sábado, 6 de outubro de 2012

XXVII DOMINGO COMUM

 
 
OS DOIS SERÃO UMA SÓ CARNE
 
 



Mc 10, 2 Alguns fariseus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. 3  Jesus perguntou:  ‘O que Moisés vos ordenou?’ 4 Os fariseus responderam: ‘Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la’. 5  Jesus então disse: ‘Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. 6  No entanto, desde o começo da criação Deus os fez homem e mulher. 7  Por isso , o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. 8  Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9  Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!’ 10 Em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto. 11 Jesus respondeu: ‘Quem se divorciar de sua mulher e se casar com outra cometerá adultério contra a primeira. 12 E se a mulher se divorciar de seu marido e se casar com outro, cometerá adultério’.

           

           

            O movimento farisaico do tempo de Jesus sempre quis pô-lo à prova em questões fundamentais de fé. Saber qual era a intensidade da ortodoxia de Jesus, da sua reta fé como judeu, sempre foi uma questão cruciante para os fariseus contemporâneos do Nazareno. Em diversos momentos estas autoridades legais da Palestina, legais em sentido de serem vigilantes da Lei Mosaica, colocaram Jesus na berlinda de questões sobre o culto, sobre a lei de Moisés, sobre os costumes, como o caso do dia do shabat, isto é, o sábado e agora o questionam a respeito do divórcio, mais uma cláusula da Lei promulgada por Moisés.

            A pergunta que fazem a Jesus corresponde à liceidade do pedido de divórcio por parte do homem, o marido. A pergunta gira em torno da permissão de o homem divorciar-se de sua esposa. Por inúmeros motivos uma relação matrimonial pode chegar a seu fim. Naquele tempo, não muito diferente de hoje, as pessoas se separavam. Muitas vezes, uma separação ocorria apenas por falta de compatibilidade entre os nubentes. No entanto, diferente de hoje, as mulheres não tinham os mesmos direitos que os homens. A tradição patriarcal não assegurava à mulher o direito de ela mesma pedir a carta de divórcio, para dispensá-la das obrigações matrimoniais. Só o homem tinha direitos assistidos, por causa evidentemente da tradição machista e androcêntrica. O homem, na cultura antiga e semita, tinha plenos poderes sobre a mulher, inclusive para devolve-la para a casa do pai, quando ela não satisfazia seus interesses.

            A pergunta feita a Jesus é respondida com outra pergunta por parte dele. Agora é Jesus quem retruca dizendo: “O que Moisés vos ordenou?” Ao recorrer a Moisés, Jesus acorre à Lei. Moisés era o legislador por excelência de Israel. Ele é a autoridade plenipotenciária para falar da Lei de Deus. Foi Moisés quem promulgou os ensinamentos de Deus, contidos na Torá, que pode ser traduzido por instrução, mandamento, ensino. Ao mencionar Moisés, Jesus menciona o autor de muitas leis, sejam reveladas, segundo as Escrituras, sejam normatizadas segundo o critério ético da convivência do povo de Israel. Mesmo as leis reveladas por Deus, por intermédio de Moisés, perpassam a história do Povo, pois Moisés era líder de um povo, o povo escolhido e libertado por Deus.

            Segundo os fariseus, os bons entendedores da Lei divina, Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedir a mulher. Tal carta desobrigava a mulher de seus direitos e deveres, dando ao homem a possibilidade de se casar com outra. Mas a carta de divórcio não poderia ser dada pela mulher ao homem. Pois a lei naquele tempo não dava direitos à mulher, mas apenas ao homem. Evidente também que as leis de Israel foram elaboradas pelos homens, mesmo que estes fossem iluminados por Deus, pensavam como homens, salvaguardando os direitos para eles e os deveres todos para suas esposas. A mulher, a criança, a viúva, o órfão e o escravo eram seres desprovidos de direitos naquela sociedade patriarcal.

            No entanto, Jesus denuncia a dureza do coração dos homens do tempo de Moisés. “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento” (v. 5). É a dureza do coração, somados aos interesses escusos e pessoais, que fez com que a legislação de Israel beneficiasse apenas o homem, em detrimento da falta de importância da mulher, que era muitas vezes tratada como um objeto adquirido pelo marido, como um objeto que se adquire em uma feira.  Para denunciar a covardia contra a mulher, Jesus acorre às escrituras, dizendo: “No entanto, desde o começo da criação Deus os fez homem e mulher” (v. 6). Deus criou o ser humano a sua imagem e semelhança. Deus fez homem e mulher. Criou-nos na diferença sexual, a fim da complementaridade. Segundo o pensamento de Jesus, a lei do matrimônio é natural, ou seja, da criação. Deus os criou assim, para o matrimônio. A lei da união conjugal não foi um adendo na Lei de Israel constituído por Moisés, mas foi Deus mesmo que criou o ser humano, homem e mulher, a fim de que eles se unissem na diferença.

            Para Jesus, a lei natural tem mesmo valor que a Lei revelada, ou ainda à constituída no decurso da história da experiência de Deus. A lei natural do matrimônio se antecipa em grau de importância à lei dos homens, lei esta chamada de divórcio. A lei do divórcio é uma forma antagônica de se pensar o matrimônio, pois aquilo que “Deus uniu o homem não separe”. Trata-se não de uma imposição, mas de um conselho. Trata-se de um mandamento ou ensino. No entanto, muitas vezes, o que os homens podem separar não significa que de fato Deus uniu. Muitas uniões aparentam simulacros do matrimônio, na verdade apenas evidenciam um sinal de união, mas não passam de simulações de união que visa apenas o conforto, o bem-estar ou o interesse de uma das partes.

            A tradição que Jesus é herdeiro diz que “o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne (v. 7). Assim, já não são dois, mas uma só carne” (v. 8). Para se constituírem uma só carne é preciso a íntima união do amor. Só o amor é capaz de fundir dois corações no desejo do bem, da justiça, da paz e da beleza. O divórcio, em contrapartida, percorre a contramão do projeto de união e amor. O divórcio sinaliza a negação do amor.

            Para Jesus, contudo, o homem ou a mulher que despedem seus cônjuges com a carta de divórcio e contraem novas núpcias pecam por adultério. Para Jesus, por sua vez, homem e mulher têm direitos iguais. Tanto ele como ela podem despedir de seus cônjuges, mas se se casam novamente cometem adultério. Significa que adulteraram de seus corações as impressões do antigo amor, colocando na esfera do esposo ou da esposa, alguém de menor importância, ou ainda alguém que lhe possa ajudar a ser feliz.

            A novidade na interpretação de Jesus a respeito do divórcio e do matrimônio está na abertura sem igual ao papel da mulher na relação matrimonial. A mulher também é livre para decidir divorciar-se de seu marido. Contudo, o esposo também pode se divorciar de sua esposa, mas se contrair novo casamento estará cometendo adultério. Jesus compreende que homem e mulher têm a mesma dignidade frente à Lei de Deus e dos homens. Ambos são iguais e consequentemente devem assumir suas responsabilidades da mesma forma, ou ainda assumirem as alegrias de suas boas decisões.

            O que se pode concluir desta narrativa é que desde o início Deus criou homem e mulher para a união esponsal. Deus nos criou na diferença – homem e mulher – para constituirmos complementaridade. O homem, por suas leis, decretos e arranjos criou o divórcio, muito mais levado pela dureza de seu coração. Assim, a sociedade deve se adequar a tais valores. Mas o mais importante de tudo é decidir-se pelo bem, pela justiça e pelo amor. Homem e mulher devem se responsabilizar no papel de marido e mulher, no bem-estar da família, no diálogo fecundo, na coresponsabilidade, no amor sempre fluído que assume o outro, que lhe dá liberdade, que conduz o outro ao crescimento desejado e esperado: o amor.  

 

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