sexta-feira, 19 de outubro de 2012

XXIX DOMINGO COMUM

 

Entre nós, os cristãos, que reine o serviço e a caridade


 


 

Mc 10, 35 Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: 'Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir'. 36 Ele perguntou: 'O que quereis que eu vos faça?' 37 Eles responderam: 'Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!' 38 Jesus então lhes disse: 'Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?' 39 Eles responderam: 'Podemos'. E ele lhes disse: 'Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. 40 Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado'. 41 Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João. 42 Jesus os chamou e disse: 'Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. 43 Mas, entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; 44 e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. 45 Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos'


 
            Na constituição do discipulado de Jesus, a diaconia é parte fundamental. Diaconia quer dizer serviço, experiência de abnegação e abertura ao outro ou a outra realidade que transcende o nosso egoísmo, que nos tira da acomodação. Servir tornou-se uma opção fundamental na vida terrena de Jesus. Não era de se duvidar que de sua boca um dia fosse proferida a máxima: “Não vim para ser servido, mas para servir”. Tal ditado tornou-se público e comum. Trata-se de uma realidade ontológica na vida do Cristão, o discípulo de Cristo. Na formação de Jesus, desde os tenros anos, servir era fazer a vontade do Pai. Por isso, desde os doze anos ele discutia no Templo, servindo ao Pai. No início de sua vida ministerial, Jesus serviu aos irmãos, curando, libertando, sinalizando o amor de Deus.

             Portanto, para Jesus, o Filho, a diaconia constituia a correspondência positiva, o feedback, na sua relação com o Pai. O Pai, que havia enviado seu filho ao mundo como apóstolo do amor (ágape)[1], delega a ele a missão de servir. Ele, o Filho obediente, serve aos desígnios do Pai, não cegamente, mas de forma refletida. Pois, para Jesus, fazer a vontade de Deus correspondia à dinâmica do caminho para a felicidade, à realização perfeita, a vida eterna. Fazer a vontade do Pai, segundo a perspectiva jesuânica, correspondia em satisfazer o desejo de amar. Nascemos para amar, para construir um mundo melhor, este amor é constituinte na construção do Reinado de Deus.

             A narrativa do Evangelho de Mc 10,35-45 se situa diante de um pano de fundo: o poder. O desfecho da narrativa propõe para o ouvinte e discípulo uma solução para tal quadro narrativo: o serviço. Tratam-se de duas realidades aparentemente antagônicas. Ter poder, para muitos, significa ser servido pelos outros. Mas para Jesus, servir é o poder concedido por ele ao discípulo, o seguidor. Portanto, poder e serviço, na dinâmica de Jesus não equivale a realidades antagônicas, mas a sinônimos. Equivale ao exercício do verdadeiro poder, o de servir, considerado pela comunidade cristã como múnus, daí a palavra ministério.

            A cena decorre no caminho para Jerusalém, num tempo não estimado. Esse expediente narrativo leva-nos a perceber que a cena e seu fundo moral são mais importantes que o contexto temporal, mas o espaço é significativo: o caminho para Jerusalém, o lugar no qual se dará a morte de Jesus, o Filho do Homem. No fim de tudo persiste a questão fundamental: poder é serviço, na morte de Jesus, dá-se o sublime poder-serviço. Na trama, os personagens são nomeados pelo narrador. São eles: Tiago e João, os filhos de Zebedeu, ou, semiticamente conhecidos, filhos do “Trovão”. O personagem principal é Jesus. Toda discussão se passa em torno dele, o Mestre-didáskaloi. Os outros personagens periféricos são os dez outros discípulos. Tratam-se de personagens corporativos, não nomeados. Equivale dizer também que se trata de um grupo coeso, e, que, portanto, os dois outros discípulos estavam na contramão da coesão, inclusive, no clímax do relato, evidencia-se que eles permanecem contra os dois discípulos que queriam lugares de honra no reinado de Jesus.

            Continuamente é notória a incompreensão dos discípulos em relação às palavras de Jesus. Nem sempre eles levam a sério o que o mestre lhes diz. Se Jesus está falando da entrega de sua vida, sua morte e ressurreição, préanunciando sua morte (Mc 10, 33-34), eles desejam se sentar um à direita e outro à esquerda de Jesus, para simplesmente satisfazerem suas vontades. Há visivelmente uma incongruência naquilo que Jesus diz com aquilo que seus discípulos pensam, falam e desejam.

            A narrativa de Mc 10,35-45 pode ser compreendida em quatro diferentes partes : a) a primeira, do v. 35 ao 37, que introduz a ação, ou seja, o pedido feito pelos irmãos Zebedeu; b) a segunda parte, do v. 38 ao 40, equivale à reação de Jesus, porque eles não sabiam o que estavam pedindo;  c) a terceira parte, o v. 41, que traduz a indignação por parte dos discípulos; d) a quarta parte, o final, v. 42 ao 45, que traz o ensino de Jesus, o clímax narrativo e o desfecho, a verdadeira dinâmica do serviço.

            Na primeira parte da narrativa configura-se a incompreensão dos discípulos acerca do Messias que seguem. Não há da parte dos dois discípulos esforços suficientes para compreender o Messias sofredor que é Jesus. O Mestre de Nazaré se identifica com o servo sofredor da profecia de Isaías. Ele será preso, torturado e morrerá, mas no terceiro dia, o dia escatológico, Deus o ressuscitará dos mortos. Jesus traz consigo esta certeza. Sua identidade de Messias crucificado vai se constituindo na medida em que ele caminha para Jerusalém. Para o narrador bíblico isso é obvio. A narrativa surge em função de uma história que precisa ser contada. Para o narrador, o que leva Jesus à morte é evidentemente seu desejo de fazer a vontade do Pai, identificado nas ações do Messias, que cura, que liberta, que profetiza a salvação inaugurada por Deus. Da parte dos discípulos, porém, não há compreensão suficiente para aceitar que o Jesus que eles seguem deveria morrer na cruz, em uma morte tão ignominiosa. Tiago e João esperavam um reino glorioso, este reino não se identifica com o Reino proclamado por Jesus, no qual, ele o Messias põe-se como servo de todos.

            A segunda parte da narrativa destaca-se o chamado de atenção da parte de Jesus. Ele diz severamente: “Vós não sabeis o que pedis”. Para Jesus, seus discípulos não poderão beber com ele do cálice que ele próprio beberá: o cálice do martírio. Jesus brindará no Gólgota a aliança com Deus, derramando seu sangue, o sangue da nova aliança, que redime todo o pecado do mundo. Pois ele é o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Os discípulos, porém, afirmativamente dizem que podem beber do cálice de Jesus e que podem ser batizados como Jesus. O mestre afirma: “vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo que eu devo ser batizado” (Mc 10,39). Jesus se refere ao fim da vida dos discípulos, que se tornarão mártires por causa de Cristo, testemunhas por excelência do seguimento do Messias. O lugar, no entanto, a direita ou à esquerda de Jesus, dependerá exclusivamente da vontade de Deus Pai. Para Jesus, tal lugar “é para aqueles a quem foi reservado”.

            A terceira seção da narrativa refere-se à indignação por parte dos demais discípulos. Os discípulos não compreendem porque os dois irmãos têm pretensões tão ambiciosas. Evidencia-se da parte dos dois um desejo “carreirista” de assumir os primeiros postos, como “primeiros ministros” do Messias Jesus. O desejo ambicioso dos dois discípulos depõe contra o projeto do discipulado de Jesus. Foi Jesus quem os chamou e não eles que tomaram a iniciativa. Para os outros discípulos, as pretensões dos filhos de Zebedeu indeferem o projeto de Jesus, pois ele os chamou para servir e não para governar, como fazem os reis da terra.    
            A última parte da narrativa, que constitui o clímax e o desfecho da intriga (narração), situa Jesus encontrando outro sentido para o seu discipulado. Ele chamou seus discípulos e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” (vv. 42-44). Para Jesus, seus discípulos não podem imitar os tiranos do mundo. A tentação deles era reproduzir os esquemas mundanos em um projeto que era fundamentalmente divino, o Reinado de Deus. Esta não pode também ser a nossa tentação hoje. Não podemos permitir que no interior da Igreja exista espaço para arrivismo, carreirismos diabólicos e perseguições desumanas, que depõe  contra o projeto de Jesus delegado a nós. Ao contrário, precisamos servir mais a nossos irmãos empobrecidos, ameaçados pelo pecado, pela injustiça humana. Precisamos aprender sempre na escola de Jesus o significado mais profundo da diaconia, do serviço desinteressado e caritativo.

            Por fim, precisamos, urgentemente e sempre, nos identificar com Cristo, nosso irmão e senhor, que não veio para ser servido, mas para servir, doando sua vida para resgate de muitos (v. 45). Quiçá, que a diaconia do Reino de Deus seja a pauta principal de nossa agenda cristã e que o serviço aos injustiçados, aos pobres e entristecidos desse mundo seja a realidade mais plena e visível de nossa Igreja, em seu ardor missionário e evangelizador.

    

 



[1] Tal dimensão do amor, ágape, se situa na perspectiva de doação irrestrita, sem desejo de retorno ou retribuição. É o amor que transcende a dinâmica da correspondência, não precisando ser retribuído ele se doa ilimitadamente, visando unicamente o bem e a felicidade do ser que o recebe.

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