sábado, 24 de agosto de 2013

SETEMBRO, O MÊS DA BÍBLIA

Sagradas Letras
Pe. Junior Vasconcelos do Amaral*

“Tua palavra é lâmpada para os meus pés, Senhor” (Sl 119,105). É assim que diz o salmista em sua convicção. Tais palavras significam que a Palavra de Deus é norma, é lei (Torá) e instrução para a vida de todo aquele que crê. Por isso a Palavra é lâmpada que ilumina o caminho do fiel. E João Evangelista diz: “A Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Além de se tornar lei, Torá, ou instrução para o Povo de Deus no Antigo Testamento, a Palavra se fez carne para nós, cristãos, em Jesus Cristo que habitou entre nós e assumiu nossa humanidade. Na cruz, Jesus nos redimiu para a vida eterna. E por sua Ressurreição seremos conduzidos, uma vez por todas, à vida sem ocaso, à eternidade.

A Bíblia é uma coletânea de “livros”, podendo ser chamada de “biblioteca”, composta de obras distintas e com formas de escrever e narrar diferentes. A versão da Bíblia Hebraica (TaNaK), composta pelos livros da Torá, dos Profetas (Nebiins) e os Escritos (Ketubins), teve sua lista (cânon) fechada volta de 95 d. C., no Concílio de Jâmnia. Outra versão do Antigo Testamento, também existente naquela época, era a chamada Septuaginta (LXX), traduzida entre os séculos III e I a. C., em Alexandria. A versão da Bíblia Católica é assim formada pelo Antigo (Primeiro) Testamento, a Septuaginta, (46 livros), somada ao Novo (ou Segundo) Testamento (27 livros). Por volta de 400 d. C., São Jerônimo, cuja memória é celebrada no dia 30 de setembro, terminou a tradução da Bíblia do hebraico e do grego para o latim, a língua oficial da Igreja. Esta obra se tornou conhecida como “Vulgata”, sendo o texto oficial utilizado até hoje pela Igreja Católica.
A Bíblia é, sem dúvida, a obra literária mais traduzida e lida em todo mundo. Trata-se de verdadeiro patrimônio cultural da humanidade e, para nós cristãos, é parte da regula fidei, isto é, “regra da fé”. A Bíblia, também conhecida como Sagrada Escritura, ou Sacra Pagina, em latim, constitui o Livro (ou Biblioteca, pois Bíblia em grego é o plural de livro) por excelência da tradição cristã do Ocidente e de parte do Oriente cristão. Contudo, sendo uma obra inspirada por Deus, mas compilada por mãos humanas, a Bíblia constitui uma obra literário-teológica, que deve ser lida a partir da ótica da fé, mas considerando a perspectiva literária, como narrativa humana, e elaboração das tradições orais passadas e recebidas pelo Povo, de boca em boca, sem, contudo, deixar de ser sempre Palavra de Deus.
A Bíblia apresenta tradições diversas e perspectivas múltiplas a respeito da figura ou imagem de Deus. Deus é sempre narrado nas histórias humanas e tais experiências foram passadas por gerações. É isso, objetivamente, o que acontece com a tradição do Êxodo, ou a libertação do Povo de Deus das mãos do faraó do Egito. Tal experiência fundamental perpassou gerações, até chegar a nós hoje, pelas narrativas tecidas e lidas ao longo dos séculos. O mesmo aconteceu com a vida de Jesus, que há mais ou menos 1900 anos foi narrada pelos evangelistas, os quais perceberam que a vida de Jesus era diferente e, daí narraram também sua paixão-morte e ressurreição, tudo à luz da fé. As narrativas evangélicas serviram, efetivamente, para que Jesus, o Filho de Deus, o Messias, servo de Yahweh, não ficasse no esquecimento, pois sua vida foi exemplar, não apenas por ele ter sido filho de Deus, mas por ele ter se entregue pela salvação da Humanidade.
A Sagrada Escritura, em sua inteireza, aborda temas antropológicos e teológicos muito importantes, como a criação, a queda (pecado), a morte, a escravidão (êxodo), a libertação (Páscoa), a revelação divina, a sabedoria humana, a profecia, a vida de Jesus, o seguimento de Cristo, a vida comum cristã e o fim dos tempos na mensagem simbólica do Apocalipse (escatologia). Tais temáticas são fundamentais para a vida humana e para todo aquele que crê em Deus.
Portanto, o encontro com a Palavra de Deus revelada na Sagrada Escritura, a Bíblia, é de fundamental importância para a fé no Deus revelado, no Deus da aliança, o mesmo Deus da Libertação, que é o Pai de Jesus Cristo, o Filho, que, por obediência à Palavra do Pai, entrega sua vida em sacrifício por todos os homens e mulheres, a fim de tirar todo pecado do mundo (Jo 1,29) e nos conduzir à Salvação. O encontro com as Escrituras é o verdadeiro encontro com Cristo. Por isso, São Jerônimo afirmou “Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.
Por fim, neste mês de setembro, não apenas celebramos o mês dedicado à Bíblia, à Sagrada Escritura, mas celebramos o mês da dedicação à leitura mais intensa da Palavra de Deus, que nos inspira a viver o bem, a justiça, a fé e a solidariedade, visando à construção de um mundo melhor, isto é, o Reinado de Deus anunciado por Jesus e testemunhado por tantos homens virtuosos retratados nas Sagradas Letras.
*Doutorando em Teologia Sistemática pela FAJE (Faculdade Jesuíta). Bolsista da CAPES e membro do Grupo de Estudos “Bíblia em leitura cristã”, vinculado ao CNPq. Editor da Revista Theologando www.revistatheologando.com.br



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