sábado, 28 de setembro de 2013

XXVI DOMINGO COMUM

DEUS OU O DINHEIRO?

Uma opção que traz consequências!


Lc 16, 19 'Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. 20 Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão à porta do rico. 21 Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. 22 Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. 23 Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. 24 Então gritou: 'Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas'. 25 Mas  Abraão respondeu: 'Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. 26 E, além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós'. 27 O rico insistiu: 'Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, 28 porque eu tenho cinco irmãos. Manda os prevenir, para que não venham também eles para este lugar de tormento'. 29 Mas Abraão respondeu: 'Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!' 30 O rico insistiu: 'Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter'. 31 Mas Abraão lhe disse: `Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos'.


            As parábolas de Lucas nos encantam, pois são matizadas com cores vivas e atraentes. Tais parábolas correspondem a verdadeiros exemplos para serem pensados, vividos e anunciados pelos cristãos, ouvintes e viventes da Palavra.
            Lc 16,19-31, em particular, consiste em uma história exemplar, delineada em dois níveis (vv. 19-26 e 27-31), afirma Robert J. Karris[1]. A lente do narrador focaliza um homem rico, seus cinco irmãos e os leitores que irão seguir o exemplo do rico ou o ensinamento de Jesus e do AT (Torá e os Profetas), acerca do cuidado com os necessitados, como Lázaro, e, assim, ser filhos de Abraão.
            Trata-se de uma verdadeira escolha, de uma encruzilhada que se aparece diante do caminho. Ou optamos por Deus e as exigências de sua filiação, isto é, sua Palavra ética que nos conduz ao bem, ao direito e à justiça, ou optamos pelo dinheiro, pelo deus Mamón, que nos garante o conforto material, mas nos leva a viver os tormentos futuros, próprio de quem apenas serve ao poder, à arrogância e à insensatez. Grosso modo, esta narrativa parabólica nos coloca diante das opções que a vida nos oferece. Ou agradamos a Deus e a seus interesses ou agradamos ao dinheiro e as suas benesses. Em Lc 14,13 se diz “Ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro”.        
            Se os cinco irmãos do rico e nós, leitores hodiernos de Lucas, não seguirmos os ensinamentos de Moisés e, como cristãos, não obedecermos aos mandamentos de Cristo, não participaremos também, como o rico, do banquete messiânico (19-26). Esta é a moral lógica que podemos obter da leitura da parábola em questão narrada por Jesus.
            Podemos notar também na parábola sobre Lázaro e o rico uma inversão na vida futura das condições que se teve na vida presente. Dos versículos 19 a 22 vemos as realidades do rico, sem nome e do pobre, nomeado por Lucas: “Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas”. Nos versículos 22-23 vemos a inversão escatológica (inversão da realidade final): “Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado”.
            Na inversão escatológica, os pobres herdarão a vida eterna e a felicidade completa, os ricos perecerão de mãos vazias (Lc 1,53 = Sl 107,9). O Magnificat de Maria apresenta esta inversão: “Depôs os poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias” (Lc 1,52-53). Não se trata aqui de culpabilizar os ricos por serem ricos ao menos, mas trata-se de perceber que a riqueza é, na sua maioria, fruto da injustiça e da iniquidade.
            É pelo empobrecimento de alguns que outros se tornam ricos e milionários. No caso do Brasil, país da corrupção generalizada, em todos os setores e níveis, é a exploração do pobre, o desvio de finanças dos cofres públicos, os “mensalões” e roubos de verbas para os municípios, que fazem alguns ricos se tornarem mais ricos ainda. Esta riqueza, fruto da injustiça, traz consequências graves para todos. Falta de investimento na Educação, falta de hospitais dignos, de moradias, de segurança, de infraestrutura, de tudo aquilo que dignifica o ser humano.
            Esta riqueza iníqua (injusta) forja o descaso para com os pobres, os Lázaros e as Lázaras deste mundo, que sofrem nas filas do SUS, que esperam para receber sua humilde aposentadoria, que precisam trabalhar o mês todo para ganhar um salário mínimo miserável, homens e mulheres, crianças e idosos que vivem abaixo da linha da pobreza. É esta riqueza que é condenada nas entrelinhas do Evangelho. É o abandono, o descaso, o descompromisso com o pobre Lázaro que Deus abomina. Para a Torá, o pobrezinho, a viúva, o órfão e o estrangeiro são os prediletos de Deus e, para Jesus, esta dinâmica não é diferente nem abandonada. Dos pobres será o Reinado de Deus. Os excluídos constituem os privilegiados para amor de Cristo. É para eles que Jesus de Nazaré foi enviado pelo Pai, para as ovelhas empobrecidas da casa de Israel.
            O Evangelista Lucas era grego. Ele colocou na boca de Jesus, narrando o seu Evangelho, uma história aparentemente hebraica, com uma roupagem grega. Esta mistura só poderia ter como resultado esta história bonita, mas na mesma proporção curiosa e inaudita. Principalmente porque dois termos hebraicos apresentados por Lucas, “junto de Abraão” e “região dos mortos, no meio dos tormentos”, ganham significado e colorido diferentes no horizonte hermenêutico do Terceiro Evangelho.
            O termo seio de Abraão ou junto de Abraão consiste em uma referência à posição preferida quando a pessoa se reclinar com Abraão no banquete messiânico. O termo região dos mortos, no meio dos tormentos equivaleria ao Hades grego ou ao Sheol conhecido pelos hebreus. Mas se sabe pela tradição bíblica de Israel que o Sheol era um lugar de silêncio, a morada dos mortos, no seio da Terra. Tais lugares seriam para onde iriam todos após a morte: justos e injustos, havendo, no entanto, nessa região dos mortos, uma divisão para os justos, e outra para os injustos, separados  por um abismo intransponível (Lc 16,26). Todos estavam ali plenamente conscientes. O lugar dos justos era de felicidade, prazer e segurança. Era chamado seio de Abraão, e Paraíso. Já o lugar dos ímpios era medonho, ignífero (onde há fogo), cheiro de dores, sofrimentos, estando todos perfeitamente vivos. Mesmo o rico chamando Abraão de Pai, ele não era filho, pois não cumpria a Lei que foi dada aos verdadeiros descendentes de Abraão.
            Para Ef 4,8-10, o Hades situa-se bem no profundo da terra. Segundo Paulo aos Efésios, a referência à entrada de almas nesse lugar é sempre o léxico “desceu”. Outras citações também valem para compreensão do Sheol ou Hades: Jacó (Gn 37,35) e Core (Nm 16,30.33). Em Jó (17,16; 11,8; Sl 30,3; 86,13; 139,8; Pv 9,18; 15,24; Is 14,9; 38,18-32; Ez 31,15,17; Am 9,12).
        Em todas essas passagens, a referência é o Sheol, é mostram um lugar situado nas profundezas da terra.  Os léxicos  Hades e Sheol aparecem às vezes traduzidos também por inferno. Veja Dt 32,22; 2Sm 22,6; Jó 11,8; 26,6; Sl 16,10; e em muitos outros textos do Antigo Testamento, bem como do Novo Testamento como Mt 16,18; Ap 1,18.
            A guisa de conclusão, pode-se dizer que a parábola do rico e de Lázaro tratam de questões fundamentais para a comunidade de Lucas, que vivia entre a riqueza de alguns homens e mulheres e a pobreza da grande maioria, os excluídos, pobres, mulheres e marginalizados. Jesus prefere, opta pelos pobres. Sua opção é radical, preferencial. E porque esta opção não deveria ser para a Igreja hoje também preferencial e radical? Trata-se hoje revermos nossas opções fundamentais: ou Jesus Cristo e o seu Evangelho ou ao dinheiro e suas ilusões. A comunidade de Lucas ilumina a práxis da Igreja hoje. O alerta aos ricos da comunidade lucana vale para os nossos ricos de hoje, que se deixam ludibriar pela riqueza, pelo luxo, pelo status quo, oferecidos pelo dinheiro, que muitas vezes é fruto da injustiça, da exploração, do abuso para com os pobres, na exploração de sua mão de obra barata, quase escrava.
            Enfim, precisamos optar. Ou servimos a Deus e ao Evangelho de seu Filho Jesus Cristo, assumindo a missão que o Evangelho nos confia, ou optamos pelo dinheiro e nos rendemos aos seus caprichos, favorecendo-nos pessoalmente, olhando apenas para nosso umbigo. Deste modo, que a comunidade cristã de hoje, e, principalmente nós, sejamos capazes de fazer a melhor escolha, assumindo radicalmente suas consequências: Deus ou o dinheiro?

                                                                                 




[1] KARRIS, Robert J. O Evangelho segundo Lucas. In.  BROWN, Raymond E.; FITZMYER, Joseph.; MURPHY, Roland E. (Ed.). Novo comentário bíblico São Jerônimo. São Paulo: Paulus; Santo André: Academia Cristã. 2011. p. 283.

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