quinta-feira, 11 de outubro de 2012

XXVIII DOMINGO COMUM


 
 
SOMENTE UMA COISA TE FALTA...






Mc 10, 17 Quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele, e perguntou: 'Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?' 18 Jesus disse: 'Por que me chamas de bom?' Só Deus é bom, e mais ninguém. 19 Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!' 20 Ele respondeu: 'Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude'. 21 Jesus olhou para ele com amor, e disse: 'Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!' 22 Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. 23 Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: 'Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!' 24 Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: 'Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25 É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!' 26 Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns aos outros: 'Então, quem pode ser salvo?' 27 Jesus olhou para eles e disse: 'Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível'.

           

            O seguimento de Jesus é uma tarefa exigente. Para ser discípulo de Jesus é preciso coragem e liberdade. Coragem para renunciar a muitas outras coisas, liberdade para, com sabedoria, saber discernir o que realmente precisa ser deixado de lado, ou seja, relativizado nesse seguimento. 

            A narrativa de Mc 10,17-27 constitui um relato exemplar. Um homem anônimo, desejoso de ganhar a vida eterna, pergunta a Jesus o que deve fazer para obtê-la em eternidade. A resposta de Jesus, que se converte mais em uma questão, é evidente: “Tu conheces os mandamentos?” Trata-se, com toda clareza, de uma questão fundamental: Tu queres viver tais mandamentos? O homem diz viver tais mandamentos desde a juventude. Para Jesus, porém, uma coisa apenas falta a este homem: vender tudo o que tem e dar o dinheiro aos pobres. Absurdamente contrário ao que o homem pensava, Jesus exige dele uma renúncia radical dos bens materiais.

             Entram na baila da narrativa duas questões fundamentais que são pertinentes ao personagem que dialoga com Jesus: a primeira questão é a vida eterna e a segunda a riqueza, ou melhor, a renúncia da mesma. A primeira trata de uma questão levantada pelo homem que interpela Jesus na cena. Trata-se evidentemente de um homem piedoso que observava os mandamentos de Deus desde a juventude, possivelmente desde o momento em que havia se tornado “filho do Mandamento”. A vida eterna é uma questão crucial na vida de alguém de fé. Os fiéis e tementes de Deus desejam a vida eterna, a conquista da bem-aventurança eterna, o tesouro inviolável. Porém, para Jesus, observar os mandamentos não é a única maneira para obter a vida eterna, o tesouro celestial. Há neste sentido, uma nova exigência que se aplica à vida do homem interlocutor de Jesus na narrativa. Jesus, ao olhá-lo com amor, exige dele algo transpõe o simples observar coerentemente as Leis da Torá (Pentateuco), Jesus exige dele a renúncia dos bens materiais, da riqueza e da opulência. Esta é a verdadeira pedra de tropeço para o homem que se encontra com Jesus. Pois tal homem estava vigorosamente apegado a seus bens materiais e não quis ser capaz de vendê-los, nem distribuir o dinheiro as pobres para seguir o Mestre.

            A exigência de Jesus extrapola a possibilidade do homem, que preferia ostentar sua riqueza vivendo piedosamente, a ter que radicalmente seguir a Jesus na pobreza pelo Reino de Deus. Fazer-se pobre e desapegado são condições de possibilidade para o seguimento de Jesus. O apego às vaidades, aos exageros desnecessários, se torna prejudicial à prática do seguimento, do discipulado. Jesus radicaliza ao máximo a entrada do homem no círculo de seus discípulos. Este estreitamento significa colocar regras objetivas e claras para o seguimento, que é constituído pelo testemunho dos que seguem. Para seguir a Jesus, o discípulo não deve ser prisioneiro de bens, tesouros temporais ou ser escravo do dinheiro, pois, para Jesus, a vida do discípulo tem valor incomparável. Todo discípulo é convidado à liberdade de seguir a Jesus, pobre e sofredor.  

            Com toda clareza, a exigência do mestre Galileu desmotiva o homem anônimo que não considerou o discipulado mais importante que a posse dos bens terrenos. Abatido e cabisbaixa o homem voltou para a casa, triste. Em meio a tanta riqueza, uma coisa apenas era desejo de sua alma: seguir a Jesus. Contudo, o apego falou mais forte. Apegar-se a algo é tornar-se escravo. No caso do moço do evangelho, sua escravidão tinha nome: dinheiro.

            No epicentro desse polêmico convite feito por Jesus, está senão a exigência da renúncia. Renunciar é apostar em algo maior e mais importante. Renunciar é abdicar de algo relativo e até efêmero. Só uma coisa faltou àquele homem: disposição para seguir. Para isso, seria necessário, antes de tudo, vender seus bens e dar o dinheiro aos pobres. Como resultado lógico desta cena frustrante de convite ao discipulado, advém da boca de Jesus uma afirmação: “Como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!”. Tal máxima profética da boca de Jesus não se atém ao desafio de entrar no Reino de Deus, mas aos empecilhos que são criados na direção ou no caminho para tal Reino: a riqueza e o apego. O rico pode sim participar do Reino de Deus, porém precisa relativizar sua riqueza, absolutizando o verdadeiro e maior tesouro: o próprio Reino.

            Na busca do verdadeiro tesouro, o que não perece e nem se acaba, o Reinado de Deus, o homem rico pode tomar lugar em suas fileiras. O Reino não é exclusividade para os pobres, mas se torna realidade mais próxima deles, pois a única garantia que lhes resta é a vida eterna, certeza de fé que contrapõe-se às certezas humanas, radicadas no dinheiro, no poder e às vezes no mal. O rico pode evidentemente participar do banquete celeste, desde que seja capaz de, na terra, servir aos pobres, partilhando seus bens com eles. Participar da eternidade de Deus não é uma exclusiva realidade para o pobre, mas para todo aquele que tem o coração empobrecido, que, mesmo vivendo sob a força das riquezas passageiras, não se ilude nem se fascina, mas se mantém aberto a Deus, o único capaz de salvá-lo, de enriquecê-lo com sua Graça, com a verdadeira riqueza que vem do céu.

           

             

Nenhum comentário:

Postar um comentário