sábado, 26 de abril de 2014

II Domingo Pascal


“A paz esteja convosco”

Jo 20 19 Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”.  20 Depois dessas palavras, mostrou-hes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21 Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22 E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. 24 Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”.  26 Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.  27 Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mais fiel”. 28 Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29 Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” 30 Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. 31 Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

           
            O tempo pascal se descortina no calendário litúrgico como uma primavera, a principal estação para a vida do cristão, na qual tudo renasce e se faz esperança. Trata-se da renovação, um tempo litúrgico (celebrativo) por excelência. Nesse tempo, a vida dos cristãos se ilumina pela plena luz do Ressuscitado, simbolizado pelo círio pascal, que permanecerá aceso até Pentecostes. O Ressuscitado, tal como o sol que irradia sua força, metaforicamente falando, concede a vida aos homens e mulheres. O Vivente, em sua energia vital faz nascer as flores e os frutos da vida bem-aventurada na comunidade dos seguidores, na Igreja. Haja vista que os sacramentos da Iniciação Cristã são ministrados com maior intensidade e as liturgias e orações fazem memória daqueles que foram nascidos das águas batismais no Sábado Santo, da Vigília Pascal.
            Lembro-me da bela canção pascal do Pe. José Reginaldo Veloso que diz: “Cristo Ressuscitou, o sertão se abriu em flor, da pedra água saiu, era noite o sol surgiu, Glória ao Senhor”. Tal poesia musical revela o caráter fundamental da Páscoa: a passagem para a vida nova, em Cristo, no qual todas as realidades se transformam e ressignificam. A Morte de Cristo não é mais a última palavra, mas a força do Vivente, na Ressurreição, rediz à morte seu devido sentido: ela é apenas passagem e não ponto de chegada. A morte é lugar de acesso para a vida, a verdadeira vida escondida com Cristo, nosso Senhor.
            O II Domingo da Páscoa revela a alegria do dia da Ressurreição. A Igreja, transmitindo a tradição da Ressurreição de Jesus, exorta os cristãos a viverem os domingos do tempo Pascal (até o domingo da Ascensão e Pentecostes) como se fosse o dia da Páscoa. A mesma Igreja nos testemunha que todos os domingos, nos quais celebramos a Páscoa de Cristo, celebramos o memorial de sua paixão, morte e Ressurreição, isto é, celebramos o cerne da fé Cristã, o Mistério Pascal em sua integridade.
            O relato evangélico deste domingo pascal, retirado do Quarto Evangelho, Joanino, trata-se da narrativa de Jo 20,19-31. Podemos encontrar nesse relato três pequenos relatos que somados fazem parte da aparição de Jesus Ressuscitado aos discípulos reunidos e o anúncio da Paz. As subdivisões podem ser vistas em: vv. 19-23 aparição aos discípulos reunidos na noite do primeiro dia da semana; vv. 24-29 aparição de Jesus a Tomé e os outros, oito dias depois. Tomé vê e crê; vv. 30-31 escopo do Evangelho de João: para que acrediteis e tenhais a vida em nome de Jesus.
            Os versículos 19-23 tratam da aparição de Jesus aos discípulos reunidos na noite do primeiro dia da semana. João acentua, no v. 20, (talvez polemizando com o docetismo implícito) que Cristo aparece: “está no meio deles” e é um ser real. O docetismo é uma heresia cristológica (a respeito de Jesus Cristo) que diz que o Filho de Deus não havia se tornado humano e que sua humanidade era aparente (dokeo). Para os docetas, Deus, essencialmente puro e santo, não poderia habitar em um corpo carnal, essencialmente mau. Não é sem sentido a afirmação joanina no prólogo: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14).
            Nesse micro-relato (vv. 19-23), grosso modo, Jesus aparece aos discípulos e lhes deseja a paz, o Shalom, a realidade da plenitude de Deus. João reitera as palavras do Ressuscitado: “a paz esteja convosco”. A paz é a realidade do Vivente, pois as atribulações do mundo já não têm prerrogativas sobre ele. A paz do Ressuscitado é contraposição ao medo referido no versículo 19: “as portas estão cerradas, por medo dos judeus”. O medo (fobia) é proveniente da ação das autoridades judaicas que mandaram matar Jesus e também poderiam perseguir os seus seguidores de Jesus. Era noite, realidade das trevas. Contudo, o clarão da luz do Ressuscitado irrompe a noite escura. Jesus é a luz do mundo que, ao adentrar o recinto do medo, transmite a paz. Jesus envia os discípulos ao mundo: “como o Pai me enviou eu também vos envio” (v. 21).
            Na perspectiva joanina, Jesus é o enviado do Pai ao mundo, assim o evangelista se expressa em seu prólogo (Jo 1,11.14.27). Jesus envia os discípulos ao mundo, eles se tornam apóstolos. Nesse instante, dá-se, segundo a perspectiva teológica de João, o Pentecostes, a manifestação do Espírito Santo (v. 22). É o Espírito quem autoriza os discípulos a perdoarem os pecados. A ação pneumática (pneuma = espírito) é reconciliadora e restauradora (v.23). Jesus sopra o Espírito, v. 22 a. Tal gesto lembra a criação do primeiro homem, Adão (Gn 2,7). O profeta Ezequiel (37, 9) diz que o Senhor Deus, o Espírito, virá dos quatro ventos e soprará sobre os mortos para que eles retornem à vida. Este gesto de Jesus recria a comunidade dos discípulos, revitaliza-a para que ela seja no mundo um sinal do Vivente. A Igreja, viva e Ressuscitada, deve ser no mundo a luz, o sacramento do Ressuscitado, sinal de seu amor e de sua misericórdia.
            O segundo micro-relato (Jo 20,24-29), relata a segunda aparição de Jesus aos discípulos e a primeira vez que Tomé encontra Jesus, oito dias depois da primeira aparição. A narrativa diz que Tomé, chamado Dídimo ou gêmeo, não estava quando Jesus apareceu (v.24). Os discípulos dizem: “Vimos o Senhor”. Como se sabe, através do sentido semântico e teológico das palavras, que, para João, ver tem sentido de crer. Portanto, os discípulos não apenas veem Jesus como também creem que ele está ressuscitado. Tomé, contudo, diz que se ele não enxergar as sua mãos com a marca dos pregos e não colocar o dedo no lugar das marcas e não puser a mão no lado aberto de Jesus, ele não acreditaria (v. 25). Tomé é referencial para aqueles que têm uma fé nos fatos e que não conseguem ver além das próprias vistas e aparências. Ele pretende constatar pessoalmente. João dramatiza a situação. Indubitavelmente existe aí um interesse apologético (sobre as provas da ressurreição de Jesus), mas a finalidade que prevalece é de criar um sentido para as palavras “ver-crer”.
            “Oito dias depois”, diz João, Tomé já está com a comunidade apostólica. Alguns dizem que Tomé estava antes com medo e que seu pavor, diante de uma eminente represália por parte dos judeus, pudesse lhe custar a vida, mas não obstante a isso, preferimos ficar com o não-dito, simplesmente Tomé não estava na comunidade, por isso ele ainda não acreditava que Jesus havia ressuscitado. Mediante esta situação de não permanência na comunidade se deduz que não há verdadeira fé em Cristo Ressuscitado fora da vida comum de fé. É, portanto, o testemunho de outros, na fé, que nós somos fiéis, e, assim, dizemos: deles recebemos a fé e a outros transmitimos, “razão de nossa alegria”. O v. 26 afirma que Jesus novamente veio até eles: “estando de novo trancadas as portas, pôs-se Jesus no meio deles”. Jesus anuncia pela terceira vez o Shalom: “a paz esteja convosco”.
            Jesus, voltando-se para Tomé, disse-lhe: “põe o dedo aqui e olha para as minhas mãos; estende a mão e põe-na no meu lado, e não sejas mais incrédulo, mas acredita”. (v. 27). Neste versículo João traduz bem que o Verbo de Deus se fez carne e o Ressuscitado não é outro senão aquele que foi crucificado e viu a morte. Agora vivo, com o seu corpo pneumático (glorioso) não está em descontinuidade com o mistério de sua morte na cruz. O glorioso traz em si as marcas do crucificado.
            Da boca de Tomé, porém, advém uma belíssima profissão de fé, que é provavelmente uma fórmula que vem da liturgia da igreja primitiva, uma aclamação de fé: “Meu Senhor e meu Deus” O Evangelho de João é ritmado por várias profissões de fé, Marta, Tomé e outros mais. O texto joanino se encerra com um solene reconhecimento da divindade de Jesus. O Verbo de Deus se torna a expressão de fé de Tomé, o incrédulo. Tomé deixa a incredulidade de lado, sem mesmo ter colocado o dedo nas chagas de Jesus e nem sua mão no lado do Senhor. Ao ver ele crê. Este é o caminho da fé de Tomé, que gradativamente vai crescendo, invocando a confiança e a fé da comunidade cristã no Ressuscitado. O olhar de Tomé é capaz de penetrar os certames da fé. A ele ainda cabe uma advertência severa: “tu creste porque viste. Felizes os que creem sem ter visto”. Isso significa que a fé de Tomé era cega e ao exercitar sua visão, ele passa a crer, ver para além do fato de apenas ouvir. Mas felizes serão os que não verem, mas ouvirem e ouvindo acreditarem. “Crente” é aquele que supera a barreira da visão, que aceita o testemunho autorizado do outro. No tempo do Evangelho de João visão e fé caminhavam juntas, mas, agora, no tempo da Igreja, basta acreditar no testemunho dos apóstolos. Felizes, portanto, são os que escutam a Palavra e creem no testemunho da memória apostólica.
            Na última seção do relato evangélico desse domingo, o micro-relato Jo 20,30-31 encontramos a finalidade do Evangelho de João. No fim do Quarto Evangelho, objetivamente em Jo 20,30, encontramos o escopo de toda a narrativa joanina, isto é, a finalidade a qual o Evangelho foi escrito: “para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome”. Pode-se, portanto, vislumbrar duas das demais finalidades da narrativa joanina: a fé em Jesus, isto é, a adesão da vida do discípulo que busca identificar-se com o Mestre e a soteriologia, isto é, a salvação. Os sinais (semeia) que Jesus realizou não estão contidos no Evangelho, mas na história da vida dos discípulos e discípulas de Jesus em todo o tempo e espaço da fé cristã (v. 30). Jesus opera ainda em nós, pelo testemunho que ouvimos e acreditamos, pela fração do pão eucarístico, pela ação salvífica do Espírito, muitos sinais miraculosos e profundos. Ele credibiliza nossa fé, autoriza nossa ação no mundo. Portanto, nos convida, com veemência, a viver a paz, a verdadeira realidade da Ressurreição, a vida que não se rechaça com a morte, mas se expande pela graça da Vida Nova que todos nós um dia viveremos, pela experiência fé, no último dia, para toda a Eternidade.


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