sexta-feira, 5 de julho de 2013

XIV DOMINGO COMUM


"Ide pelo mundo..."


Lc 10, 1 O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. 2 E dizia-lhes: 'A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. 3 Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! 5 Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: `A paz esteja nesta casa!' 6 Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós. 7 Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. 8 Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, 9 curai os doentes que nela houver e dizei ao povo:'O Reino de Deus está próximo de vós.' 10 Mas, quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: 11 Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo! 12 Eu vos digo que, naquele dia, Sodoma será tratada com menos rigor do que essa cidade. 17 Os setenta e dois voltaram muito contentes, dizendo: 'Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome.' 18 Jesus respondeu: 'Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago. 19 Eu vos dei o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões e sobre toda a força do inimigo. E nada vos poderá fazer mal. 20 Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu.'



            O Evangelho de Lucas adota um esquema semelhante ao de Marcos e de Mateus. Marcos, Mateus e Lucas narram em primeira instância o convite que Jesus faz aos discípulos para o seguimento: “Vinde após mim...”. Em segundo momento, os Sinópticos (Mc, Mt e Lc) narram a instrução ou a catequese do caminho, a missão que os discípulos devem vivenciar. Por fim, somente Mc e Mt narram o envio dos discípulos, os Doze, ao caminho, à missão (Mt 10, 7-16 e Mc 6,8-11). Lucas, por sua vez, introduz o envio dos setenta e dois discípulos. Uma espécie de multiplicação dos discípulos. Este esquema, chamado-ensino-envio, constitui a verdadeira pedagogia do mestre de Nazaré, segundo o Terceiro Evangelho, tendo alguma semelhança à prática pedagógica dos sábios da Antiga Grécia e do Oriente como um modo geral.      Esta realidade mestre-discípulo perpassa toda história humana, baseada na transmissão, isto é, na tradição que se passa de boca em boca e que vai se tornando sabedoria, isto é, memória oral que vai se tornando experiência, e, como tradição só se entende se for levada ao próximo.
            Deste modo, Jesus escolhe setenta e dois discípulos e os instrui a fim de que eles sigam um caminho e programa prefigurados. No quadro teológico de Lucas, os setenta e dois discípulos não constituem um suplemento de colaboradores para os “Doze”, mas legitimam uma missão paralela, com autoridade e tarefas análogas. A novidade está constituída pelo número 72, que em alguns manuscritos do Evangelho lucano apresentam o número 70, para dizer talvez de um certo senado de Jesus. Este número, 70, correspondia segundo a tradição judaica as nações da terra que tinham ouvido a promulgação da lei no Sinai (cf. Gn 10; Dt 32,8). Portanto, os discípulos são enviados a todos os povos, universalmente. Eles são, segundo Lucas, testemunhas autorizadas por Jesus e, de dois a dois, devem levar o anúncio importante de Jesus: “O reino de Deus chegou até vós” (Lc 10,9). Este é um momento impar da história, pois trata de se dizer que a salvação já chegou. É como o tempo da colheita, quando há necessidade grande de colaboradores para ceifá-la. Deus, o Pai, é o dono da colheita, Ele tem iniciativa: chama e envia. A oração do discípulo é necessária a fim de que outros trabalhadores se sintam também chamados, dóceis na escuta à voz de Deus.
            Para a Igreja de hoje, o chamado dos discípulos ainda é uma realidade comparada ao dom de Deus, à graça. É preciso, portanto, que a Igreja valorize os chamados, capacite-os para a missão, ajude-os a serem cada vez mais fiéis ao convite de Jesus Cristo. Talvez hoje não seja apenas necessário rezar pelas vocações na Igreja e para o mundo, mas rezar para que a Igreja valorize as vocações que foram chamadas por Deus, fazendo-as conhecer sempre mais Jesus Cristo, a partir de atitudes misericordiosas e acolhedoras, principalmente àqueles que são empobrecidos e marginalizados.
            Jesus orquestra uma verdadeira instrução messiânica para os discípulos enviados em missão. Ele os apresenta como cordeiros no meio dos lobos, a saber, os pagãos. A perspectiva, é verdade, não é muito alegre e confortante. Exigirá dos discípulos disciplina, fé e coragem, atributos necessários ainda hoje para todo missionário, todo aquele que assume sua missão de batizado. Eles não podem contar com a força ou com a violência. Os discípulos precisam ser pobres, não levar nada exagerado para o caminho, a fim de caminharem com liberdade. Todo apego à matéria é um dificultador para missão. A dedicação plena deve ser a lei maior para os setenta e dois discípulos. Eles devem comer o que for oferecido, nada em demasia. Não devem ficar indo de casa em casa, para evitar as fofocas e intrigas. Permanecer numa casa apenas facilita a missão. Na cidade em que forem mal recebidos, a Paz, que era saudação messiânica que eles deveriam expressar, não ficará sobre eles, mas voltará para o discípulo. Sacudir a poeira das sandálias é um gesto profético de desaprovação ou rejeição ao ato de não acolherem tais apóstolos, enviados de Jesus. A paz, saudação rápida, era segundo a etiqueta oriental, a forma mais breve de dizer auguri, felicidade, bem-aventurança a alguém.
            O discípulo missionário de Jesus é alguém exposto, livre, propenso aos riscos da própria missão, acolhida ou rejeição, sucesso ou fracasso. Ele dependerá da hospitalidade ou da hostilidade daqueles que acolhem ou não a mensagem. Mas nada disso pode detê-lo em sua missão de anunciar o reinado de Deus em sua proximidade e presença. É preciso, pois, coragem da parte do missionário de Jesus. Ele não deve se abater diante do desprezo daqueles que o hostilizarem. Trata-se, portanto, de um manual missionário que deve ser executado ou experimentado com audácia e destemidamente.
            Do envio ao retorno dos setenta e dois não sabemos quanto tempo se passou. Sabemos, contudo, que eles retornaram contentes, dizem eles no Evangelho de Lucas (v. 17): “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”. De forma enigmática diz Jesus: “Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago”. Esta não é uma sentença muito compreensível. Trataria ao menos de entender que toda a missão confiada aos setenta e dois discípulos e a fidelidade deles para com as exigências de Jesus, seria uma espécie de derrocada de Satanás. Isto significa que a fidelidade dos discípulos e toda colheita da missão é para a glorificação de Deus e a implantação de seu Reinado.
            Jesus afirma por fim que de fato concedeu aos discípulos o pode de pisar sobre os escorpiões, os seres pestilentos que podem simbolizar toda tirania do mal. Nada, contudo, faria mal aos discípulos. Todavia, eles deveriam se alegrar não por expulsarem o maligno do meio do mundo, mas por seus nomes estarem escritos nos céus, isto é, simbolizando a salvação que experimentariam posteriormente. Esta deve ser a alegria do discípulo, isto é, experimentar o amor de Deus em sua multiforme graça. Significa, portanto, que cumprir a nossa missão é necessário e urgente, contudo, muito mais profundo e importante é reconhecer e saber que nossa vida está destinada à salvação de Deus e que nossa fidelidade ao Evangelho é um trampolim que nos transpõem para a vida eterna em Deus.  


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