sexta-feira, 9 de agosto de 2013

XIX DOMINGO COMUM

VIGIAR SEMPRE...




Lc 12, 32 'Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino. 33 Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. 34 Porque onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. 35 Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. 36 Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar e bater. 37 Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando chegar. Em verdade eu vos digo: Ele mesmo vai cingir-se, fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá. 38 E caso ele chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão, se assim os encontrar! 39 Mas ficai certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que arrombasse a sua casa. 40 Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes'. 41 Então Pedro disse: 'Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos?' 42 E o Senhor respondeu: 'Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor vai colocar à frente do pessoal de sua casa para dar comida a todos na hora certa? 43 Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim! 44 Em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens. 45 Porém, se aquele empregado pensar: 'Meu patrão está demorando', e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, 46 o senhor daquele empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis. 47 Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. 48 Porém, o empregado que não conhecia essa vontade e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!

            Jesus exorta na narrativa lucana (Lc 12, 32-48) que vivamos nossa vida com prudência e vigilância. As temáticas prudência e vigilância são apenas antecedidas pela alegoria do tesouro, que foi uma espécie de assunto tratado anteriormente. O tema sobre o tesouro, a riqueza, chegou ao seu cume com a questão: “Qual é o verdadeiro tesouro que nós estamos nos apropriando neste mundo?” Esta é uma questão fundamental que nos apresenta o mestre nazareno. Se nosso tesouro é o dinheiro, o ouro ou a prata ele tendenciosamente será roubado, tirado, não valerá nada quando fizermos a passagem desta vida para a outra, na eternidade. Porém, se nosso tesouro consiste no bem, na justiça e na solidariedade, ele será conservado e contará muito para nossa transição futura, para a glória de Deus, a maior e inestimável riqueza que nos espera, na Salvação.
            Do versículo 32 ao 34 a temática em destaque é a do desprendimento às coisas, aos bens, à fortuna, ou seja, o desapego. Esta é fundamentalmente nosso maior dilema, pois, nós, os seres humanos pós-modernos, somos tentados de todos os lados e todos os dias com novas tecnologias cada vez mais avançadas, computadores de última geração, celulares multifuncionais, coisas que aguçam ainda mais nosso desejo de consumir e nos apegar às facilidades.
            Nesses versículos (32-34) Jesus chama seus discípulos e ouvintes de pequenino rebanho, isto designa a pequenez de um grupo, muitas vezes fragilizado e atemorizado diante dos grandes grupos existentes, e também dos conflitos com as “autoridades oficiais”, porém não mais fraco, mas chamado sempre a enfrentar os desafios iminentes. Esta porção a qual Jesus se dirige é portadora de um presente de Deus, talvez a maior expressão do que Jesus pregou e realizou até aquele momento, o Reino de Deus. Trata-se da realidade de Deus, de seu domínio, apresentada aos homens e mulheres, ou seja, a realidade constituída a partir da vontade salvífica de Deus, que consiste na vida plena, na felicidade humana e na plenitude da vivência do amor.
            No versículo 33, Jesus convida seus ouvintes e nós hoje à prática ainda mais radical do despojamento: vender os bens e dar o dinheiro aos pobres. Esta atitude radical é a de fazer-se completamente pobre e desapegado a fim de que outros tenham também a dignidade que nos é própria.  Os bens terrenos com muita facilidade podem afastar o discípulo da relação gratuita e amorosa com Deus. O apego às coisas nos faz reticentes em relação a Deus, fazendo-nos confiar mais nas realidades humanas que na providência divina. De modo contrário, o discípulo precisa fazer bolsas que não se estragam, a fim de guardar os verdadeiros tesouros, os tesouros espirituais, a justiça, o direito a misericórdia. O céu é o melhor depósito para que o discípulo deposite seus tesouros, que nem o ladrão nem a traça serão capazes de destruírem.
            O versículo 34 apresenta um ditado profundo da boca de Jesus: “onde está o vosso tesouro, está também o vosso coração”. O tesouro é a virtude fundamental que pode ser vivida e acumulada por todos os cristãos: a caridade, o amor. Trata-se fundamentalmente do mais puro sentimento, que é capaz de tornar alguém miserável rico, alguém enfermo em saudável, alguém vítima em protagonista de sua própria história. O amor é o mais sublime dos tesouros, pois ele deriva não de fora do ser humano, mas de seu próprio ser, do coração.
            Do versículo 35 adiante Jesus inicia outro discurso em torno do tema da vigilância, isto é, da prudência. Ele convida seu discípulo a ter os rins cingidos, como se estivesse sempre vestido em sentido de prontidão para o serviço, na busca dos valores fundantes do Reino: a justiça e o amor. Os rins, biblicamente falando, também significa o lugar dos sentimentos, para algumas tradições semíticas. Os rins simbolizam ainda o lugar das nossas decisões, como que localizado na parte central do corpo, lugar de onde derivariam nossos anseios mais íntimos, assim como as vísceras.
            Jesus convida ainda a estarmos com as lâmpadas acessas, tais como aquelas virgens prudentes que esperavam o noivo chegar. A luz deve auxiliar o nosso caminho e também o dos irmãos. A luz não pode nem nos cegar nem cegar a outrem no processo de discernir os principais valores do Reinado de Deus. Luz serve para iluminar, aquecer, dar a vida. A luz é a expressão da consciência que luta pelo advento de um mundo melhor. As trevas, contrariamente, é a força aversiva à luz. As trevas querem impedir a luz de atingir os mais longínquos recônditos de nosso coração, que muitas vez vive na mesquinhez e no descaso para com o outro. É fundamental que a luz tenha primazia nas decisões de nosso coração, pautado sob esta consciência que nos aproxima de Deus.
            É preciso, deste modo, estar atento, esperando, preparado. A volta de Deus é imprevisível. Não podemos estar relaxados, irreflexos, irascíveis quando Deus bater à porta de nossa realidade. Mas é preciso que estejamos conscientes, em prontidão, e calmos a fim de que possamos participar de seu festim de ação de Graças, na consolidação de seu Reino que está sendo gestado por Ele em nós, como numa gravidez que terá o momento certo para trazer ao mundo a vida.
             A narrativa lucana do discurso sobre a vigilância e a prudência termina com uma espécie de comparação, na qual Jesus explicita a volta de Deus, do seu juízo, aquele que dizemos ser o universal. “Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando chegar. Em verdade eu vos digo: Ele mesmo vai cingir-se, fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá”. Para Jesus, Deus não tardará em fazer valer sua promessa de retorno. Seja na Parusia, a segunda vinda do Senhor Jesus, seja na iminente vinda de Deus ao mundo, no dia do Senhor, a justiça de Deus se confirmará. Ele convidará os benditos, os bem-aventurados a participarem de sua mesa, do festim real. Jesus ainda diz: “Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim!” Além de participar do banquete preparado, ainda afirma Jesus, “Em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens”. Para Jesus, além da participação à mesa de ação de graças, Deus confiará seu reino a todos aqueles que participaram de sua construção. Mas, ao imprudente, ao néscio, que por sua vaidade ou pressa, não confiar no retorno de seu Senhor, começar a destruir seu reino, bater em seus trabalhadores, espancá-los, a ele será imputado um castigo terrível: “Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes”.

            Oxalá, por fim, sejamos também capazes de vigiar, confiar e esperar com prudência a vinda do Senhor a nossa realidade que é na verdade Dele. Saibamos esperar, confiar e agir conforme a vontade de Deus. Sejamos prudentes, sábios e vigilantes. Saibamos agir conforme a vontade de Deus e não somente conforme a nossa. Continuemos a difícil participação na construção do Reinado de Deus, a realidade da máxima presença e bondade Dele, na espera fiel de sua consolidação, na qual Deus será tudo em todos, e seremos salvos se aqui fomos capazes de amar. 

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