sábado, 4 de outubro de 2014

XXVII DOMINGO COMUM

Mt 21,42a “A pedra que os construtores rejeitaram 

tornou-se a pedra angular”


Mt 21, Jesus disse aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo: 33 Escutai esta outra parábola: Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou-a a vinhateiros, e viajou para o estrangeiro. 34 Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber seus frutos. 35 Os vinhateiros, porém, agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram. 36 O proprietário mandou de novo outros empregados, em maior número do que os primeiros. Mas eles os trataram da mesma forma. 37 Finalmente, o proprietário, enviou-lhes o seu filho, pensando: `Ao meu filho eles vão respeitar'. 38 Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: `Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!' 39 Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram. 40 Pois bem, quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?' 41 Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: 'Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo.' 42 Então Jesus lhes disse: 'Vós nunca lestes nas Escrituras: `a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos'? 43 Por isso eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos.

Este relato parabólico constitui o enredo final do capítulo 21 de Mateus. Como já se viu, este capítulo tem como clímax teológico duas parábolas, a dos dois filhos (vv. 28-32), e a, supramencionada, dos vinhateiros homicidas (vv. 33-46).
Pode-se perceber que ambas as parábolas são dirigidas aos mesmos interlocutores sacerdotes e anciãos do povo. O mensageiro delas é Jesus, o mestre-didáskalos. A título de esclarecimento, no grego de Mateus, no início das parábolas não está explícito a quem Jesus se dirige. Isso é possível ser percebido apenas no versículo 23 “e entrando ele no templo aproximaram-se dele, ensinando os principais sacerdotes e os anciãos do povo”. Portanto, quando Jesus abre a boca para dizer, já se sabe muito bem a quem ele está dirigindo-se.
Continuando a observar o original de Mateus, a parábola inicia-se com esta invectiva (pedido de autoridade): “Ouvi outra parábola. Havia um homem, um dono de casa que plantou uma vinha”. Esta consideração é muito peculiar para os interlocutores de Mateus, ou ainda seus ouvintes e leitores. Um dono de casa, um dono de vinha, são referências diretas àqueles proprietários que arrendavam suas terras aos pobres, ao povo da terra, chamados de anauins, uma classe minoritária, destituída de bens. De acordo com o comentário exegético de C.H. Dodd[1], naqueles tempos, anterior e contemporâneo de Jesus, a região das colinas da Galileia tinha como proprietários os ricos latifundiários estrangeiros, que alugavam seus sítios a agricultores do lugar. O relato reflete uma situação muito bem conhecida por todos.
O versículo que se segue à situação vital alude a Is 5,2 onde se narra “um amigo meu plantou uma vinha, circundou-a com uma cerca cavou um lagar e construiu uma torre”. Na profecia isaiana, o capítulo 5 trata-se do cântico da vinha. Um cântico ao amigo por causa de seu amor para com a sua vinha. “Ele cavocou, arrancou as pedras, e ali plantou mudas selecionadas...” Portanto, este dono da terra tinha também posses para poder plantar, cultivar e depois colher. O vinhateiro do Evangelho de Mateus, também possuidor de posses, ao terminar o plantio e as construções ao derredor da vinha, a arrenda aos lavradores, porque precisava viajar.
Esta realidade do arrendamento da vinha é diferente daquele a que estamos acostumados a ver no Brasil. Pelo que se sabe o dono da terra, que muitas vezes não tem condições financeiras para cultivá-la ou, às vezes, está cansado de levar prejuízos por tantas causas, arrenda a terra para outros plantarem. Ele fica isento de qualquer compromisso com o cultivo da lavoura. No Evangelho de hoje, em contraposição, o vinhateiro já tinha plantado, deixando tudo pronto. Este diferencial se dá pois a cultura da vinha era permanente e não carecia de replantios posteriores, diferente de uma cultura temporária, como no Brasil temos a soja e o milho. O que notamos é que ele arrendou aos lavradores com tudo pronto e acabado. Para este ação do dono da vinha, a tradução da bíblia CNBB apresenta o verbo alugar, denotando um sentido mais comum para nós do que aquele do verbo arrendar.
Quando se aproximou a estação que daria dos frutos, que evidentemente pertenceriam a ele, pois a terra era sua, enviou seus servos para receber os frutos. Um de seus servos foi espancado, outro assassinado, outro apedrejado. Não dado por satisfeito, o dono da vinha enviou ainda outros servos, mais homens que na primeira vez, e, fizeram a estes o mesmo que àqueles. Por fim, o dono da vinha enviou seu filho, pensando que os lavradores o respeitariam por se tratar de uma autoridade qualificada. Mas os lavradores confabularam a morte do filho, dizendo entre eles: “Este é o herdeiro; vinde matemos o mesmo e tenhamos a herança dele”. Lançando-o fora da vinha mataram-no. Obviamente, naquela época se ninguém procurasse a posse da terra, isto é os herdeiros, a terra passava a pertencer aos seus cultivadores.
Qual é, portanto, o significado da parábola em questão? Qual a finalidade desta narrativa para o Evangelho e a comunidade de Mateus? Estas dúvidas podem ser facilmente respondidas com a consideração de que “a morte do filho, enviado como extrema tentativa do proprietário para obter os frutos do sítio, é a chave de leitura do relato”, isto significa que Jesus está preanunciando sua trágica morte, seu próprio destino[2]. O Filho do Homem, Jesus de Nazaré, será preso, torturado, e, por fim, morrerá como o filho do dono da vinha fora de Jerusalém, no Gólgota.
Contudo, quem são os personagens que antecederam o filho do dono da vinha na visita ao local arrendado por seu pai? Obviamente os profetas. Para isso, basta observar a vida dos homens porta-vozes de Deus. Entre eles destacamos João Batista, morto cruelmente por causa de sua palavra, de sua exigência, de sua práxis comprometida com o eminente advento do Reino de Deus. O profeta batizador, em sua exigência, buscava colher os frutos de justiça semeados pela palavra divina anunciada por Moisés e pelos profetas que o precederam. Mas, João derramou seu sangue em nome da intolerância dos malvados que frutos de vida não o concederiam, somente os de morte.
No fim da parábola dos vinhateiros homicidas, como tradicionalmente ficou conhecida esta narrativa, Jesus indaga seus os ouvintes[3]: “Pois bem, quando vier o dono da vinha, o que fará àqueles vinhateiros?” Jesus pergunta. Eles respondem: “Inflingirá uma dura morte àqueles miseráveis e arrendará a vinha para outros vinhateiros que lhe entregarão os frutos no tempo certo” (Mt 21, 41). Jesus não diz concordar com esta sentença executória aos miseráveis vinhateiros. Ele apenas continua a dizer, entrando, agora em outro assunto.
Mateus deixa claro que Jesus não é um dos profetas, afirma R. Fabris[4], embora a narrativa parabólica se conclua: “pois as multidões o tinham na conta de profeta”. Não obstante a estas considerações, Jesus é o Filho do Pai, o enviado de Deus, o Messias, o ungido para a missão. A ação de Jesus é confiada e autorizada pelo Pai. Jesus, enviado ao mundo, é acolhido por alguns e rejeitado por muitos. Pelos lavradores da vinha Israel (note-se que Israel é conhecida pelos profetas como a vinha do Senhor), os que tinham a missão de cuidar da vinha do Senhor, o Filho Jesus é rejeitado, levado para fora dos muros de Jerusalém, sendo assim executado. Jesus profetiza aos vigilantes, aos representantes da religião, ao senado do povo, aquilo que lhe deverá acontecer.
 Obviamente Mateus, o teólogo compilador dos fatos e dos ditos de Jesus, está elaborando uma teologia pós-pascal, isto significa que após os fatos acontecidos com com Jesus em Jerusalém Mateus escreverá sua narrativa. Faz importante lembrar que Mateus escreve seu Evangelho por volta da década de 80 do I século cristão. Para ele, as palavras de Jesus, suas invectivas (palavras exortativas), estão vivas e prenhas de significados, haja vista a alusão ao profeta Isaías.
Jesus continua a falar com seus ouvintes. Ele introduz outra profecia na qual se diz que a pedra rejeitada na construção dos projetos humanos, na edificação da vinha Israel, era a pedra fundamental. A pedra que os construtores rejeitaram (dizia o Sl 118,22-23),  constituía-se a pedra angular. Nas construções antigas, a pedra angular era aquela sobre a qual o edifício e a casa estavam alicerçados. Jesus é a base fundamental deixada de lado na construção do edifício aparentemente santo de Israel.
No versículo 43, Jesus conclui estas duas comparações, a da vinha e a da pedra angular, dizendo que o Reino de Deus será tirado deles, os responsáveis pela edificação da vontade de Deus, de seu plano salvífico. Para piorar a situação, este projeto será dado para outro povo, que o fará frutificar.
Destarte algumas questões submergem após esta profecia de Jesus: serão, obviamente, os cristãos os responsáveis pelo projeto salvífico, que tem como autor Deus? Estamos hoje colaborando na instauração do Reinado de Deus? Mas, como o edificamos em meios às atitudes farisaicas que ainda persistem vigorar entre nós? Como tornar real este Reinado – o domínio de Deus – quando muitas vezes, na estrutura institucionalizada, o que se sobressai ainda é a vontade ou interesse humano? Certamente, se nós não colaborarmos na construção deste Reinado, ele será confiado a outros, talvez àqueles que julgamos por demais secularizados (inseridos no mundo), que independem da religião.
Por fim, a narrativa deste domingo comum nos alerta para o compromisso real e legítimo com a construção do Reino de Deus, na abertura de coração a um projeto que não é só nosso, mas é de Deus. O Reinado de Deus, sua soberania em relação às estruturas humanas, nos convida a transformar a realidade imanente, nosso chão, nossa casa-mundo, tornando-a um lugar fecundo para a semente da Palavra, que se encarna sempre em nossos corações, conduzindo-nos à profunda experiência do apreço à carnalidade (a realidade plena da vida), na vivência da alteridade (do cuidado do outro) no belo exercício de nossa liberdade-dignidade. Oxalá, o Senhor da vinha nos encontre fiéis a sua iniciativa de colher em nós os frutos de esperança, de fé e de caridade.






[1] DODD, C. H. Le parabole del regno. Bréscia: Paideia, 1970, p. 120.
[2] FABRIS, R. Os Evangelho (I). 2. Ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 323.
[3] Observe que no versículo 45 Mateus referirá aos ouvintes de Jesus: os altos funcionários do templo e os fariseus. Altos funcionários eram os sacerdotes. Jesus acrescenta nesta altura os fariseus, já que tinha dito que os anciãos eram aqueles que ouviam.
[4] Idem, p. 324.

Um comentário:


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