sexta-feira, 6 de setembro de 2013

XXIII DOMINGO COMUM

Ser discípulo: a arte de renunciar.



Lc 14, 25 Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: 26 'Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo. 28 Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, 29 ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 30 'Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!' 31 Ou ainda: Qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? 32 Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. 33 Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!'



            Era grande o número dos que procuravam Jesus para o ouvir. Muitos motivados pela curiosidade, outros pela admiração sincera, mas poucos pelo verdadeiro sentido: de serem discípulos-apóstolos. Todavia, era para este pequeno número que Jesus se dirigia, quando dizia a respeito da abnegação para segui-lo. A mensagem de Jesus era exigente e ainda soa muito difícil para os tempos de hoje, talvez até mais exigente ainda, dado o fato de que hoje são muitos os paradigmas que podem ser seguidos pelos homens e mulheres terráqueos, e também por todos os cristãos. Há cristãos batizados que vivem seduzidos ou tentados por outros ídolos, até mais atraentes que o Cristo crucificado Ressurreto, tais como o dinheiro, o poder, o prazer. Estas tentações ainda visitam nossas casas, batem à nossa porta, entram em nossas casas e, muitas vezes, têm um lugar em nossa consciência. Extirpar tais ídolos para longe de nós não é tarefa fácil, porém, para isso é preciso ter fé, coragem e acima de tudo decisão para seguir a Jesus e ser fiel a mensagem do Evangelho por ele anunciada.
            Na catequese de Jesus em Lucas, o caminho para o discipulado se destaca como um lugar de grande exigência para quem se dispõe a seguir o mestre Jesus. Para isso, se faz necessário que estejamos atentos diuturnamente para não nos deixar cair em tentações, como o relativismo, o egocentrismo e a falta de fé, que significa fidelidade. A fidelidade ao mestre de Nazaré é a chave de leitura para o seguimento de Jesus proposto na narrativa elaborada pelo evangelista Lucas.
            Neste sentido, Jesus mesmo observa que muitos o seguiam pelo caminho. Daí ele propõe um ensinamento diferenciado e mais profundo. Desta forma, quanto mais exigente era a proposta de Jesus mais facilmente ele poderia perceber quem de fato tinha coragem suficiente para segui-lo, testemunhando-o com sua vida.
            No versículo 26, está situado o ponto de equilíbrio para o verdadeiro exercício do discipulado de Jesus: o desapego. Quem quer seguir a Jesus precisa necessariamente desapegar-se daqueles que fazem parte de sua casa. Afim inclusive para fazer a experiência da missão, que corresponde fundamentalmente em deixar seu conforto, seu lugar de equilíbrio para ir ao encontro do que está por realizar, por ser construído, por ser ainda edificado. Assim é a missão. Ela consiste num descentramento de si, para encontrar-se com o outro necessitado, aquele deseja uma mensagem salvífica, isto é, a transformação para sua existência. A missão de deixar mãe, irmãos, irmãs, casas e coisas, só não é mais árdua porque não se deixa aquele que é o porto seguro para o missionário, o Pai. O Pai é o único que não pode ser relativizado na vida do missionário. Este pai corresponde ao Pai celeste, que é para o missionário a única fonte de segurança, de amparo e conforto. Até a própria vida pode ser relativizada na missão. O não apego a si mesmo corresponde abnegação para ir e vir, para anunciar ou ouvir, para semear ou colher.
            A cruz se destaca no v. 27 como instrumentum laboris, instrumento de trabalho, para o missionário. Ele deve identificar-se com Jesus que tomou a cruz e a carregou até o Calvário, fazendo-se fiel ao projeto soteriológico proposto por Deus. Jesus é o máximo exemplo para o cristão. Ele é paradigma que deve servir de inspiração. Sua obediência a Deus o levou a anunciar o Evangelho, a boa nova do Reinado de Deus. Esta fidelidade ao Evangelho, à missão de doar sua própria vida, fez de Jesus um mártir justo para a salvação dos homens e mulheres. Por sua morte de Cruz Jesus tirou todo pecado do mundo. Portanto, a cruz se torna para nós cristãos o lugar por antonomásia da salvação e deve se tornar nosso instrumento de trabalho na Nova Evangelização. Mas é preciso sempre estar atrás de Jesus, sempre em estado de obediência, de seguimento fiel. Seguir alguém é ouvir suas indicações, seus ensinamentos e não querer ensiná-lo...
            A partir do versículo 28 Jesus propõe duas microparábolas, isto é, comparações pequenas. Elas ilustram a decisão do discípulo de seguir a Cristo, mantendo-se fiel ao discipulado. Para Lucas, o discípulo prudente deve calcular com precisão suas potencialidades ou misérias mediante a decisão de seguir ou não a Jesus. Para seguir o Nazareno é preciso que nos identifiquemos com ele. Lucas compara esta atitude com a decisão de alguém de levantar uma torre. Foi preciso que esta pessoa calculasse seus gastos orçamentais. A pessoa prudente é aquela que mede suas potencialidades diante de uma missão iminente. É preciso chegar ao fim da missão com a mesma consciência da gravidade de quando a começou. Este gesto é chamado de prudência. Do modo contrário, a imprudência gerará um mal estar terrível, pois muitos começarão a rir de nossa incapacidade e imprudência.
            A outra comparação para o discípulo que se decide por seguir a Jesus corresponde a decisão de um rei de atacar outro reinado, o seu adversário. É preciso que o rei calcule com precisão o número de combatentes. De modo contrário será um vexame, pois seu adversário vem com um exercito de vinte mil homens quando ele está indo com um exército efêmero de dez mil combatentes. Esta comparação leva-nos a pensar que “não podemos dar o passo maior que a nossa perna”, pois senão poderemos cair. Do mesmo modo, o discípulo de Jesus deve calcular suas disposições para o combate do discipulado. É preciso que vejamos ao certo se somos capazes de suportar os desafios do caminho proposto por Jesus. Sempre haverá pedras que nos farão tropeçar, pessoas que nos tentarão a desanimar, alguns que nos aviltarão com suas palavras ou nos atingirão com suas ações incoerentes, mas é preciso, é fundamental estarmos de pé, firmes e fiéis diante da face do mestre que nos convida paulatinamente: “Vem e segue-me”... “Não tenha medo”...

            Não obstante aos desafios do discipulado de Jesus ou às asperezas do caminho para segui-lo que nós não desanimemos, pois ele conta com nossa determinação e nosso desejo de sermos fiéis e bons seguidores. Que a renuncia de nossas vaidades seja uma constante em nossas vidas. Que não sigamos Jesus simplesmente motivado pela vaidade ou aliciados por outros interesses mesquinhos, mas o sigamos na fé, encorajados por sua determinação, com fidelidade e amor, para que o mundo creia que ele realmente é o Filho de Deus, e que seja feita aqui na terra a vontade do Pai, imperando acima de tudo o seu Reinado, de justiça, paz e de vida abundante para todos. 

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