sábado, 15 de junho de 2013

XI DOMINGO COMUM




ELA MUITO AMOU... TEM A MINHA PAZ...




Lc 7, 36 Um fariseu convidou Jesus para uma refeição em sua casa. Jesus entrou na casa do fariseu e pôs-se à mesa. 37 Certa mulher, conhecida na cidade como pecadora, soube que Jesus estava à mesa, na casa do fariseu. Ela trouxe um frasco de alabastro com perfume, 38 e, ficando por detrás, chorava aos pés de Jesus; com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com o perfume. 39 Vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: 'Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora.' 40 Jesus disse então ao fariseu: 'Simão, tenho uma coisa para te dizer.' Simão respondeu: 'Fala, mestre!' 41 'Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentas moedas de prata, o outro cinquenta. 42 Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou os dois. Qual deles o amará mais?' 43 Simão respondeu: 'Acho que é aquele ao qual perdoou mais.' Jesus lhe disse: 'Tu julgaste corretamente.' 44 Então Jesus virou-se para a mulher e disse a Simão: 'Estás vendo esta mulher? Quando entrei em tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés; ela, porém, banhou meus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. 45 Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. 46 Tu não derramaste óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu meus pés com perfume. 47 Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor.' 48 E Jesus disse à mulher: 'Teus pecados estão perdoados.' 49 Então, os convidados começaram a pensar: 'Quem é este que até perdoa pecados?' 50 Mas, Jesus disse à mulher: 'Tua fé te salvou. Vai em paz!' 8,1 Depois disso, Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele; 2 e também algumas mulheres que haviam sido curadas de maus espíritos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; 3 Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam.



            No Evangelho segundo Lucas, os pecadores, as mulheres e os marginalizados estão próximos de Jesus. Evidente, pois Jesus se faz primeiramente próximo deles. Estes homens e mulheres são, na maioria, excluídos e marginalizados pelo sistema judaico caduco, que se pautava muito mais no rigorismo da lei que na maleabilidade da misericórdia de Deus. Deste modo, quando nos pautamos mais em leis, sejam elas cíveis ou canônicas, afugentamos de nosso horizonte a misericórdia que sempre trabalha com o extrapolar, ou seja, o compreender além das próprias limitações do legalismo, que na maioria das vezes faz das pessoas ditadoras, quando não “déspotas esclarecidos”, que mandam e desmandam nas pessoas e em seus destinos, seja na Igreja ou fora dela.
             Na Igreja hoje, encontramos muitas pessoas que se dizem ou que se rogam no direito de juízo do irmão, do outro. Tais pessoas se posicionam como o tal Simão da narrativa do Evangelho acima, o “dono da casa”, e são capazes de julgar quem é ou não digno de aproximar-se da Eucaristia, da comunhão com Jesus Cristo, que sempre, quando estava na Palestina, acolhia os diferentes, marginalizados e pecadores sem distinção.
            A práxis de Jesus era sempre inclusivista e, sem sombra de dúvidas, reconciliadora. Jesus se fez próximo das pessoas necessitadas, dos que sofriam, dos que eram ameaçados em sua dignidade. Por isso, quando ele se aproximava dos doentes, que eram as vítimas principais da exclusão social e religiosa de Israel, se fazia próximo, tocava-lhes, perguntava-lhes se queriam ser curados. A práxis de Jesus sempre esteve norteada para a libertação da doença, do mal psíquico ou espiritual, do pecado e de tudo o que ameaçava a sorte das pessoas, muitas vezes, mais vítimas da intolerância e do preconceito, que da própria doença.
            Muitas vezes nossos preconceitos pesam mais sobre as pessoas que suas próprias limitações. Por exemplo, diante de uma pessoa com deficiência física ou mental, muitos se posicionam com sentimento de “dó” ou  “pena”, e estas atitudes são mais preconceituosas e difíceis de serem suportadas que a própria deficiência, que muitos “tiram de letra”. Então, no fim das contas percebemos que somos mais deficientes, por conta de nossos preconceitos e intolerâncias, que muitos que o são de fato.
            Na narrativa lucana, (Lc 7,36-8,3), encontramos mais uma cena que se passa com Jesus na casa de uma pessoa, este era Simão. Jesus certamente foi convidado por ele, mas na ceia, sorrateiramente uma mulher se faz presente. Não sabemos o seu nome. Porém, sabemos que ela prestava um serviço de purificar os pés Jesus para a refeição. Uma espécie de “lava-pés”. Era costume no Oriente, na terra de Jesus, os anfitriões lavarem os pés e mãos dos convidados para uma refeição. Este gesto era propriamente de purificação, ou de pureza alimentar.
            A mulher anônima chorava e com suas lágrimas lavava os pés de Jesus. Ela era conhecida na cidade como pecadora. Esta é mais uma daquelas informações não verossímeis que rolam nos bastidores, as “fofocas”, pois nem sempre condizem com a verdade. No mais, não nos interessa saber. O que devemos salientar é que ela lavou os pés de Jesus, enxugou-os com os cabelos e ungiu com o perfume que havia levado de sua casa. Ela, enfim, era uma mulher receptiva, atenciosa, e sensível, esta indicação é descrita, posteriormente por Jesus, mas é visível na ação da mulher.
            Para a Análise Narrativa, método muito interessante para analisar um relato bíblico, os personagens ganham importância em um relato não tanto pelo que dizem, mas pelo que fazem e realizam. No caso da mulher “pecadora” ela rouba a cena com sua ação solidária, caridosa e afável para com Jesus, o Galileu.
            Simão, o anfitrião, comentando consigo mesmo considerava que Jesus não era um profeta, pois não sabia que quem lhe lavava os pés era uma pecadora. Jesus, porém, conta-lhe uma espécie de parábola. A respeito de um senhor que tinha dois credores e quitando a dívida enorme de um, quitou também a dívida menor de outro. Jesus, assim, propõe a charada: Qual amará mais aquele senhor? Simão, por sua vez, acertou: “o primeiro”, que o amaria mais. Daí Jesus propõe-lhe uma hermenêutica (interpretação) a cerca da parábola e da atitude da mulher, aparentemente pecadora. Ela tratou Jesus com mais carinho, atenção e misericórdia que o próprio anfitrião da casa. Simão não beijou Jesus na recepção, ele não lavou seus pés, nem lhe deu a atenção suficiente. Ela, contudo, sendo a “pecadora” o amou desde o primeiro instante, cobriu-o de beijos, lavou seus pés e o ungiu com um perfume.
            Do momento da comparação entre os devedores, Simão e a mulher, a cena segue-se: “Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor”. E Jesus disse à mulher: “Teus pecados estão perdoados”. Se de fato esta mulher era uma pecadora, agora ela recebe de Jesus tudo aquilo que procurava: o perdão. A palavra perdão significa dom total, inteiro, sem parcimônia. Foi este dom total que a mulher atribuiu a Jesus, recebendo-o na casa de Simão. Ela foi mais receptiva e carinhosa que o próprio dono da casa, Simão.
            Costumo dizer nas missas com as crianças que a palavra perdão significa "presente inteiro", "total". Quando vamos a uma festa de aniversário e levamos um presente, não o levamos pela metade, mas inteiro. Não damos um presente faltando um pedaço. Assim também é o perdão. Ou o damos totalmente ou não o concedemos nada. Jesus, por sua vez, concede um dom total para a mulher, ela, por seu lado, muito amou Jesus.
            Jesus acrescenta que foi a fé que mulher tinha que a salvou. Sua atitude de fé é sem dúvida um exemplo para nós pecadores. Precisamos ser dóceis à ação de Deus, ao próprio Deus. Precisamos amá-lo sempre, dedicar-lhe nossa vida, pois ele no-la concedeu para que amássemos, e vivêssemos em comunhão de amor com Ele, perdoando aos nossos irmãos, como ele próprio nos perdoa sempre (este é um pedido da oração do Pai Nosso de Jesus).
            Assim, na condição de pecadores, devemos ser permanentemente gratos a Deus por sua infinita misericórdia. Tal misericórdia se derrama sobre nós infundindo-nos o amor e a graça da vida de Jesus Cristo, sua salvação. Deste modo, somos convidados à gratidão a Deus, no seguimento de Jesus de Nazaré, daquele que um dia expiou nossos pecados pelo sangue derramado gratuitamente na cruz, e que nos garantirá a vitória da vida sobre a morte e o pecado.
            O Evangelho conclui dizendo que Jesus andava por todos os lugares e povoados, pregando o Evangelho do Reino de Deus. Os doze o seguiam bem como algumas mulheres, que são nomeadas: Maria Madalena, da cidade de Magdála, Joana de Cuza e Susana. Tais mulheres exerciam o ministério da solidariedade para com Jesus e os discípulos, elas doavam seus bens para a manutenção da missão de Jesus e incentivavam o mestre, com seus gestos de amor e de bondade.
            Por fim, somos convidados a refletir a partir deste evangelho a prática do perdão e da misericórdia. Deus nos ama e se doa inteiramente para nós, miseráveis e falhos seres humanos. Seu perdão é dom ilimitado e incomparável. Sua ternura se faz presente na vida de toda criatura. Mas é preciso ser grato a Deus por sua misericórdia. Nosso amor gratidão é a marca expressão de que somos agradecidos a Deus pelo amor que Ele dispensa para nós. Oxalá, contemos sempre com a bondade e a misericórdia de Deus, não fechando os nossos corações, mas abrindo-os para a excelsa ternura daquele que nos criou por amor e que nos perdoa por tanto nos amar.



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