato explícito sobre a ressurreição, mas, tão somente, aquele na boca de um jovem que está no sepulcro, vestido de branco, sentado à direita do lugar onde tinha sido posto o corpo de Jesus (16,7). É, pois, um fim em suspense (16,8): o fim primitivo, que rendeu a hesitação dos editores bíblicos dos primeiros séculos,a fim de ser completado, com os versículos 9-20,formando um epílogo resumido do Evangelho. Nossa questão, aqui, se debruça sobre o fim “curto”, por uma questão metodológica.
A palavra do jovem não porta nenhuma ambiguidade: “Jesus ressuscitou”, como havia prometido. Uma continuidade capital se impõe: mesmo após sua ressurreição, o Ressuscitado é o “crucificado” (16,7); ou seja, a ressurreição não apaga os traços da cruz. Em Marcos, manifesta-se o registro de uma teologia da cruz (cf. CUVILLIER, 2003, p.107).
3.    Mc 9,2-9 profecia da ressurreição
A narrativa da transfiguração, relatada pelos três sinóticos, representa, na estrutura do evangelho de Marcos, um momento culminante, correspondendo à cena do batismo na primeira parte, em 1,9-11. Novamente, Jesus é proclamado, pela revelação divina, o Filho amado (9,7b): “Trata-se de uma revelação direcionada aos discípulos, num momento decisivo e crítico da atividade pública de Jesus, isto é, depois da proclamação messiânica de Pedro”, em 8,27-33. (FABRIS, 2002, p.519).
De acordo com Camille Focant, o relato da transfiguração (9,2-9) pode ser entendido como uma prolepse da presença do Ressuscitado no Evangelho, que não comporta um relato de aparição (FOCANT, 2005, p. 211). Neste sentido, mencionamos aqui, além do relato da transfiguração, também os relatos considerados anúncios prévios da Paixão de Jesus, que comportam, em si, a promessa da ressurreição. Focant alude a Rudolf Bultmann,[3] em sua afirmação sobre o sentido da transfiguração na vida Jesus no Evangelho de Marcos: ela faz “refluir a messianidade em sua própria vida” (FOCANT, 2005, p. 212), o que, verdadeiramente, poderia “servir de confirmação celeste à confissão de Pedro e à profecia para a ressurreição sob a forma imaginada” (FOCANT, 2005, p. 212). A opinião de Bultmann não é hoje tão compartilhada, pois a diferença do relato da transfiguração com o gênero literário (dos relatos) de aparição do Ressuscitado é amplamente significante. A transfiguração pode ser compreendida como uma amostra-grátis da Ressurreição de Jesus, “uma antecipação da glória da ressurreição; a agonia, em contraste total, mostra o modo pelo qual Jesus caminha para a glória” (DELORME, 2006, p.97).
Portanto, na lógica paradoxal de Marcos, a transfiguração, a revelação da glória do Filho do Homem e a vinda do reino poderoso, não pode ser compreendida antes, mas somente depois da passagem pela cruz e ressurreição (cf. FOCANT, 2005, p. 214). O relato da transfiguração só pode ser compreendido em sentido estrito à Ressurreição, mesmo sendo relatado anterior à ela. Neste sentido, a transfiguração serve de chave de leitura para a compreensão da própria Ressurreição de Jesus, testemunhada por Pedro, Tiago e João; contudo, esses três não estão inseridos no relato da cruz nem da ressurreição de Jesus. Essa é mais uma ironia da teologia marcana.
4.    Mc 9,9: o Filho do Homem ressuscitado
            Como se pode observar, o relato da transfiguração é indispensável para compreender o significado da filiação divina de Jesus (“Filho amado”) e o sentido de sua ressurreição, como realidade visível. De realidade teofânica, de glória, a ressurreição pode ser entendida a partir da realidade da cruz. É o v. 9, referencialmente, que afirma, por parte do narrador: “Ao descerem da montanha, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinha visto, até quando o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos”. Aqui, notamos o “segredo messiânico” de Jesus, que revelará a sua glória na cruz. O narrador evidencia sua intenção: o Filho do Homem ressuscitará da morte; aparentemente, a experiência da ressurreição precede a cruz, pois tal título evidencia, aqui, em Mc, a humanidade de Jesus, visível e palpável na carne.
5.    Mc 8,31; 9,31; 10,33-34 – anúncios da Paixão e Ressurreição
            O intuito, nesse ponto, é perceber que, nos três anúncios da Paixão, o motivo da ressurreição ocupa um lugar preeminente. Isso significa dizer que, para o horizonte teológico de Marcos, a Ressurreição de Jesus é uma verdade que perpassa tanto o relato da Paixão,quanto o Evangelho como um todo.
Segundo Edwin Broadhead, seguindo a afirmação de Martin Kähler, “um pouco provocador, se poderia chamar as narrativas da Paixão de Evangelhos com extensas introduções” (BROADHEAD, 1994, p.12). De fato, o Evangelho de Marcos segue um propósito: narrar a vida de Jesus tendo, como perspectiva, a Ressurreição, a continuidade da Paixão, uma teologia da cruz. Desse modo, Jesus narra a si mesmo, como Filho de Deus que se doa para a remissão de muitos, de todos os que, nele, crêem. Aplicada à leitura do Evangelho de Marcos, supomos que a cruz é o critério hermenêutico a partir da qual se busca compreender a Revelação de Deus, de tal modo que o Segundo Evangelho a emprega em sua narração (cf. CUVILLIER, 2003, p.107).
            O primeiro anúncio da Paixão, em 8,31, apresenta o impacto das palavras do mestre em Pedro, o discípulo. Esse não admite a perspectiva da morte de Jesus, sendo, por esse, assimilado ao tentador (v.33) – Pedro parece tentar reduzir a força da pregação da cruz (8,34-38). Esse conjunto, de 8,27-9,1, situado numa mesma unidade espacial e temporal, tem como contexto o primeiro anúncio centrado na cruz. Contudo, tal anúncio parece revelar a incompreensão dos discípulos a respeito dessa realidade ignominiosa; não obstante, a última palavra de Jesus é Ressurreição – “[...]e depois de três dias, ressuscitar” (Mc 8,31).
            O segundo anúncio, em 9,31, afirma que o Filho do Homem será entregue (em grego, dídomi), às mãos dos homens, que o matarão. No primeiro anúncio, esses homens são identificados como anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas; são os que, na profecia de Jesus, o rejeitarão: o anúncio é seguido de incompreensão e do medo que todos tinham de interrogá-lo. O episódio seguinte, situado geograficamente em Cafarnaum (9,33-50), pode ser entendido como uma expressão da incompreensão dos discípulos, expressa pelo narrador no v.32.
            Já no terceiro anúncio, Mc 10,33-34, o esquema é diferente. Tudo tem início num clima de medo (v.32) e não há, em sua esteira, menção à incompreensão dos discípulos. Mas há um relato que parece fruto do medo explícito: no v.32, os filhos de Zebedeu, Tiago e João, pedem para Jesus que, na sua glória, ele se lembre de lhes conceder os dividendos – de um se assentar à sua direita e o outro à sua esquerda. A resposta de Jesus é uma ressignificação do sentido da ressurreição que, para ele, aponta que os discípulos, para participarem de sua glória, precisam, antes, participar de sua Paixão (v.39). Depois dessa questão, os dez discípulos se indignam (v.41) e Jesus passa a ensinar que, entre eles, não deve ser como na lógica do mundo: “aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor” (v.44); ele conclui a cena dizendo que o Filho do Homem, perseguido, assassinado e ressuscitado, não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos (v.45).
6.    Mc 9,1, uma possível chave de leitura?
Mc 9,1 é, de fato, um versículo intrigante. O que poderia significar “ver o Reino de Deus chegando com poder”? A priori, vale dizer que o versículo constitui uma abertura solene para o evento da Transfiguração de Jesus, situando-se, ali, não sem sentido. De fato, alguns, na transfiguração, verão Jesus em glória: constituindo-se a ressurreição manifesta de forma antecipada a Pedro, Tiago e João – e a transfiguração pode ser compreendida como a interpretação do versículo. O narrador é aquele que, contando o que se passa com Jesus, leva os leitores a interpretar em seus próprios signos ou enigmas. Mc 9,1 se constitui uma incógnita e, ao mesmo tempo, uma chave de leitura para 9,2-8, o relato da transfiguração. A vinda do Reino de Deus, em seu poder, pode ser compreendida a partir do revelar-se, de forma antecipada, de Jesus ressuscitado àqueles que o seguem (em hebraico, kadob signifca glória, designando a densidade de uma coisa; então, contemplar a glória de Jesus pode se compreender sua identidade mais profunda).
A transfiguração constitui a revelação daquilo que Jesus mesmo. Ele não é um homem fadado à morte, mas é Vivente, aquele que traduz o poder do Reino de Deus em si mesmo, por excelência. De outra forma, “a transfiguração pode se situar em continuidade com o apelo a um seguimento radical (8,34-38)” (CUVILLIER, 2003, p. 113).
7.    Considerações finais
            Conclui-se reafirmando que o Evangelho de Marcos consiste em um relato embebido de Ressurreição. Mesmo carecendo de um relato que formalize a aparição de Jesus Ressuscitado, como nos demais Sinópticos, o evangelho marcano traz como questão, no seu horizonte, o fio condutor da Ressurreição que perpassa vários relatos.
            O Segundo Evangelho transita da identidade do Jesus Galileano e taumaturgo para o Messias, Filho do Homem, que morrerá e revelará sua glória. Essa glória pode ser considerada, em Marcos, o Reino de Deus, que, de forma antecipada, se dá a conhecer no relato da Transfiguração.
O relato final de Marcos (16,7-8), embora curioso, por causa do silêncio das mulheres, não contradiz a verdade ou a veracidade do Ressuscitado, que não está mais preso ao sepulcro, segundo o jovem que o anuncia como Ressuscitado. Esse jovem, envolto em lençol branco, pode, simbolicamente, se referir ao divinal por causa do branco e do que ele mesmo transmite, expresso pelo querigma da Ressurreição, que se associa à certeza-fé de que a morte não supera nem suplanta a vida; contudo, é preciso que as mulheres possam ir e anunciar o Ressuscitado. Para Marcos, Jesus, o Vivente, precede os discípulos e a Pedro à Galileia (cf. 14,28), o primeiro lugar do anúncio, lugar do testemunho dos primeiros milagres.
            Por fim, o Evangelho de Marcos, embora sendo uma narrativa concisa e pequena, em relação aos demais relatos, não deixa de lado o sentido último e mais precioso do Evangelho: o gênero literário de Boa Nova, inaugurada por Marcos, o anúncio de Jesus morto e Ressuscitado.
8.      Referências Bibliográficas
BROADHEAD, Edwin K. Prophet, Son, Messiah. Narrative form and function in Mark 14-16. Sheffield: JSOT, 1994.
CUVILLIER, Élian. La résurrection dans l’évangile de Marc ou: La finale courte... et puis avant? In : MARGUERAT, D. Quand la Bible se raconte. Paris : Cerf. 2003.
DELORME, Jean. Leitura do Evangelho segundo Marcos. 5. ed. São Paulo: Paulus, 2006.
FABRIS, Rinaldo. O Evangelho de Marcos. In: BARBAGLIO, Giuseppe; FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos I. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002.




[1] Refere-se a fim “curto” aquele dito canônico Mc 16,8, o acréscimo tardio 16,9-20 pode ser considerado longo ou também chamado de final atual do Evangelho (cf. DELORME, 2006, p. 139).
[2] O termo anástasis, “ressurreição”, “ação de levantar-se”,pode ser encontrado em Mc 12,18.23, no relato de controvérsia com os saduceus.
[3] Artigo: Die Geschichte der synoptischen Tradition Göttingen, FRLANT, 29, 1931, p. 279. 

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