sábado, 5 de abril de 2014

V DOMINGO DA QUARESMA

EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA (Jo 11,25a)

Jo 11, 1 Havia um doente, Lázaro, que era de Betânia, o povoado de Maria e de Marta, sua irmã. 2 Maria era aquela que ungira o Senhor com perfume e enxugara os pés dele com seus cabelos. O irmão dela, Lázaro, é que estava doente. 3 As irmãs mandaram então dizer a Jesus: 'Senhor, aquele que amas está doente.' 4 Ouvindo isto, Jesus disse: 'Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.' 5 Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. 6 Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. 7 Então, disse aos discípulos: 'Vamos de novo à Judeia.'8 Os discípulos disseram-lhe: Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?' 9 Jesus respondeu: 'O dia não tem doze horas? Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. 10 Mas se alguém caminha de noite, tropeça, porque lhe falta a luz'. 11 Depois acrescentou: 'O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo.' 12  Os discípulos disseram: 'Senhor, se ele dorme, vai ficar bom.' 13 Jesus falava da morte de Lázaro, mas os discípulos pensaram que falasse do sono mesmo. 14 Então Jesus disse abertamente: 'Lázaro está morto. 15 Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos para junto dele'. 16 Então Tomé, cujo nome significa Gêmeo, disse aos companheiros: 'Vamos nós também para morrermos com ele'. 17 Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. 18 Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém. 19 Muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21 Então Marta disse a Jesus: 'Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22 Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele to concederá.' 23 Respondeu-lhe Jesus: 'Teu irmão ressuscitará.' 24 Disse Marta: 'Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia.' 25 Então Jesus disse: 'Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26 E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?' 27 Respondeu ela: 'Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo.' 28 Depois de ter dito isto, ela foi chamar a sua irmã, Maria, dizendo baixinho: 'O Mestre está aí e te chama'. 29 Quando Maria ouviu isso, levantou-se depressa e foi ao encontro de Jesus. 30 Jesus estava ainda fora do povoado, no mesmo lugar onde Marta se tinha encontrado com ele. 31 Os judeus que estavam em casa consolando-a, quando a viram levantar-se depressa e sair, foram atrás dela, pensando que fosse ao túmulo para ali chorar. 32 Indo para o lugar onde estava Jesus, quando o viu, caiu de joelhos diante dele e disse-lhe:'Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido.' 33 Quando Jesus a viu chorar, e também os que estavam com ela, estremeceu interiormente, ficou profundamente comovido, 34 e perguntou: 'Onde o colocastes?' Responderam: 'Vem ver, Senhor.' 35 E Jesus chorou. 36 Então os judeus disseram: 'Vede como ele o amava!' 37 Alguns deles, porém, diziam: 'Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?' 38 De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma caverna, fechada com uma pedra. 39 Disse Jesus: 'Tirai a pedra'! Marta, a irmã do morto, interveio: 'Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias.' 40 Jesus lhe respondeu: 'Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?' 41 Tiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: 'Pai, eu te dou graças porque me ouviste. 42 Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste.' 43 Tendo dito isso, exclamou com voz forte: 'Lázaro, vem para fora!' 44 O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano. Então Jesus lhes disse: 'Desatai-o e deixai-o caminhar!' 45 Então, muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele.
           

Adentramos, a partir desta liturgia dominical, na 5ª semana do Tempo da Quaresma na qual ouvimos João narrar a reanimação ou revificação de Lázaro, o grande amigo de Jesus, de Betânia – em hebraico casa dos pobres. Depois do diálogo com a samaritana, no poço de Jacó e da restauração da visão do cego de nascença, Jesus realiza hoje o sétimo sinal do o Evangelho de João.
De acordo com o comentário de Johan Konings, o relato da ressurreição de Lázaro é, no quadro global do Evangelho joanino, um episódio novo. Trata-se de uma cena inserida no grande contexto do Evangelho de João. Possivelmente, a nova mudança geográfica e cronológica em Jo 10,40-42 permite situar, no tempo e no espaço, o último “sinal” da vida ministerial de Jesus (11,3.6: onde estaria Jesus quando recebe a notícia da morte de Lázaro, onde permanece por mais dois dias?)*.
No relato da ressurreição de Lázaro pode-se observar seis pequenas cenas ou episódios: 1º Jesus que se retira no outro lado do Jordão (10,40-42); 2º a morte de Lázaro, antes de Jesus chegar (11,1-16); 3º Jesus se encontra com Marta na entrada de Betânia (11,17-27); 4º complô contra Jesus (11,45-53) e retirada para o deserto (11,54); 5º a ressurreição de Lázaro (11,38-44); 6º Jesus fala com Maria e segue para visitar o túmulo (11,28-37).
 Na perspectiva de análise na narrativa**, o que está no centro é sem dúvida o mais importante, portanto, o diálogo de Jesus com Marta. Indubitavelmente os versículos 25 a 27 são essenciais para entendermos o sentido teológico – o enredo – da liturgia deste 5º domingo. As palavras de Jesus, que são de suma importância para compreender o sinal que ele realizará – 'Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais’ – antecedem a resposta de Marta 'Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo’. Tanto a afirmação de Jesus quanto a resposta crente de Marta são fundamentais na elaboração dos efeitos e dos sentidos que nós leitores e ouvintes da Palavra observaremos.  O que virá depois, mesmo sendo um sinal tão importante, como a reanimação do cadáver de Lázaro, só ganha significado a partir das palavras proferidas, a priori, por Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a vida’ – no grego de João Egó eimí hè anástasis kai hè zoé.
Após receber uma instrução de fé, Marta pensa ser bom que Maria, sua irmã também aproveite a oportunidade,dizendo a Maria: ‘O Mestre está aqui e quer falar contigo’. O que acontece também nos velórios, no qual comumente o padre vai visitar a família, para depois encomendar o defunto. Geralmente as pessoas dizem: “Padre, fala pra mãe do defunto alguma coisa que a conforte”. Maria, por sua vez, levanta-se rapidamente e vai ter com Jesus ali.  Vendo-a sair da casa, rumo ao encontro com Jesus, os judeus pensam que ela iria chorar no túmulo e a acompanham (11,28-31).
Maria lamenta: ‘Senhor***, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido’. São as mesmas palavras que Marta utiliza para reclamar a Jesus a morte do irmão. É impressionante perceber a semelhança entre Marta e Maria no episódio da morte de Lázaro. A resposta de Jesus para Maria, em contrapartida, é bem diferente que a dada para Marta: ‘estremeceu interiormente, ficou profundamente comovido’. Poderíamos pensar que Jesus cobra mais de Marta, por causa de sua experiência de fé, por se tratar de uma mulher mais madura e se comove, compadece por ver Maria triste e desconsolada, por causa da perda do irmão. Maria era possivelmente a caçula. Da parte de Jesus, percebemos uma emoção profética diante do sofrimento ou diante da morte como manifestação das sombras sobre a vida de Lázaro. Jesus perturbou-se, estremeceu-se. Este verbo João usa também para a reação de Jesus diante de sua ‘hora’ (12,27) e da traição (13,21), e para os apóstolos, diante da ausência de Jesus e da ameaça das trevas (14,1.27).
Neste estado de tensão, que se pode observar como clímax narrativo, Jesus pergunta onde puseram Lázaro. ‘Vem ver Senhor’, dizem os interlocutores. ‘Jesus chorou’. As lágrimas de Jesus, para o evangelista João, não são mero rito fúnebre (cf. Konings, p. 225). ‘Vede como ele o amava’, replicam os que lá estavam. Prefigura o que se dirá dos primeiros cristãos: “Vede como eles se amam”, de Luciano de Samosata (125 - 181 d. C.).
Alguns, por outro lado, observam ironicamente: ‘Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?’. No enredo, na intriga narrativa, há esta divisão de opiniões diante da atuação de Jesus, como sempre (por exemplo em 10,19-21). No nível do leitor, a aproximação que João assim opera entre a cura do cego (Jo 9) e o que acontece a Lázaro (Jo 11) tem efeito muito importante: pois este textos, juntamente com o da “água viva” Jo 4, eram usados para a preparação do batismo, (hoje em dia, são os 3º, 4º e 5º domingos da Quaresma do ano A, este que se sucede).
Diante da interpelação dos personagens, Jesus novamente ‘se agita no espírito’, a tradução acima diz comovido. Jesus segue em direção do túmulo – uma gruta com uma pedra na abertura – e manda retirar a porta: ‘Tirai a pedra’! Mas Marta anuncia uma objeção: ‘Senhor, já cheira mal, porque é o quarto dia’. Então Jesus apela para a fé de Marta (e de todos os crentes): ‘Se creres, verás a glória de Deus (manifestar-se)’ (cf. 11,4).
A Marta do capítulo 11 do Evangelho de João não parece ser a mesma sempre. No v.40 ela objeta, aparentemente como alguém sem fé, contrariamente ao v.27, no qual ele proclamou uma fé sem defeito. Este parece ser um recurso literário utilizado por João para aumentar o suspense narrativo.
Retiram a pedra, como Jesus ordenou. Ele levanta os olhos em oração (cf. Jo 17,11) e reza: ‘Pai, eu te dou graças porque me ouviste! Eu sei que sempre me ouves, mas digo isto por causa da multidão em torno de mim, para que creia que tu me enviaste’. Jesus tem consciência que o Pai o atende, mas diz isto em alta voz para deixar claro aos interlocutores que o Pai jamais o abandona. As palavras “sei que sempre me ouves” parece ser um recurso de João, proclamado como revelação na boca de Jesus. O Filho Jesus realiza a obra para a Glória de seu Pai.
Então, Jesus exclama com voz forte: “Lázaro, vem para fora”. O leitor assíduo de João lembar-se-á da passagem em 5,28-29, onde se diz: ‘Vem a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão sua voz’. Para João, a escatologia final tem muito a ver com a escatologia presente, ou seja, a salvação final tem a ver com a salvação presente, da opção que se faz por Jesus, ouvindo sua voz. “A escatologia final é o símbolo, a escatologia presente é a realidade” (Konings, p. 227). Trocando em miúdos, para Jesus a Salvação final, para todo ser humano, passa pela relação que se estabelece com ele no presente da existência. Só serei salvo se de fato eu já opto pela salvação, se dou mostras em minha vida que sou salvo.
Ao grito de Jesus, Lázaro sai, com rapidez, com os membros e o rosto envoltos em faixas mortuárias. Jesus, em contrapartida, diz: ‘Desatai-o e deixai-o caminhar!’. Agora, ressuscitado, reanimado (de novo Lázaro recebe a anima, a alma), pode andar, ver, prosseguir no caminho da fé, amparado pela comunidade.
Teologicamente falando, a ressurreição material de Lázaro, em Jo 11, não seria necessária para que nós leitores crêssemos que Jesus é de fato o Senhor. Nós cremos que ele é o Senhor, pois, ele mesmo nos disse: ‘Eu sou a ressurreição e a vida’ (Jo 11,25). Se colocarmos nossa fé em Jesus apenas e por causa dos milagres ou sinais por ele realizados, corremos o risco de desconectá-la da Palavra de Jesus. A Palavra de Deus, que se tornou carne em Jesus é o maior e mais profundo milagre do amor de Deus e a Ressurreição de Lázaro é confirmação do amor de Jesus por seu amigo querido, aquele que comove Jesus em sua misericórdia e compaixão. Quiçá, possamos também ressuscitar sempre de nossas mortes existenciais para caminharmos ao encontro de Jesus, sinalizando que ele é verdadeiramente a ressurreição e a vida. 

*cf. KONINGS, J. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. 2. Ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 218-219.
** A análise narrativa pode se estruturar em seis etapas: 1) a intriga: como se articula o conjunto da narração; 2) gestão dos personagens: quem são e como são identificados? 3) focalização do narrador: como fatos e personagens entram na mira do narrador? 4) a temporalidade: que indicações são oferecidas para situar a narração no tempo? 5) o contexto: pano de fundo onde a narração é projetada; 6) o ponto de vista do narrador (MARGUERAT, D. Entrer dans le monde du récit. Une présentation de l’analyse narrative. Transversitalités. 59 (1996), p. 1-17). Estes passos são adotados para a análise da narratividade de outros livros bíblicos (cf. VITÓRIO, J. Narratividade do livro de Rute. Estudos Bíblicos 98 (2008), p. 85-106, p. 85-106). 
***Maria diz ‘Senhor’, em grego, Kyrie (vocativo), tal qual Marta em 11,21. No hebraico, Adonai, ‘Senhor Deus’, designando a divindade de Jesus.


Nenhum comentário:

Postar um comentário