sexta-feira, 11 de abril de 2014

DOMINGO DE RAMOS

Quando Jesus é aclamado pela Jerusalém que,
 há poucos dias, o crucificará!


P. Junior Vasconcelos do Amaral


Caro leitor. A reflexão deste Domingo de Ramos, diferentemente das reflexões anteriores, se deterá na compreensão de dois sentimentos que coexistem no coração humano e que muitas vezes o levam à escravidão: a empatia e a apatia. Certamente, vos parece estranho que eu deixe de lado a reflexão bíblica para me deter em uma área que não me compete. Talvez, mais estranho ainda seja o fato de eu tratar teologicamente de questões tão delicadas, como simpatia e apatia, quando elas deveriam ser abordadas a partir de outros vieses, tais como a Psicanálise ou a Filosofia. Contudo, convido-vos a tratarmos agora das dínames que naturalmente convivem, de forma muitas vezes conflitivas, no coração humano desde o arquétipo adâmico* (da Criação). A Criação é, portanto, o lugar arquetípico, ou seja, primeiro (do grego arché), dado que só podemos falar sobre o ser humano na ordem da mais tenra e limiar experiência de ser-existir, ou seja, a partir da Criação e, assim, compreendermos o presente de nosso existir, na relação com Deus, com o outro e com o kosmos.
A criação é estágio primeiro. Dela, lugar comum para todo ser humano, depreenderemos esta reflexão acerca da acolhida-aclamação (enquanto sym-pathia) de Jesus à porta de Jerusalém por parte dos homens que lá viviam, os quais também nos átrios do Templo da capital da fé, bradavam fortemente: Crucifica-o! (enquanto a-pathia). Deste modo e não de outro, buscaremos depreender o que se passa no coração dos homens e mulheres daquela época, e assim tentaremos compreender o que também nos toca a todos: cristãos, discípulos e discípulas de Jesus.
Para começo de conversa. O que se pode relacionar entre Jesus, em Jerusalém e os primeiros pais no Éden? Qual a relação que se pode estabelecer entre simpatia e apatia no relato bíblico deste domingo de Ramos e no relato bíblico da Criação, de Gn 2,4b-25? Grosso modo, poder-se-ia dizer que estes relatos estão afinados. Primeiro, por que se tratam, ambos, da ação divina, tanto Criadora, quanto Redentora. Segundo, por que Gn 2, relata a simpatia humana diante do desejo (a vontade) de Deus-Criador e Mt 21,1-11 narra, igualmente, a simpatia do povo hierosolomitano e circunvizinho em relação a Jesus. Terceiro, por que o relato da Criação, Gn 3, se dirá a respeito da queda ou de-criação, ou ainda desobediência. Enquanto Mt 26,14-27,66, relatará a aversão a Jesus, sua Paixão e execução. Neste sentido, dá para se compreender o porquê de o Domingo de Ramos ser chamado também de Domingo da Paixão.
A titulo de interpretação, tratemos primeiramente sobre a sym-pathia. Duas expressões gregas (syn – “juntos” e pathós, “paixão” ou “sofrimento” ou ainda, “sentimento”) que podem aludir ao fato de “estar sofrendo junto”, ou ainda, “paixão com”, noutro sentido, simpatia pode ser compreendida como  “ato de ser afetado (pelo rosto de) alguém” (filosofia da alteridade – Imanuel Lévinas). Nota-se aqui a estrita semelhança existente entre simpatia e compaixão. Daí poderíamos pensar que Adão e Eva, no Jardim do Éden, estavam em simpatia com Deus, na relação profunda com o Criador, que os amava, pois lhes havia criado. A mesma simpatia pode ser observada na relação entre Jesus e as multidões (as quais ele dava de comer Mt 14,13-21; Mt 15,32-39). Claro que em muitos momentos as multidões não compreendiam a Jesus, mas lhe eram simpáticos.
Obviamente, é possível concordar que simpatia é realidade inerente ao ser humano. Sentimos ou não simpatia por alguém, por algum projeto, por uma coisa em relação à outra. Evidentemente, não seria um contrassenso à teologia pensar que o primeiro casal criado por Deus simbolizem por excelência a simpatia humana. Eles foram criados na bondade (Gn 1,31)**. Eles de fato são simpáticos ao Criador e por isso nem sequer se importam com sua nudez (Gn 2,25). O fato de estar nu diante de alguém é antropologicamente (naturalmente) indício de simpatia. Em relação a Jesus, também ele se mostrava simpático ao povo, às multidões. Ele curava os doentes, acolhia os pecadores, reestabelecia ao convívio social àqueles que estavam fora das cidades, das comunidades, os que estavam com lepra, os coxos e cegos. As mulheres conversavam com Jesus e ele com elas. Sem nenhum receio podemos dizer que Jesus de Nazaré viveu profundamente a experiência da simpatia, a ponto de se entregar na cruz, abandonando-se para encontrar-se com o outro – o Outro***. Destarte, lembro-me da loucura da cruz. Para São Paulo, ela é poder de Deus (1 Cor 1,18). A cruz comporta em si um poder simpatizante, que faz unir aqueles que estão apáticos uns aos outros. Ao olharmos para cruz somos afetados pelo gesto profundo do amor de Cristo que se entregou como Cordeiro imolado que tira o pecado do mundo. Se olhamos, por outro lado, para a vida dos santos vemos esta empatia viva por Deus. A título de exemplo, citamos São Francisco, o Poverello de Assis. Em sua vida, a partir dos testemunhos, obsevamos a profunda simpatia por Deus e pelos pobres. Ele, no seu desejo de esvaziar-se, constituía-se indivíduo. Também, o processo de individuação comporta a dimensão do dar-se, do doar-se ao outro, da alteridade.
Em contradição à cultura de solidariedade e simpatia. Podemos observa nos textos de Gn 3 e Mt 26-27 a castração das relações dialógicas, isto é, das relações que possibilitam o respeito, o diálogo, a alteridade, a verdadeira simpatia. No relato bíblico da de-criação (Gn 3), observamos o pecado que “entra na vida humana”. O pecado das origens, corroborado pelo desejo de o homem saber o que pensa Deus, traduz de maneira pertinente a vontade do homem de ser igual a Deus. Igualar-se ao Criador tornou-se necessidade humana. A apatia a Deus é a forma de rechaçá-lo em sua autoridade (como aquele que nos faz crescer). Apatizar Deus é a tentativa de negar que dele viemos e que para ele voltaremos. Apagar Deus de nossa história, é indubitavelmente, a tentativa de reforçar o nosso desejo egocêntrico e encapsulado (centralizado em nossas decisões muitas vezes arbitrárias) em detrimento de se fazer a sua vontade. O problema está, no entanto, instaurado no fato de que quanto mais rechaçamos a Deus, tentando eliminá-lo de nossas vidas, mais fugimos de nós mesmos.  Quanto mais próximos e simpáticos a Deus, mais próximos e simpáticos a nós mesmos... O mesmo acontece com Jesus no relato de Mateus (capítulos 26-27). Jesus é denunciado, traído, preso, julgado, torturado e executado. Sua sentença capital: a morte! Negar ao outro a possibilidade de viver é rechaça-lo em sua simpatia, é fechar as vias de acesso para ser por ele amado. Ao Criador (Gn 3) e ao Filho do Criador (Mt 26-26), restam-lhes apenas a a-pathia. Deus, na visão antropomórfica**** do autor bíblico, expulsa as criaturas do Éden (Gn 3,24). Jesus na sua glória acolhe o ladrão, seu companheiro no Gólgota.
Em contrapartida à cultura de a-pathia, podemos propor a revisão da cultura de solidariedade. Esta cultura, que antes de tudo anuncia as relações dialógicas, estabelece que, sem o princípio da equidade, na qual todos sejam iguais, embora com diferentes funções, não há alteridade. Sem alteridade não há equidade. Só nos fazemos iguais aos outros quando de fato o acolhemos, e não o aprisionamos. Só estabelecemos vínculos de simpatia quando na liberdade o deixamos ir e vir, quando o deixamos ser-existir.
Neste sentido, a simpatia se estabelece quando voltamos à essência de nosso ser. Quando voltamos nossa consciência para o ato criatório de Deus, no qual ele nos configurou bons, a todos sem distinção. Só é possível superar a cultura do individualismo quando nós, os primeiros a falarmos dela, nos comportamos de modo crítico e avesso, ao mesmo tempo solidários, fraternos e simpáticos aos problemas sociais, do menor abandonado, da viúva, do estrangeiro, da mulher marginalizada, da sociedade vilipendiada pelas estruturas castradoras.
Por fim, podemos afirmar que vivemos entre a simpatia e a apatia. No cerne da questão: “entre a cruz e a espada”. No entanto, somos convidados pelo Criador e por seu Filho Jesus Cristo a superarmos toda cultura de apatia que inviabiliza a possibilidade de o outro ser bom e feliz.  Haja em nós cristãos, discípulos e discípulas de Jesus, espaço aberto e fecundo para que a simpatia, dom do Espírito, possa ser o fundamento e a base sólida das nossas atitudes, a fim de que se instaure em nosso mundo o tão sonhado Reinado de Deus.

*Estamos falando do relato bíblico da Criação, Gn 2,4b..., no qual Deus criou o mundo, criou o homem e a sua companheira e deu a este casal o nome de Adão, de adam, em latim húmus, e Eva, o ser vivente.
**O primeiro relato da criação (Gn 1) afirma que depois de tudo ter criado, inclusive o ser humano, Deus viu que tudo era muito bom. Daí, a Teologia Cristã pensou a bondade da Criação.
***Jesus desapegou-se a sua condição divina, nos lembra Paulo aos Filipenses (2,6). Este esvaziamento, quenose, é “expressão do que ele sempre quis se tornar ao não se apegar à sua condição divina para obedecer de modo único ao Pai; é a tradução quenótica de seu eterno amor de Filho, de sua eterna eucaristia em relação ao Pai sempre maior”. (RIBEIRO, C. S. M. Mysterium Paschale. A quenose de Deus segundo Hans Ur von Balthasar. São Paulo: Loyola, 2004. p. 88).

****Quando o autor bíblico atribui a Deus características propriamente humanas: “Deus se arrependeu de ter criado o homem” (6,6).

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