domingo, 25 de maio de 2014

VI DOMINGO PASCAL

Quem me ama será amado por meu Pai



Jo 14,15 Se me amais, guardareis os meus mandamentos, 16 e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: 17 o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. 18 Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. 19 Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. 20 Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. 21 Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.

            Estamos no 6º Domingo do Tempo Pascal, já no limiar deste tempo de alegria. No próximo domingo a Igreja no Brasil celebrará a festa da subida de Jesus aos céus, à direita de Deus. Hoje, porém, deparamos-nos  com mais um relato de adeus da parte de Jesus. No Evangelho segundo João, encontramos muitos relatos ou sucessivas narrativas de despedida, pronunciadas com grande solenidade por parte de Jesus, ou mesmo o narrado deste Evangelho, seu autor implícito (aquele que está dentro do relato), que conheceu tudo o que aconteceu com Jesus.
            Neste domingo, não muito diferente do domingo passado, o 5º domingo pascal, Jesus está catequizando seus discípulos para enfrentarem a eminente morte dele, o mestre. Jesus, obediente ao Pai, abraçará a morte como experiência ápice de sua vida terrena. Sua cruz, lugar teológico da Ressurreição, é considerada, pelo Evangelho segundo João, não como lugar do descerramento da vida terrena de Jesus, mas como lugar inaugural ou adventício da Ressurreição, do enaltecimento do Filho de Deus, de sua Glorificação. Para o teólogo Adolphe Gesché, a cruz é arché da ressurreição, ou seja, princípio da Ressurreição (GESCHÉ, A. O Cristo. Deus para pensar. São Paulo: Paulinas. 2004).
            Jesus inicia seu diálogo de adeus dizendo: “Se me amais, guardareis meus mandamentos” (v.15). Para ele, o mestre, o amor é fundamentalmente força motora da memória dos discípulos. O amor é expressamente anamnético, isto é, o amor nos faz lembrar aquilo que aprendemos e apreendemos do outro, o que dele recebemos. Portanto, o amor é a fonte propulsora para que os discípulos vivam suas vidas a partir da experiência dos mandamentos. Os mandamentos de Jesus estão alicerçados na exigência do amor a Deus, ao próximo, como a si próprio; um amor verdadeiramente tridimensional, isto é, para Deus, para o próximo a partir do eu. Assim, quem não se ama, não está apto para o amor ao próximo nem sequer para amar a Deus.
            A oração do mestre Jesus está voltada para o Pai a fim de que ele conceda o Defensor, o Espírito, o Paráclito, aquele que tem como missão, na economia da Salvação, relembrar, redimensionar o coração dos discípulos para a prática do amor. O Espírito é força unitiva - conciliadora, que tem por incumbência unir os corações na constância do amor a Cristo. O Espírito, que procede do Pai pelo Filho, é responsável por animar os discípulos no caminho da fé.
            O Espírito da Verdade é quem concede a rememoração das palavras de Cristo. O Espírito Santo, de acordo com a teologia joanina, preocupa-se com a fidelidade dos fiéis a Jesus, daqueles que aderiaram a fé em Jesus Cristo. O Espírito da Verdade habita o interior dos corações humanos. A Ruah, o Espírito concedido na criação, que insuflou em nós a vida de Deus, a vida espiritual, é dymamis para a memória. É a terceira pessoa da Trindade quem dinamiza o coração dos cristãos à fidelidade e ao testemunho do Evangelho do Filho, a fim de que o Pai seja tudo em todos.
            Jesus promete aos discípulos a permanência sempiterna. Jesus não os deixará órfãos. Ele cumpre suas promessas. Estará até os últimos dias junto de nós, no mundo, na missão, nos trabalhos, nas iniciativas, até o último suspiro de vida humana sobre a Terra.
            A dinâmica da fé em Jesus, de acordo com João, se dá pela visão de Jesus. O verbo ver, para João, significa vislumbrar plenamente a profundidade da ação de Cristo na nossa vida. Não é, portanto, sem sentido a cura do cego de nascença no capítulo 9 do Evangelho de João. Ver Jesus significa contemplar sua ação salvífica na vida de discípulo, da comunidade e do mundo. O verbo ver não tem sentido estritamente físico-material, mas espiritual. Significa, antes de tudo, contemplar, ver mais além, vislumbrar a realidade visível apenas com os “olhos” do coração que ama, que vive inebriado pela ação do Espírito, o Senhor da memória da fé.
            O Espírito é a testemunha do amor do Pai e do Filho. Ele é o próprio amor, o amor do Amante (Pai) para seu Amado (Filho), é o que brilhantemente nos afirmou Santo Agostinho (Tratado De Trinitate). Quem olha para o Filho, vê o Pai, pois o Espírito que une Pai e Filho faz com que a feição, a fisionomia deste reflita o amor daquele. O Pai está no Filho. O Filho está no Pai. É o Espírito o mediador desta permanência. Na teologia sobre a Trindade, o Espírito é também comparado com o osculum Patris et Filli “o beijo do Pai e do Filho”, osculum suavissimum, sed secretissimum  “um beijo secretíssimo e suavíssimo” que o Pai e o Filho dão um ao outro, transfundindo-se (São Bernardo, Sermão em Cântico 8,2).
Por fim, o Espírito que une no caminho da fé, nos irmana no redil de Cristo, e nos configura com a imagem do Filho, obediente e solidário. É o Espírito que nos leva a viver os mandamentos do Senhor e faz-nos dizer “Abbá” ó Pai, e nos inspira a construir um mundo melhor, afim de que outros creiam e que permaneçam também em seu amor.


Nenhum comentário:

Postar um comentário