sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

I DOMINGO QUARESMAL



VENCENDO O "VENCEDOR" ASTUTO





Lc 4,1 Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. 2 Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e depois disso, sentiu fome. 3 O diabo disse, então, a Jesus: 'Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão.' 4 Jesus respondeu: 'A Escritura diz: 'Não só de pão vive o homem'.' 5 O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo 6 e lhe disse: 'Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser. 7 Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu.' 8 Jesus respondeu: 'A Escritura diz: 'Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás'.' 9 Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: 'Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! 10 Porque a Escritura diz: Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!' 11 E mais ainda: 'Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'.' 12Jesus, porém, respondeu: 'A Escritura diz: 'Não tentarás o Senhor teu Deus'.' 13 Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno

            As tentações de Jesus são também as nossas tentações. As realidades tentadoras podem ser sintetizadas em três: o ter, o poder e o prazer. Diariamente convivemos com tais desafios, que distanciados da fé parecem realidades colossais e intransponíveis, mas a partir da experiência fé em Jesus Cristo, se transformam em obstáculos superáveis e atravessável. As tentações fazem parte do processo natural da vida de todo ser humano. Também todo cristão é chamado a enfrentar as tentações. Sucessivamente somos tocados pelo desejo de ter sempre mais, de acumular para além de nossas necessidades, de poder sempre mais sobre as demais pessoas, exercendo nossa hegemonia sobre o outro, por fim o prazer de nos beneficiarmos exaustivamente de tudo, da comida, do dinheiro, do sexo, das benesses da própria existência, marcada pela frustração, mas também pelo contentamento.

            A narrativa lucana afirma que Jesus, saindo do Jordão, o local onde havia sido batizado por João Batista, foi em direção do deserto. Toda esta ação, ou drama narrativo, é executado pela ação do Espírito Santo. É o Espírito que impulsiona Jesus, que o leva do Jordão para o deserto, do deserto para a missão, da missão para a cruz e da cruz para a Ressurreição. Toda a vida de Jesus é marcada pela presença pneumática de Deus, o Espírito da vida. Dessa forma Batismo e tentação formam um díptico que ilustra o mesmo tema: Jesus se revela Filho de Deus, isto é, tanto no Jordão em meio à ação do Espírito, como também no deserto impulsionado pelo mesmo Espírito.

            No deserto Jesus era guiado pelo Espírito. Portanto, o primeiro dado concreto da narrativa lucana é que Jesus não estava sozinho, pois o Espírito de Deus o acompanhava, a fim de que ele vencesse a força sedutora do Tentador. Esta certeza deve também permear nossa caminhada: é o Espírito que habita em nós que nos motiva a vencer toda espécie de tentação, toda astúcia do tentador.

            No deserto, lugar concreto e simbólico*, Jesus foi tentado durante quarenta dias e quarenta noites pelo diabo. Quarenta dias é símbolo de uma geração, ou seja, de uma vida inteira, dando-se a pensar que durante toda a vida de Jesus ele foi tentado pelo diabo, que o impelia a abandonar o projeto de Deus. Efetivamente até o momento da cruz Jesus fora seduzido pelo diabo a desistir, deixando de lado o chamado de Deus que o impelia à missão. A missão de Jesus é levada a termo, em sentido último o diabo não consegue fazer com que Jesus desista do projeto querido e traçado por Deus, o Pai.

            Durante todo tempo quaresmal Jesus nada comeu, mas quando terminou ele sentiu fome. Com essa indicação dá-se a pensar a humanidade plena de Jesus que se sente abalada mediante a proposta do tentador, que quer que ele desista do projeto assumido.

            A narração se desenvolve em três cenas, construídas em torno de um diálogo entretecido por textos bíblicos. Neste sentido, encontramos o caminho do sedutor, o diabo, que é traçado a partir de um uso equivocado da Palavra de Deus, tentando o próprio Deus. Encontra-se também o caminho de Jesus, o caminho da fidelidade radical à vontade de Deus. Ele revelar-se-á Filho de Deus não mediante ao privilégio do milagre fácil, mas na busca da fidelidade, que exaustivamente viverá até o fim dos tempos, nos quais será ressuscitado por Deus. Mediante a narrativa das tentações de Jesus, percebe-se o delimitar de suas opções fundamentais. O caminho da fidelidade de Jesus se opõe às tentações diabólicas, que pressupõem o poder, o ter e prestigio do prazer.

             A primeira tentação oportunamente toma o motivo da fome. O diabo, astuto e sorrateiro, sugere-lhe que se sirva de sua qualidade de filho, para as próprias necessidades, de modo especial à inanição. Trata-se da primeira perversão religiosa, pois no caminho para Jerusalém, Lc 11,9, Jesus havia ensinado os discípulos, na oração do Pai Nosso, a pedirem o pão cotidiano, o pão nosso de cada dia. O pão dos pobres se contradiz ao pão dos que acumulam, se enriquecem ilícitamente, o pão do diabo, que quer sempre mais para si, não visando em nada seu próximo, que passa fome. Jesus confia na generosidade e na providencia de seu Pai (Lc 11,9). Por isso Jesus responde ao diabo: 'Não só de pão vive o homem'.

            A segunda tentação revela de maneira desmascarada a sugestão do gerente mundano, o administrador do poder político (Ap 13,1-8). Ridiculamente o diabo quer se igualar a Deus. Contudo, ele bem sabe que quem criou tudo foi Deus, ele de maneira sorrateira e perversa chegou apenas para administrar e usurpar com seu poder. O diabo, porém, pensa que é ele quem pode entregar a alguém aquilo que pertence a Deus. Uma leda ignorância. Jesus, ao contrário, diz ao diabo: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’. Jesus tem a consciência de quem verdadeiramente é o Senhor cósmico. Deus, somente ele, é digno de adoração. Jesus sabe do pseudopoder do diabo, não inclinando seu coração para ele. Nisso consiste a solidariedade de Jesus, pois ele não quer que nós, seus irmãos, nos inclinemos em adoração do diabo e de seus poderes sedutores.

            A última tentação situa-se em Jerusalém. Lá se dá a última etapa da caminhada terrestre de Jesus. Lá é que Jesus se revelará como o filho único e autêntico do Pai, na última tentação, a da cruz. O diabo propõe uma pseudoproteção de Deus: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’ Ao mesmo tempo o diabo propõe que Jesus se atire do alto do Templo, a fim de tentar a Deus para protegê-lo. Jesus não se deixa persuadir por esta proposta indecente. Ele não se deixará subtrair ao encontro decisivo com o poder das trevas (Lc 22,3.31.53: Esta é a vossa hora e o poder das trevas). Jesus não se vê escapando do projeto de Deus. Não será tentando a Deus que Jesus escapará de sua missão. Ele é fiel até o fim. Por isso ele diz, categoricamente: 'Não tentarás o Senhor teu Deus'.

             A narrativa lucana, por fim, revela a tradição de um Jesus fiel nas tentações no pequeno drama acima. Jesus Cristo é fiel ao projeto e vontade de Deus. Ele acredita piamente na Palavra de Deus, tal como seu alimento. Sabe que Deus é o único digno de louvor, glória e adoração, e, portanto, que Deus não pode ser tentado, pois a maior prova de seu amor por nós é a liberdade que ele nos possibilitou viver, desde nossa criação. É esta liberdade que Jesus assumirá em sua vida terrena. Tal liberdade tornou-se o fio condutor da vida do Nazareno, fazendo-o assumir em tudo a consequência de viver. Jesus vence o antigo inimigo, condena suas tentações, bradando o verdadeiro sentido de vencê-las, isto é, o programa de fidelidade ao Criador e Senhor de nossas vidas.

*O DESERTO TENDE A SER SEGUNDO AS NARRATIVA UM LUGAR  CONCRETO. POIS TODOS OS EVANGELISTAS O CITAM. CONTUDO, PODE SER TAMBÉM UM LUGAR SIMBÓLICO, EXISTENCIAL. ISTO É, EXISTENCIALMENTE PASSAMOS POR DESERTOS, LUGARES INÓSPITOS, ONDE AS TREVAS TENTAM NOS SUCUMBIR, O DESÂNIMO NOS ABATER E A FALTA DE FÉ NOS LEVAR AO MARASMO. MAS DEVEMOS ENCONTRAR O OÁSIS DA MISERICÓRDIA E DA CONSOLAÇÃO DE DEUS. O OÁSIS É O MOMENTO DE CONFORTO ESPIRITUAL, NO QUAL TEMOS A CERTEZA DA FÉ, QUE DEUS NÃO NOS DESAMPARA, QUE ELE COMPADECE-SE DE NOSSA MISÉRIA, DE NOSSA FRAQUEZA.

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