sábado, 24 de novembro de 2012

SOLENE FESTA DE CRISTO REI DO UNIVERSO


Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz
 
 
 
Jo 18, 33b Pilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: 'Tu és o rei dos judeus?' 34 Jesus respondeu: 'Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim?' 35 Pilatos falou: 'Por acaso, sou judeu?  O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim.  Que fizeste?' 36 Jesus respondeu: 'O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus.  Mas o meu reino não é daqui'. 37 Pilatos disse a Jesus: 'Então tu és rei?' Jesus respondeu: 'Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz'.

 


 

            Com a solene liturgia de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, concluímos mais um ano litúrgico. Na sábia pedagogia da Igreja, todos os anos litúrgicos se iniciam com o tempo do Advento, isto é, tempo de preparação para o Nascimento de Jesus, o Messias da Humanidade. Após o Advento, celebramos o Natal, rico momento de inspiração no qual vislumbramos na pobre manjedoura de Belém um Deus condescendente e misericordioso que veio nos visitar, em nossa pobreza ele se torna pobre, em nossa carne ele se encarna. Tudo isso para nos salvar e assumir.

            Após o Natal, preparamos a catequese comum da Liturgia Bíblica. Neste tempo experimentamos a vida de Jesus, em seus altos e baixos, em suas decisões e fidelidade. No tempo da Quaresma, preparamos outra vez, agora não mais para o Nascimento físico e espiritual de Jesus, mas para o seu verdadeiro nascimento, na Morte-Ressurreição. Participamos com ele da derradeira semana, decisiva, plena de agruras, sofrimentos, traições, gestos de solidariedade e, por fim, a máxima experiência de abandono, a morte. Contudo, no sábado, do grande silêncio, preparamos para o cântico de “Aleluia” sem fim, expressão da Ressurreição, a vida que vence a morte e se torna hegemônica para todo o sempre.      

            Celebramos após a Quaresma o tempo mais forte e decisivo da vida do Cristão, o chamado Mistério Pascal. Este tempo, configurado por uma semana densa de mistério, o homem Jesus confronta sua vida com a morte, celebra a Eucaristia, a ação de Graças com seus discípulos, chamando-os a reiterar seu memorial, todas as vezes que partirem o pão e beberem do cálice de sua memória.

            Após tais belas e solenes festas, celebramos a infortuna Sexta-feira da Paixão, na qual a vida singular de Jesus parece ser trucidada pela morte, no Calvário. Lá, Jesus se entrega em sua experiência quenótica, no esvaziamento total de si, sublime experiência de amor. No lenho da cruz, ele se doa, como se verdadeiramente estivesse nos braços do Pai, se doa como na véspera, na Quinta feira, na qual ele diz: “isto é meu corpo, tomai todos e comei!” No Sábado Santo, ele adormece quieto e Santo, desce aos infernos, mas aguarda a Ressurreição, puro ato de amor de seu Pai. Neste hiato de silêncio, a Igreja aguarda solidária, com Cristo, o seu triunfo, que pela ação de seu Pai, retirará o Filho dos átrios do inferno e romperá sua morte afirmando a primazia da vida, que é paradigma para todos nós. No Domingo da Páscoa celebramos a verdadeira passagem de Cristo, seu verdadeiro nascimento, para a Eternidade, junto de Deus, na Ressurreição, a verdadeira vida, a qual todos os batizados estamos destinados, por Cristo e em Cristo. Daí, todo ciclo se recomeça.

            No tempo Comum, aprendemos a catequese de Jesus, as curas, os milagres, os exorcismos, os ensinamentos, as Bem-aventuranças, suas palavras repletas de vida, verdade e esperança.

            No clímax do Tempo Comum, celebramos a Festa do Cristo Rei do Universo. Nessa liturgia celebramos a bela e solene certeza do Reinado de Jesus. Jesus é Rei, pois exerce sobre todo o Universo, sobre todos os cristãos, o poder de Amar. O amor é a régia experiência a envolver o coração do homem. A certeza de amar, absolutizada pela experiência de servir, garante o reinado de esperança sobre toda desesperança, garante a verdade sobre toda mentira, garante o amor como bastião contra o ódio. A solenidade de Cristo Rei nos ensina que nosso destino é reinar com Cristo, na contemplação da face misericordiosa de Deus, o Criador e Pai Santo, aquele que nos criou e nos amor por primeiro.

            Contudo, o maior desafio é compreender que o Reino de Cristo não é deste mundo, mas é para este mundo, no romper do mundo vindouro e futuro, no tempo escatológico (no tempo em que Deus for tudo em todos (1Cor 15,45). Não significa que este mundo esteja plenamente pronto para abraçar o reinado de Jesus, mas em transformação para isso. Pois, há muitas estruturas antagônicas ao Reinado de Deus: do individualismo exacerbado, do capitalismo desenfreado, que gestam pobres e miseráveis, o liberalismo indomável, que constitui povos vassalos e países senhoris, o hedonismo sem freio, que gera homens e mulheres ensimesmados e infantis. Existem muitas estruturas que medem forças com o reinado de Deus, anunciado e vivido por Jesus, na Palestina do século I, com o Cristianismo mais genuíno que não compactua com o pecado da ganância, do poder, do egocentrismo, e das paixões irrefletidas.

            O reinado de Jesus Cristo é consignado pela verdade que liberta (cf. Jo 8,32). Não a verdade trazida nos corações por puras ideologias[1], mas nos corações que são capazes de amar, como Cristo amou. Amar é tornar-se livre para a autodoação, o cumprimento mais sublime da palavra do Evangelho: “Como eu vos amei, assim, vós deveis amar também”. Trata-se de um imperativo, o verdadeiro amor. Não se trata de uma opção de vida para o Cristão, mas da verdadeira forma de viver, configurada na vida de Cristo, nosso idealizador primeiro.

            Por fim, que o Reinado de Jesus, que é reinado do Pai, pelo Espírito Santo, que reina em santidade e hoje nos encoraja na construção do reinado definitivo de Deus, é o Reino da Trindade, da “comunidade perfeita de amor”, da comunhão amorosa, que gera a vida, que a redime e a conduz à perfeição pela santificação. Que o Reino da Trindade encontre sempre em nós um trono de graça no qual ela possa reinar, em dom, graça e bondade absoluta.



[1] Com toda clareza o Evangelho, a mensagem de Cristo e o Cristianismo são também ideologias. Porém, o Evangelho genuíno de Jesus tem como prioridade a libertação do ser humano, de suas possessões demoníacas, de suas cegueiras e atrofias. O Evangelho evidencia um homem, chamado Jesus, o Nazareno, que passa anunciando o Reino de Deus, convidando seus compatriotas à conversão, à mudança de vida, anunciando boas novas, curando os que estavam doentes, libertando os pecadores de seus pecados. Por fim, Jesus é preso, como um pecador qualquer, é levado ao Gólgota e assassinado cruelmente. Esta ideologia de Jesus é ressonância de sua fidelidade ao projeto do Pai que o enviou ao mundo. Jesus continua no meio de nós por seu Espírito Santo, que encoraja a Igreja e o mundo no amor a Cristo, seu Pai, e à mensagem da Boa Nova de Jesus.

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