sábado, 1 de março de 2014

VIII DOMINGO TEMPO COMUM


DEUS OU O DINHEIRO? 

Mt 6 24 “Ninguém pode servir a dois senhores; pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. 25 Por isso eu vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa? 26 Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta. Vós não valeis mais do que os pássaros? 27 Quem de vós pode prolongar a duração da própria vida, só pelo fato de se preocupar com isso? 28 E por que ficais preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. 29 Porém, eu vos digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. 30 Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, não fará ele muito mais por vós, gente de pouca fé? 31 Portanto, não vos preocupeis, dizendo: ‘O que vamos comer? O que vamos beber? Como vamos nos vestir? 32 Os pagãos é que procuram essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. 33 Pelo contrário, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. 34 Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus próprios problemas”.


O Evangelho de Mateus continua a catequese de Jesus (iniciada no capítulo 5), na montanha (Mt 5,1). Todo ensinamento (didaskalo) de Jesus parece direcionar seu sinal para um ponto comum: a hegemonia de Deus na vida humana. O ser humano é criação magnânima de Deus. E, sendo assim, nossa vida só ganha verdadeiro sentido se estivermos direcionadas para Ele. Trata-se de uma verdade teológica, que corresponde à vontade de Deus, ou seja, a salvação humana, à escatologia humana, isto é, à direção a qual Deus nos destina, que corresponde à salvação, à vida eterna.

Jesus nos convida a perceber que Deus é providente e bom. Nada que nós possamos construir com nossas mãos é maior que a providência e o amor de Deus por nós. Esta é verdadeiramente uma experiência da consolação divina. Deus mesmo coloca em nós todo anseio, pelo bem, pelo justo e pelo ético. Contudo o coração humano tende muitas vezes à vaidade, ao exagero, a ter mais do que merece ou ainda mais do necessita para bem viver, bem se relacionar. Quando supervalorizamos as coisas em detrimento do desvalor da vida, do próximo e da felicidade entendemos o que significa servir ao dinheiro. O dinheiro é de fato sedutor, traz consigo consequências prazerosas, mas não é o suficiente para sanar o desejo do coração humano. Os anseios de beleza, amizade, amor, verdade, paz estão alicerçados no próximo e em Deus, absolutamente.

Evidentemente, hoje a relação humana com o dinheiro deve ser repensada a partir do viés da solidariedade e da austeridade, a fim, inclusive, de que o próprio mundo em que habitamos possa ser capaz de suportar a sobrecarga da exigência humana. As riquezas minerais, a água, o solo, o ar estão cada dia mais saturados por causa da ganância humana deliberada e enlouquecida. Cada dia mais o homem deseja para si o que poderia ser dividido, partilhado entre milhares de outras pessoas. Como, por exemplo, o direito à educação, o direito à produção na terra, o direito a todos os bens necessários. Mas o acúmulo é de fato pernicioso e maligno. Pois, quando temos exageradamente o bem estar em nossa casa, o acúmulo e o desperdiço de alimentos, há outros que passam por necessidades extremas, e as vezes nem casa têm e nem sabem o que poderão comer a fim de sobreviver. Trata-se da opulência de uns em detrimento da miséria, da sobrevida de outros tantos.

O sistema Capitalista, que passa hoje por várias modificações, inclusive de cunho neoliberal, não corresponde mais aos anseios de toda população global. Trata-se de um sistema que beneficia a poucos, no prisma da desconstrução do sonho e da utopia de milhões e milhões de seres humanos. No sistema operante de hoje, somos tratados como número, somos tratados a partir do que produzimos e não mais pelo que somos enquanto sujeitos humanos. Quem ousa pensar, buscar entender este sistema, torna-se incrédulo diante da questão: “Há sentido em tudo isso?” Evidentemente nossa resposta será evasiva, ou tendenciosa ao mal estar da própria civilização, descontente e sem sentido.

Contudo, a mensagem do Evangelho é sempre uma balisa, um referencial de esperança. Este referencial é como “uma luz no fim do túnel”, mesmo distante, sabemos que ela existe. É imprescindível que os homens de hoje, independente de suas opções religiosas sejam capazes de ressignificar o sentido da fé, que é sempre esperançoso. Pois, nunca ouvi dizer que alguém de fé não tivesse em seu coração um espaço privado para a esperança. Sejamos cristãos ou budistas, animistas ou mulçumanos, somos levados a crer que os símbolos, que nos referenciam a pensar a divindade e nela crer, são sempre esperanças para nossas vidas.

  Para Jesus de Nazaré, por sua vez, a exigência é ainda tipicamente maior. Pois, segundo ele, ninguém será capaz de agradar a dois senhores. Ou amará um e deixará o outro com ciúmes, ou servirá a um melhor que a outro. Esta situação é sempre delicada. Para ser mais radical, ele diz: “Vós não podereis servir a Deus e ao dinheiro”. Trata-se da exigência máxima: ou agradamos a Deus e vivemos aquilo que ele nos convida a viver, o amor, a solidariedade e a vida fraterna, ou agradamos ao dinheiro e todas as suas exigências, de acúmulo, de ganância e inclusive de leviandade e injustiça.

Jesus nos convida a confiar na bondade de Deus e esperar por Ele, pois ele faz tudo ser bom e belo a seu tempo. Não precisamos nos preocupar como nos vestiremos, o que comeremos ou o que falaremos. Tudo isso faz parte da enigmática complacência de Deus, de sua providência. O que precisamos, contudo, vivenciar é indubitavelmente a justiça de Deus. A justiça do Reinado de Deus, de sua hegemonia sobre a realidade humana. A justiça de Deus consiste no amor absoluto, na vivência da partilha, do perdão e de tudo aquilo que nos faz mais humanos.


Deste modo, somos exortados a confiar em Deus em toda sua providência, em tudo aquilo que ele deseja para nós, suas criaturas, seus filhos amados. Que também sejamos capazes de viver o perdão, a partilha e a solidariedade de coração e não nos deixemos seduzir pelo dinheiro, que é um meio para nos fazer mais felizes, e não o fim, a finalidade de nossa felicidade.

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