sábado, 8 de junho de 2013

X DOMINGO COMUM





UM GRANDE PROFETA APARECEU ENTRE NÓS


Lc 7, 11 Jesus dirigiu-se a uma cidade chamada Naim. Com ele iam seus discípulos e uma grande multidão. 12 Quando chegou à porta da cidade, eis que levavam um defunto, filho único; e sua mãe era viúva. Grande multidão da cidade a acompanhava. 13 Ao vê-la, o Senhor sentiu compaixão para com ela e lhe disse: 'Não chore!' 14 Aproximou-se, tocou o caixão, e os que o carregavam pararam. Então, Jesus disse: 'Jovem, eu te ordeno, levanta-te!' 15 O que estava morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe. 16 Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus, dizendo: 'Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo.' 17 E a notícia do fato espalhou-se pela Judéia inteira, e por toda a redondeza.





     O Evangelho de Lucas é notadamente uma narrativa de sensibilidade aguçada. Lucas soube, de forma maestral, conjugar a literatura com a sensível leitura da realidade que o circundava. O Jesus, segundo Lucas, é claramente sensível, dócil e amigo dos pobres, pecadores, marginalizados, das mulheres, crianças e viúvas, de um modo geral, é um Jesus extremamente sensível às realidades minoritárias, daqueles que são excluídos da sociedade Palestina do primeiro século. 
v. 11. Naim, a cidade onde acontece o episódio do Evangelho acima descrito, é  uma pequena vila, pobre, habitada hoje por árabes muçulmanos. Situa-se a 7 km do Monte Tabor, no sopé do Monte. Jesus se dirige à Naim. Com ele, ia também uma grande multidão, fruto evidente de sua fama e da confiança que as pessoas tinham em Jesus, por causa de seus milagres, exorcismos, curas e palavras repletas de sentido. 
v. 12. A procissão que seguia Jesus chegou com ele à porta da cidade. De outro lado vinha um cortejo fúnebre. Duas realidades são visíveis. Primeiro, a realidade alegre que segue Jesus, cantando, ouvindo as palavras de Jesus, e feliz, por terem consigo o mestre, o Messias esperado. Segundo, a triste realidade que vem da cidade: a morte de um jovem menino, filho de uma mulher viúva. Uma realidade de morte duplicada. Isto é, além de a viúva ter perdido seu marido, perde agora seu filho, o filho único. Uma mesma é a realidade que une estes dois estados, de alegria, por parte do cortejo de Jesus, e tristeza, por parte do funeral do jovem filho da viúva, é sim a solidariedade humana, "grande multidão da cidade a acompanhava". Ela não estava só. Mas estava circundada pela compaixão de seus conterrâneos. Jesus, por sua vez, é acompanhado por muitos discípulos, mas também por curiosos, que o seguem apenas para testemunhar seus sinais, milagres e curas. 
v. 13. As realidades se entrelaçam. Alegria e vida, tristeza e morte. Ao ver a mulher triste chorando, Jesus sentiu compaixão. Trata-se indubitavelmente do ponto alto da cena. A compaixão de Jesus é um traço que se evidencia com maior clareza. Jesus sofre com a mulher, viúva, pobre e que perdeu seu maior dom, seu unigênito. A compaixão é a realidade que deve nortear a vida do Cristão, como  em Cristo. Jesus se pautava pelo atributo divino. Somente Deus, em sua plenitude misericordiosa, é capaz de compaixão, de sofrer com a humanidade por Ele criada. Nós, embora tentemos sentir compaixão, somente sofremos com alguém. Pois, já somos sofredores por natureza. Nossa condição é miserável, humana, falível e sempre vulnerável de abater-se com a dor. A compaixão por sua vez é a solidariedade de alguém que sente em nós e conosco nossas misérias, mas está acima de nós, sobrenaturalemnte, capacitado de nos alentar em nossa dor, em nossa miséria. Pela fé cristã, chamamos este ser de Deus, o Pai. Ele, o Pai de Jesus Cristo é por excelência aquele que nos criou e que por seu Espírito suaviza nossas dores, por sua ação divinal. 
"Não chore" é o que diz Jesus à víúva de Naim. Trata-se de dizer que o choro não trará o filho amado de volta. Somente Deus é capaz de devolver a vida a um ser criado. Jesus enxuga as lágrimas da face da mãe sofredora de Naim com um gesto profético e de ação pontual, o v. 14, afirma: Jesus "aproximou-se, tocou o caixão, e os que o carregavam pararam. Então, disse: 'Jovem, eu te ordeno, levanta-te!'" A ação de Jesus é verdadeiramente extraordinária, fruto de sua comoção interior. A compaixão e a misericórdia são atributos divinos, isto é, expressão da "contração" de suas "entranhas", por isso ele sofre com aquele que é sua imagem e semelhança (Gn 1,26), ele ouve a súplica do pobrezinho e é capaz de salvá-lo, de debruçar-se sobre ele misericordiosamente. "Jovem, eu te ordeno, levanta-te!": tais palavras são invectivas, isto é, plenas de autoridade. Trata-se de um imperativo no qual traduz um levantar-se para a vida, para continuar a missão de zelar por sua mãe, de sua casa, pela pobreza espiritual a qual aquela mulher de Naim estava submetida. 
v. 15. O jovem levantou-se, e sentado começou a falar. A fala é sinal de vitalidade e autonomia, é a saída da infância. Todo ser capaz de falar, comunicar-se, sofre menos porque pode expressar suas necessidades. Por isso, também os surdos-mudos hoje podem comunicar suas necessidades, suas alegrias e descontentamentos. Por fim, Jesus entrega o jovem à sua mãe. Ele agora volta para os braços e para o lar feliz daquela que havia perdido o sentido de viver. É menos uma realidade de morte que agora se transforma em vida e realização. 
v. 16. O espanto tomou conta dos seguidores de Jesus e também dos vizinhos solidários da viúva de Naim. O medo - fóbos - é expressão de espanto, incompreensão diante de algo tão inusitado. A reanimação do menino causa um sentimento de glorificação de Deus por causa daquele que age profeticamente, sendo porta-voz de Deus, que é capaz de salvar, além de criar. Os seguidores de Jesus e os que estavam no cortejo fúnebre entendem a ação de Jesus como um ato profético, por isso dizem: "Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo". Jesus se faz próximo das pessoas, solidário, solícito e bondoso, revelando assim a complacência de Deus.
v. 17. Lucas finaliza a narrativa dizendo: "E a notícia do fato espalhou-se pela Judéia inteira, e por toda a redondeza". Jesus ficou conhecido não somente por sua palavra, sua pregação, mas efetivamente por sua ação, sua práxis libertadora. Jesus passa no meio dos homens fazendo o bem, libertando-os do malígno, curando seus corações despedaçados pelo pecado, exorcisando os endemoniados e libertando da morte aqueles que sofriam por ela. Jesus age conforme a vontade de Deus, age in persona Dei, na pessoa mesma de Deus. Certamente, Deus quer isso de nós cristãos: quer que nós ajamos na pessoa de Cristo, in persona Christi, segundo se fôssemos nesse mundo outros Cristos, fazendo o bem e continando o ato criador de Deus, iluminados pela força do Espírito Santo. 
Quiçá, também nós, cristãos seguidores e seguidoras do Senhor, possamos agir no mundo conforme o Evangelho, curando os corações feridos, libertando os irmãos das cadeias do pecado e salvando com nossa generosidade e solidariedade àqueles que sofrem sob os influxos da morte e do mal. 

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