sábado, 1 de dezembro de 2012

I DOMINGO DO ADVENTO

"É tempo do meu advento..."



Lc 21, 24b Jesus disse a seus discípulos: 25 Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. 26 Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas. 27 Então eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória. 28 Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. 34 Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35 pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. 36 Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem.

            
             “É tempo do meu advento...” diz a bela canção para este tempo. É tempo de espera, conversão e silêncio, tempo de graça da parte de Deus. Esse tempo de advento se configura a partir da ação bondosa de Deus nesse mundo. É tempo que nos prepara para a vinda do Senhor, Deus feito homem, carne humana na história dos homens, vida humana engendrada na vida da humanidade. Do esvaziamento de Deus, sua quenose amorosa, vem Jesus para confirmar a solidariedade da parte do Pai, pela ação amorosa do Espírito. É o Messias, encarnado no seio virginal de Maria quem protagoniza a história da humanidade. É o Cristo de Deus que conduz os homens à salvação divinal, tensionada e fortificada pela Paixão de Cristo, como clímax total de sua vida, dedicada a Deus e aos homens, seu irmão. É Cristo que nos convida a este advento, tempo de espera dele, que virá outra vez, e renovará nossa esperança, nossa força vivificante e nosso desejo de felicidade. Ele se dá como alimento, ele se propõe na Palavra de Deus, ele suscita em nós o Espírito renovador. É Cristo, por excelência, o epicentro de nosso Advento.

              A narrativa acima, proposta para o 1º domingo do Advento (ano C), Lc 21,24b-28.34-36, se encontra inserida no discurso sobre a ruína de Jerusalém, Lc 21,5-38. A perícope (trecho bíblico com sentido e coesão) inicia-se com uma alusão: “depois, tendo alguns comentado que o Templo era ornado de belas pedras e de ofertas votivas, Jesus disse: ‘De tudo aquilo que estais admirando, virão dias em que não ficará pedra sobre pedra que não seja demolida’” (Lc 21, 5-6). Destarte, parece que Jesus está vendo o fim de Jerusalém, capital da fé e lugar por excelência do Templo, o Santuário dedicado a Deus por Salomão. Historicamente dizendo, Jerusalém foi destruída no ano 70 e o Evangelho de Lucas foi escrito por volta do ano 85 d. C. Isso deduz que Lucas, o autor do Evangelho ou autor atribuído ao Evangelho, tenha sabido deste fato. Embora ele não fosse um israelita e sim grego.
              A perícope na qual a narrativa acima faz-se presente é um discurso que encerra a atividade de Jesus em Jerusalém. Daí em diante ele caminhará para a morte de cruz. Jesus, antes, porém, da morte despede-se publicamente no templo, diante do povo, da Jerusalém que lhe acolheu com  “Hosana, filho de Davi”. O Templo simboliza a Antiga Aliança e Jesus a Nova Aliança. A primeira Aliança está fadada ao fracasso, Jesus, a segunda Aliança, está destinado à morte-ressurreição.

              Jesus, qual um profeta, a exemplo principalmente de Ezequiel, Jeremias e Miquéias, anuncia a destruição total do Templo e de Jerusalém. É o fim de uma era (em grego eon) histórica, é virada no plano salvífico de Deus. O fim de Jerusalém é uma espécie de juízo escatológico (juízo final) em “miniatura”, uma prefiguração do fim (cf. vv. 25-27).

               No entanto, ainda não é o fim, afirma Jesus (v. 28). Será um tempo próprio e oportuno para a libertação. Seria grosso modo o próprio retrato de nossa vida. Para saborear a saúde e dar real sentido a ela é preciso passar pela doença. Para dar real sentido ao trabalho é preciso experimentar o desemprego...

              Os sinais premonitórios do fim dos tempos são tipicamente proféticos. Ruína, escuridão, dor, desânimo, desolação, morte. Nesta mesma realidade brota também a esperança, própria da tradição profética, que denuncia a injustiça, mas que com a mesma força, anuncia a esperança, o futuro melhor. A esperança é que arranca o homem da utopia insana ou da narcose (alienação voluntária). A esperança lança o ser humano para um futuro possível e imaginável. A vigilância e a oração são propriamente os efeitos desta esperança, são gestos daquele que espera o possível, a ação amorosa de Deus, que jamais desampara.

              O discurso de Jesus é um autodiscurso. Isso equivale dizer que Jesus anuncia a ele próprio, como o Filho do Homem, o Senhor Ressuscitado, o Senhor do Cosmo e da história, do espaço e do tempo. Ele é fiel até o fim. É a testemunha fiel, dirá o ator do Apocalipse (3,14). Jesus é solidário com os homens em sua morte. Ele o é também na Ressurreição. O versículo 28 elucida claramente esta certeza no Ressuscitado. É preciso erguer a cabeça e fitar os olhos na direção do Senhor. Só ele pode salvar os nele esperam. A salvação é entendida como libertação do jugo do pecado e da morte. O Ressuscitado também nos ressuscitará com ele um dia, para uma vida sem ocaso, para uma glória infindável.

              O v. 34 retoma o significado pleno desse tempo adventício, tempo de prestar atenção aos sinais, aos ditos impronunciáveis de Deus. Muitas vezes Deus diz em nossa vida sem falar sequer uma palavra. É preciso que o Cristão não se deixe alienar pelos modismos do pecado, pela gula, embriaguez e preocupações vãs, aquelas que tiram nossa atenção da direção de Deus, de seu projeto e de sua vontade. O tempo do Advento é marcado pela leitura atenta e viva dos sinais de Deus na vida humana. Deus fala ao nosso coração e se rediz sempre e plenamente no Filho, o Verbo encarnado em nossa humanidade, principalmente no tempo do Natal, tempo da visita afável do Senhor à história dos homens.

              O dia do encontro com Deus virá como uma armadilha. A armadilha não é esperada nem visível, ela está escondida e não passa pelos pensamentos humanos. O dia do encontro com o Senhor virá como esta armadilha. Será o dia de nosso juízo, de nossa prestação de contas, o dia do Senhor. Mas para acolher este dia é necessário preparação. Outra grande marca do tempo do Advento. Nesse tempo, somos chamados a preparar nosso coração para o encontro com Deus, no Filho, o Verbo eterno encarnado. Preparar-se é atitude de quem confia, de quem espera, de quem está propício e aberto ao encontro. Só preparamos a casa quando a visita vem, de modo contrário podemos conviver com certas bagunças “necessárias”. Mas, quando a visita importante e querida diz que vem, começamos a “ajeitar” as bagunças, limpando as sujeiras, fazendo a verdadeira faxina, a fim de que o hóspede se sinta bem e acolhido. Assim é o convite de Jesus. É preciso, como ele diz, preparação, disposição para arrumar o que está às avessas, contrário à vontade do Criador.

              Como desfecho da narrativa permeada de simbólica, Jesus convida todos à atenção e oração. Duas atitudes marcadas semelhantes. No ato de atenção esperamos uma palavra. Na oração dirigimos uma palavra, mas também ouvimos a Palavra de Deus. Deus nos fala na oração. De nossa parte, é mister ouvi-lo. Quem não é capaz de ouvir os apelos de Deus, não é capaz de orar, apenas balbucia palavras diligentes e afetuosas a Deus, mas não o ouve, em sua Palavra, repleta de vida e significados. Orar é ato de amor. Pela oração, ofertamos e recebemos. Ofertamos a Deus palavras de apelo e dor, recebemos consolo e amor. Assim faziam os místicos medievais, em seus relatos de oração e contemplação. Sentir a consolação de Deus, no interno da desolação humana, é a maior dádiva para o exercício da oração, dizia Santo Inácio de Loyola, o pai dos Exercícios Espirituais. Para Jesus, na conclusão da narrativa acima, a oração nos fortalece para que compareçamos diante dele, o Filho do Homem, quando ele vier em sua glória, para julgar os vivos e os mortos. É preciso estar preparado, pois o dia e  a hora são realidades mistéricas para nós, para o Jesus, mas não para o Pai, nosso Criador. É, por fim, a oração que nos sustentará a ficarmos de pé diante do Filho do Homem. Estar de pé lembra prontidão, acolhida e disposição. Quiçá, no dia de nosso encontro com o Senhor, o último dia, o dia da Ressurreição, seja marcado pela força de nossa fé, pela diligencia de nossa palavra, pela coragem de estar de pé diante do Senhor, mas também seja marcado por sua infinita misericórdia. Que Deus seja conosco como o Pai misericordioso do Evangelho lucano, Lc 15,11-32, e se sinta feliz ao nos receber em sua casa, a fim de participarmos de seu banquete, com o Filho e o Espírito que nos vivificou e nos santifica. 

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