sábado, 29 de março de 2014

IV DOMINGO DA QUARESMA

"EU SOU A LUZ DO MUNDO"


Jo 9, 1 Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. 2 Os discípulos perguntaram a Jesus: 'Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?' 3 Jesus respondeu: 'Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele.  4 É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5 Enquanto estou no mudo, eu sou a luz do mundo.' 6 Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. 7 E disse-lhe: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé' (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando. 8 Os vizinhos e os que costumavam ver o cego - pois ele era mendigo - diziam: 'Não é aquele que ficava pedindo esmola?' 9 Uns diziam: 'Sim, é ele!' Outros afirmavam: 'Não é ele, mas alguém parecido com ele.' Ele, porém, dizia: 'Sou eu mesmo!' 10 Então lhe perguntaram: 'Como é que se abriram os teus olhos?' 11 Ele respondeu: 'Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: 'Vai a Siloé e lava-te'. Então fui, lavei-me e comecei a ver.' 12 Perguntaram-lhe: 'Onde está ele?'  Respondeu: 'Não sei.' 13 Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. 14 Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. 15 Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: 'Colocou lama sobre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!' 16 Disseram, então, alguns dos fariseus: 'Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.' Mas outros diziam:  'Como pode um pecador fazer tais sinais?' 17 E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao cego: 'E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?' Respondeu: 'É um profeta.' 18 Então, os judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista. Chamaram os pais dele 19 e perguntaram-lhes: 'Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que ele agora está enxergando?' 20 Os seus pais disseram: 'Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. 21 Como agora está enxergando, isso não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo.' 22 Os seus pais disseram isso, porque tinham medo das autoridades judaicas. De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias. 23 Foi por isso que seus pais disseram: 'É maior de idade. Interrogai-o a ele.' 24 Então, os judeus chamaram de novo o homem que tinha sido cego. Disseram-lhe: 'Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é um pecador.' 25 Então ele respondeu: 'Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo.' 26 Perguntaram-lhe então: 'Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos?' 27 Respondeu ele: 'Eu já vos disse, e não escutastes Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?'28 Então insultaram-no, dizendo: 'Tu, sim, és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés. 29 Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse, não sabemos de onde é.' 30 Respondeu-lhes o homem: 'Espantoso! Vós não sabeis de onde ele é? No entanto, ele abriu-me os olhos! 31 Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade. 32 Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33 Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada'. 34 Os fariseus disseram-lhe: 'Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?' E expulsaram-no da comunidade. 35 Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: 'Acreditas no Filho do Homem?' 36 Respondeu ele: 'Quem é, Senhor, para que eu creia nele?' 37 Jesus disse: 'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.' Exclamou ele: 38 'Eu creio, Senhor'! E prostrou-se diante de Jesus. 39 Então, Jesus disse: 'Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não vêem, vejam, e os que vêem se tornem cegos.' 40 Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto e lhe disseram: 'Porventura, também nós somos cegos?' 41 Respondeu-lhes Jesus: 'Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: 'Nós vemos', o vosso pecado permanece.'



            O Evangelho deste 4º domingo da Quaresma é verdadeiramente uma catequese sobre Jesus, luz do mundo, luz da Vida eterna. A catequese que está por trás desta longa narrativa, envolvendo Jesus, os discípulos, o cego de nascença, as autoridades judaicas, é sem dúvida a catequese do verdadeiro reconhecimento de Jesus, a luz do mundo. Quem segue a Jesus de fato não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.
            A peculiaridade deste relato já está presente no primeiro versículo: “ao passar, Jesus viu um cego de nascença” (v.1), trata-se da percepção de Jesus, ele percebe as realidades que estão ao seu caminho. O cego, que também era mendigo (v. 8), estava à margem do caminho. Jesus o percebe. Jesus é sensível às realidades e pessoas que o circundam. Trata-se de uma realidade própria do Messianismo de Jesus. Ele assume a identidade salvífica e, com isso, reconhece todas as realidades que estão à margem do mundo, isto é, toda a miséria humana.
            Depois da percepção de Jesus, os discípulos entram em cena perguntando para Jesus se os pais do cego ou ele mesmo havia pecado para estar daquele jeito (v. 2-5). Segundo a tradição judaica, muitas doenças eram reflexos do pecado das pessoas. Ainda hoje, existe muito esta mentalidade no meio mais simples, onde a religião ainda domina. A doença não é reflexo do pecado de uma pessoa, mas das opções de vida que ela tomou ou ainda é reflexo da hereditariedade ou ainda algo que a natureza mesma possibilitou existir.  Não entraremos aqui em pormenores, mas é preciso deixar claro que para os discípulos, judeus, a mentalidade da doença como fruto do pecado era algo normal, e mesmo tendo passados dois mil anos de história, as coisas não mudaram tanto. Contudo, Jesus diz que: “'Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele” (v.3), depois disse: “Enquanto estou no mundo eu sou a luz do mundo” (v.5). Jesus assume para si a responsabilidade de tirar aquele homem das trevas da cegueira.
            No terceiro momento, aparentemente um clímax narrativo (v.6-7), no qual se dá a resolução do problema da cegueira, se diz: “Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego.  E disse-lhe: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé' (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando”. Jesus realiza a cura da cegueira do homem à beira do caminho e mendigo. Tudo se transforma no interno do drama contado por João. A ação transformadora, da cegueira para a visão, faz parte da complacência de Jesus para com o cego. Jesus realiza a vontade de Deus, tornando-se luz no mundo da cegueira do homem que andava nas trevas.
            Em seguida, (v.8-12) o homem que passou a enxergar será questionado pelas pessoas do local onde ele vivia como mendigo. Trata-se da primeira querela em torno da cura realizada por Jesus. Alguns não acreditavam que era o cego, mas ele disse: “Sou eu mesmo”. E além disso afirmou que quem o havia curado fora Jesus.
            A segunda querela (v. 13-18), gira em torno dos fariseus, do cego, e da cura realizada em dia de sábado. Os fariseus estavam incrédulos em relação a ação miraculosa de Jesus. Este sinal era extremamente diferente do que eles esperavam de Jesus. Jesus cura no dia de sábado, afrontando a lei do shabat. Alguns porém acreditavam que era Jesus mesmo que havia realizado tal sinal. O cego disse que se Jesus fosse mesmo um pecador, Deus não haveria escutado sua palavra. Por fim, os fariseus, em questão, continuam não acreditando em Jesus.
            A terceira querela (v. 19-23) se situa no cenário entre os fariseus e os pais do rapaz que era cego, estes são inquiridos pelos fariseus a respeito da verdadeira cegueira do filho. Os pais, com medo das represálias que os judeus poderiam fazer com eles, se se dissessem adeptos de Jesus, apenas respondem que o filho deles era maior de idade e que poderia dizer por si próprio. Contudo, afirmam que era mesmo o filho deles e que era cego, agora não sabiam quem tinha recuperado a visão do filho.
            No quarto momento (v.24-34), o homem que recuperou a visão foi novamente chamado pelas autoridades. “Disseram-lhe: 'Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é um pecador.' Então ele respondeu: 'Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo'”. O cego é audacioso e diz, olhando para as autoridades da comunidade judaica: “Eu já vos disse, e não escutastes Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?”. A questão se agrava com estas palavras que o homem curado diz, e, então, as autoridades querem expulsá-lo da comunidade, pois percebiam que ele, agora, era adepto de Jesus, que o curou compassivamente no caminho da exclusão. Para concluir, o homem que voltou a enxergar continuou a dizer: “'Espantoso! Vós não sabeis de onde ele é? No entanto, ele abriu-me os olhos! Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada'” (Jo 9,30-33).
            No quinto momento (v.34-38), o homem curado é expulso da comunidade. Aqui, a expulsão do cego da comunidade judaica marca a narrativa joanina como um divisor de águas. A expulsão do ex-cego da comunidade corresponde à divisão real entre os seguidores de Jesus, que conseguem enxergar a verdadeira luz do mundo e os cegos, que ainda continuam na comunidade e que acham que enxergam (como os fariseus), mas nada veem. Os fariseus podiam até saber sobre a palavra de Deus ou sobre a Lei de Israel, mas não enxergavam o verdadeiro e real sentido de Deus. Eles tinham olhos, mas não enxergavam realmente. Neste momento, Jesus indaga o curado: “Acreditas no Filho do Homem?' Respondeu ele: 'Quem é, Senhor, para que eu creia nele?' Jesus disse: 'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.' Exclamou ele: 'Eu creio, Senhor'! E prostrou-se diante de Jesus”. Este diálogo é fundamental, pois o ex-cego agora enxergará o verdadeiro sentido real de sua cura: o próprio curador, aquele que é realmente “a luz do mundo”. O ato de se prostrar diante de Jesus resume claramente o sentimento do homem que voltou a enxergar.
            O desfecho, o fim do drama narrativo, pode ser encontrado nos versículos 39 a 41: “Então, Jesus disse: 'Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não vêem, vejam, e os que vêem se tornem cegos.' Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto e lhe disseram: 'Porventura, também nós somos cegos?' Respondeu-lhes Jesus: 'Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: 'Nós vemos', o vosso pecado permanece’”.

            Desta forma, temos hoje diante dos nossos olhos a verdadeira luz do mundo: Jesus. Somos convidados a romper as trevas de nosso pecado, de nosso egoísmo e, principalmente, de nossa falta de fé. Temos, em Jesus, a verdadeira luz capaz de indicar o verdadeiro caminho para seguirmos. Que Ele, a luz do mundo, ilumine as trevas dos nossos corações e nos faça realizar o bem, o amor, a justiça e a solidariedade, para que, enfim, o mundo creia.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário