sábado, 9 de março de 2013

IV DOMINGO QUARESMAL



O PAI O AVISTOU, E SENTIU COMPAIXÃO




Lc 15, 1 Os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. 2 Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. 3 Então Jesus contou-lhes esta parábola: 11 “Um homem tinha dois filhos. 12O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles.13 Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. 14Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. 15 Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. 16O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. 17Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. 18Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; 19já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’. 20 Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. 21 O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22 Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. 23Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. 24Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa. 25 O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. 26Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. 27 O criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’. 28 Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. 29Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. 30Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado’. 31 Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32 Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’.



O Evangelho de Lucas, o terceiro Evangelho, é marcado por um traço a mais de misericórdia. O próprio teólogo, autor do Evangelho segundo Lucas, afirma: “Sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso” (Lc 6,36), trata-se de um imperativo presente “sede”, de uma realidade que se presentifica na vida, nas relações e emana da intimidade com Deus, a misericórdia em plenitude.
A misericórdia, em grego oikitírmonen, pode ser ainda traduzida como compaixão, sentir as dores de alguém, sofrer com ele em sua fragilidade. Neste sentido se configura a parábola que Jesus contará no capítulo 15 de Lucas. Percebe-se que Jesus se compadecia dos pecadores e publicanos, que “fazia refeição com eles”. Jesus era-lhes companheiro, “comia com eles no mesmo prato”, “do mesmo pão”. Os fariseus e os escribas, porém, criticavam Jesus por sua atitude compassiva, de alguém que se “envolvia” com seus pecados, ou melhor, com os pecadores. A palavra fariseus pode significar no NT “separatistas”, ou ainda “separados”. Jesus era acusado de “acolher ou receber os pecadores e de comer com eles”.
 Jesus, porém, contou-lhes três parábolas, isto é, três ilustrações. A primeira é a do homem que tinha cem ovelhas e perdeu uma, deixando as noventa e nove seguras e, saindo, foi à procura da centésima. O pastor voltou feliz com sua ovelhinha para casa (Lc 15, 4-7). A segunda parábola é a da mulher que perdeu uma de suas dez moedas, ela acendeu a lâmpada, começou a limpar a casa e encontrou a moeda, saiu feliz contar para as amigas que encontrou a moeda (Lc 15, 8-10).  A terceira parábola, bem mais conhecida, é a volta do filho pródigo. Porém, poderia bem ser renomeada como a parábola do Pai que age com misericórdia. Trata-se de uma parábola muito melhor elaborada, rica em detalhes, e não é sem sentido que Lucas delongou sua narrativa, dos versículos 11 a 32. Em comparação às duas primeiras parábolas, que têm dois ou três versículos cada, esta parábola comporta 21 versículos, dezoito versículos a mais que a segunda parábola. Portanto, do ponto de vista matemático, o que é maior numa resolução de problema é sempre a peça principal para “quebrar nossa cabeça”.
Embora se trate de uma parábola rica em detalhes, digna de comentário rico e prolixo, tentarei valorizar os matizes principais, ou seja, como se fosse uma pintura, buscarei perceber as pinceladas mais profundas, os riscos principais, aquilo que está mais nítido, ou seja, os principais traços da mão do artista, deixando de lado os pormenores. Contudo, gostaria de salientar que esta cena do Pai misericordioso e do filho mais jovem que esbanjou seus bens, está plasticamente retratado na obra de Rembrant, chamada de “A volta do Filho pródigo”. Trata-se de uma pintura belíssima, muito difundida e conhecida. Tal obra detalha a figura de um pai, sentado numa cadeira, ladeado por seu filho mais velho, e os empregados, e um tal curioso, que busca interpretar a cena, e, junto do pai, aos pés do mesmo, um rapaz, maltrapilho, com as sandálias surradas, prostrado ao colo do pai, com a cabeça bem unida ao seu colo e abdômen, as mãos do pai se debruçam sobre as costas do filho, uma mão mais grossa, outra mais fina, atraindo para si aquele que se tinha perdido e foi recuperado, aquele que tinha morrido e ressuscitou.
A narrativa lucana possibilita-nos adentrar o imaginário cenográfico do pai que mesmo vivo reparte seus bens com seus filhos, a pedido do filho mais jovem, que inesperadamente lhe suplicou parte de sua herança (vv. 11-12). Esta atitude parece incerta, porém, para o narrador bíblico tudo é possível. Contudo, para a cultura semita algo deste tipo não deveria acontecer, tendo em vista que o filho mais velho, o primogênito é detentor de mais da metade dos bens do pai, que o receberão apenas após a morte do genitor. Todavia, para que a narrativa se suceda é preciso que este pai, que é misericordioso em plenitude, possa dispor de seus bens para o filho caçula.
O filho caçula juntou seus pertences, viajando para um lugar distante e lá desenfreadamente perdeu seus bens, numa vida incerta. Esta cena, rápida em sua descrição, mostra apenas que a insensatez sobrepujou a inteligência, isto é, o pecado destruiu a graça, ou melhor, dizendo, “quando a cabeça não pensa o corpo padece” (v. 13).
Para piorar a situação do jovem, a região em que ele habitava passou por uma estiagem e ele começou a passar necessidade, isto é, escassez, em grego, histéreo (v. 14).
O jovem foi pedir emprego a um homem que o recomendou a guardar seus porcos. Trata-se de algo que aviltava os judeus, pois, o porco sempre foi considerado um animal de carne impura, e as prescrições rituais do Levítico proibiam consumir a carne de porco. Em outras palavras, trata-se de uma realidade conflitante para os judeus piedosos (fariseus e escribas) que estavam escutando Jesus nesta terceira parábola (v. 15).
O rapaz desceu ao fundo do poço. Nem a comida dos porcos ele podia comer, pois não lhe davam (v. 16). Em meio a todas as discrepâncias e insatisfações, ele refletiu que aquela vida não era a que gostaria de viver, pois na casa de seu pai os empregados comiam pão com fartura, e, ele lá no estrangeiro, passando fome (v. 17). Pode-se dizer que o motivo primeiro que causou seu retorno para a casa paterna foi a fome. Equivale a dizer que sua mudança, sua conversão se dá em um nível muito ínfimo, aquele ligado não às crises existenciais, de consciência ou arrependimento do coração, mas por causa periférica, a fome. Mas, Deus em seu plano de amor pode utilizar de algo fútil e desnecessário para nos fazer ver o necessário e o principal.
"Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti” (v. 18). Tais palavras são o ensaio daquilo que o jovem diria para seu pai. “Já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados” (v.19). Trata-se de uma virada de consciência. O filho mais jovem não tinha a consciência de sua importância dentro da casa do pai. Ele agora prefere ser tratado como empregado,  a fim de ter as mesmas regalias que os subalternos do pai de misericórdia. Pois ele sabe que se permanecesse no estrangeiro, seu fim seria inevitavelmente a morte.
Com os versículos 20 e 21, chega-se ao momento considerado a dobradiça da narrativa, o momento de divergência da realidade passada para a nova realidade, ou seja, do pecado para o arrependimento, do sofrimento da perda para a alegria do encontro. A dobradiça pode, narrativamente dizendo, ser considerada a ação transformadora da intriga[1].
E, como dizem os sábios, retornar é recomeçar. Neste momento, o jovem recomeça sua verdadeira vida, dá-se a metánoia, a mudança de pensamento, a guinada de conversão, a mudança radical. “Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos (v. 20) O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’” (v. 21). O v. 20 apresenta o verbo aoristo “teve compaixão”, trata-se de uma atitude que vem desde o início da cena, é com compaixão que o pai concede os bens ao filho, é com a mesma compaixão que ele deixa seu filho livre para ir, e, com a mesma compaixão ele acolhe seu filho em seus braços. O pai correu, trata-se de uma ação inusitada para um velho senhor. Abraçar é ter para si, mas abrir mão, não querendo jamais reter. Cobrir de beijos é comunicar a verdadeira vida, como no beijo do criador à sua criatura, insuflando o Espírito da vida, o Beijo é ainda comunicação da bondade, do amor, e, neste caso, da misericórdia do pai.
Com toda clareza, a partir do versículo 22, todo cenário e cena se transformam. Uma série de transformações ocorre até o v. 24 (túnica, anel, novilho e banquete). O contexto é outro, da perda para o encontro, da tristeza para a alegria, da espera à chegada. Já no v. 25 a nuvem espessa do ciúme toma conta do filho mais velho. Ele enraivecido não quer entrar na casa, onde a festa é dada para o filho mais novo que havia retornado v. 27. Ele diz ao pai que há tanto tempo está com ele e nunca teve direito de fazer uma festa daquela para seus amigos. O primogênito transfere para o pai a culpa de sua repressão, de seu legalismo (v. 29). Esta atitude demonstra também que o filho primogênito não se considerava plenamente associado a seu pai. Ele não considerava que o que era do pai era também seu. Aqui, o mais importante seria o sentido de pertença dele, que não parecia ter consistência. Sua atitude de raiva extrapola acusando seu irmão de esbanjar os bens do pai, a herança, com as prostitutas. Em nenhum momento, a parábola afirma que ele havia desperdiçado seu dinheiro com elas, mas que havia vivido de maneira desordenada, isso pressupõe uma vida desenfreada, sem sentido, sem disciplina e atenção, mas não equivale dizer que ele tenha gasto tudo com as meretrizes.
O pai, no desenlace da narrativa, evidenciando sua misericórdia e compaixão, diz ao filho mais velho: “Filho, tu estás sempre comigo, tudo que é meu é também teu”, isso equivale a dizer que todo o amor e toda a atenção são sempre eternos para com ele. Contudo o pai ainda afirma: “Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado”. A compaixão do pai vai além da disciplina e seriedade do filho mais velho e ajuizado, mas não ciente de sua pertença e de seu amor para com o pai. O amor do pai extrapola os limites da sensatez, vai além das margens da normalidade, extravasa até os rincões onde o filho mais novo estava, e no seu retorno se evidencia na disparada dos passos, no abraço e nos beijos carinhosos. O amor do Pai é sempre eterno pelo filho mais velho, mas é preciso sentir-se amado, é preciso deixar-se e sentir-se amado. 
Por fim, esta parábola retrata uma tríade bem interessante. O pai é Deus, o filho mais velho é Israel, e o mais jovem é Jesus. O Pai é sempre o mesmo, tanto para o filho mais velho, como para o filho mais novo. O jovem pede sua herança, decide-se residir num mundo incoerente, pleno de divergências, pecados e misérias. Ele, o jovem, em sua prodigalidade dispensa seus bens, o bens do Pai, com todos os miseráveis da Terra. O Filho mais velho, contudo, é ciumento, parece querer deter todos os bens do pai, deter também a preferência. No entanto, é o filho mais jovem que demonstra sua prodigalidade, bem como o Pai, pródigo em amar, pródigo em abraçar e atrair para si todo aquele que “se perdeu”. Na verdade, nos pormenores desta narrativa, o Pai é que é o pródigo, aquele que esbanja com fartura, que se dá sem limites em seu amor, ensinando seu filho Jesus a doar sua vida, de forma plena, na cruz. Quiçá, também nós voltemos para casa do Pai, que estará de braços abertos a nos esperar, cobrindo nossa vida com as vestes da justiça e colocará o anel de bondade em nossa mão, nos servirá com o banquete eterno e farto, e nos abraçará com toda ternura, não perguntando por onde andamos, nem por que decidimos sair, mas apenas olhará nosso rosto e o cobrirá de beijos, fazendo-nos sentir seu amor, sua ternura agápica, seu amor que não conhece limites.


           

[1] A INTRIGA É O PRÓPRIO DRAMA NARRATIVO, QUE SE COMPÕE DE INTRODUÇÃO, DESENVOLVIMENTO, AÇÃO TRANSFORMADORA, CLÍMAX NARRATIVO E DESFECHO.




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