sexta-feira, 31 de maio de 2013

IX DOMINGO COMUM

EU NÃO SOU DIGNO, MEU SENHOR!


Lc 7, 1 Quando acabou de falar ao povo que o escutava, Jesus entrou em Cafarnaum. 2 Havia lá um oficial romano que tinha um empregado a quem estimava muito, e que estava doente, à beira da morte. 3 O oficial ouviu falar de Jesus e enviou alguns anciãos dos judeus, para pedirem que Jesus viesse salvar seu empregado. 4 Chegando onde Jesus estava, pediram-lhe com insistência: 'O oficial merece que lhe faças este favor, 5 porque ele estima o nosso povo. Ele até nos construiu uma sinagoga.' 6 Então Jesus pôs-se a caminho com eles. Porém, quando já estava perto da casa, o oficial mandou alguns amigos dizerem a Jesus: 'Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa. 7 Nem mesmo me achei digno de ir pessoalmente ao teu encontro. Mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado. 8 Eu também estou debaixo de autoridade, mas tenho soldados que obedecem às minhas ordens. Se ordeno a um: 'Vai!', ele vai; e a outro: 'Vem!', ele vem; e ao meu empregado 'Faze isto!', e ele o faz'.' 9 Ouvindo isso, Jesus ficou admirado. Virou-se para a multidão que o seguia, e disse: 'Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé.' 10 Os mensageiros voltaram para a casa do oficial e encontraram o empregado em perfeita saúde.

         Continuamente Jesus ensinava seus discípulos e seguidores. Esta era a prática comum dos mestres do povo na Idade Antiga. O ato de ensinar sempre foi considerado uma arte muito importante. Se não houvesse ensino não haveria continuidade no saber e as verdades estariam esvanecidas.
         O Evangelho deste domingo situa-nos diante de um cenário de ensino seguido pela prática da cura, através do ato mesmo da fé.
         Tudo começa no caminho para Cafarnaum, uma cidadela importante onde Jesus escolheu para permanecer boa parte de seu ministério. Em Cafarnaum estava também situada a casa de Pedro, o Apóstolo patriarca. Cafarnaum situa-se como lugar estratégico da missão de Jesus, que vai e vem deste lugar, tornando-o sede importante para sua missão.
         O v. 1 situa-nos dizendo que depois de seu ensino e da escuta atenta do povo, Jesus entrou em Cafarnaum. Este versículo preâmbulo deixa claro que o ensino de Jesus era itinerário, sua missão era anunciar a Boa Nova do Reino mesmo nos caminhos e nas periferias, isto é, fora dos grandes centros, fora inclusive das cidades.
         No v. 2, Lucas insere na cena e no cenário um oficial romano, um centurião, ou seja, um comandante do exército romano que exercia poder sobre cem soldados. Um de seus subalternos estava doente, à morte.
         De acordo com o v. 3, o centurião ouvindo falar sobre Jesus, provavelmente sobre sua ação taumaturga (de cura e libertação dos males físicos e mentais), envia um dos anciãos dos judeus para pedir a Jesus que fosse salvar seu servo. Estes anciãos, inominados como o centurião, eram anciãos de Cafarnaum, possivelmente notáveis da sinagoga e não membros do Sinédrio de Jerusalém.
         Nos vv. 4 e 5 os anciãos chegam até Jesus e rogam-lhe com insistência: “Ele é digno de que lhe concedas isso, pois ama nossa nação, e até nos construiu a sinagoga”. Trata-se evidente de um ato de caridade, pois os anciãos pedem um favor para um homem digno e não para eles próprios. Por outro lado, pareceria também certa força de influência, pois o doente era digno por ser filho de Deus ou porque havia construído uma sinagoga para os judeus de Cafarnaum. Este possível “intercâmbio de influências” não fica explícito, mas pode também pensado.  Este doente era semelhante a Cornélio (At 10,1-2) um pagão simpatizante do judaísmo.
         Jesus vai com eles, afirma o v. 6. Contudo, não muito longe da casa o centurião romano mandou outros dizerem a Jesus: “Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa”. O centurião sabia que Jesus era um homem de Deus, um enviado de Deus. Todavia, percebia que sua vida e sua casa não eram realidades possíveis de acolhê-lo. O servo do centurião estava em sua casa e a casa e o coração do centurião não eram espaços propícios para Jesus entrar. Deste modo, pode-se dizer que o centurião se percebe indigno de receber Jesus em sua morada. De outro lado, poderia se dizer que a vida do centurião e sua morada eram realidades opostas à práxis libertadora de Jesus.
         O centurião, enviando um emissário para falar com Jesus, continua, no v. 7 a apresentar seus argumentos para que Jesus não entre em sua morada: “nem mesmo me achei digno de ir ao teu encontro. Dize, porém, uma palavra, para que meu criado seja curado”. Não sendo digno de receber Jesus em sua casa, o centurião se percebeu ainda indigno de ir ter com Jesus. Trata-se de um impedimento existencial, uma barreira que separa os mundos bem distintos de Jesus e do centurião. Sua autoconsciência o acusa de não dignidade diante do Senhor. Ele se vê incapaz inclusive de se apresentar diante de Jesus. Porém, sua fé não é menor que sua dignidade. Pelo contrário, se a dignidade deste homem não sustentava-o diante de Jesus, sua fé o sustenta. É pela fé que o centurião afirma: “Dize, porém, uma palavra, para que meu criado seja curado”.
         O centurião tem uma experiência de fé ímpar. Ele é diferente de qualquer judeu. É pagão, mas é temente. Se fosse um judeu talvez se comportaria com arrogância diante de Jesus, mas como pagão sabe que existe um abismo entre ele a Jesus, o profeta, o Senhor, o Messias. Contudo, ele traspassa tal abismo com a ponte de sua fé, de sua convicção de que Jesus pode salvar seu fiel criado.
         No v. 8, em cenário de diálogo o centurião explica para Jesus o sentido de sua confiança nele. “Pois também eu estou sob uma autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a um ‘Vai!’ E ele vai; e a outro ‘Vem!’ e ele vem; e a meu servo ‘Fazei isto! E ele o faz”.
         Jesus ficou admirado, segundo o v. 9. Ao ouvir as palavras do centurião Jesus voltou-se para a multidão que o seguia e disse-lhes: “Eu vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”. A fé do centurião transpôs qualquer aparato de religiosidade judaica. Para Jesus, em Israel ele não encontrou homem com tamanha fé. Trata-se da convicção capaz de mudar as realidades, de transpor os obstáculos, de sanar as dificuldades mais temerosas. Trata-se da verdadeira fé, que não coloca diante de si as possibilidades como impossíveis, mas coloca o impossível como sempre possível e realizável.
         A fé do centurião romano é equiparável a qualquer fiel de Israel, pois ele se pauta no ouvir o chamado de alguém que é maior que ele. Transpondo para a fé de Israel, seria de se perguntar se todos os filhos de Deus ouviam de fato a voz de Deus e a colocava em prática? Ou ainda para o nosso tempo: Será que nós pela nossa fé fazemos de fato a vontade de Deus ou queremos que Deus, pela nossa fé, realize aquilo que nós desejamos?
         Para finalizar, ao voltarem para casa, os enviados encontraram o servo em perfeita saúde. Assim, foi a fé do centurião romano em Jesus que salvou o seu servo da enfermidade. É esta a mesma fé que precisamos como cristãos adquirir. É esta fé que precisamos, dia e noite, conquistar. Trata-se da fé de que somente Deus é quem pode realizar aquilo que precisamos para nossa salvação. Somente Deus é que pode devolver a saúde que perdemos, que somente Ele é quem pode nos conduzir à plenitude da vida. Somente Deus é quem pode nos devolver o verdadeiro sentido de nossa dignidade, muitas vezes ameaçada pelo pecado e pela morte.



         

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