sábado, 29 de setembro de 2012

XXVI DOMINGO COMUM





"QUEM NÃO ESTÁ CONTRA NÓS ESTÁ A NOSSO FAVOR"





Mc 9, 38 João disse a Jesus: 'Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue'. 39 Jesus disse: 'Não o proíbais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. 40 Quem não é contra nós é a nosso favor. 41 Em verdade eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. 42 E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço. 43 Se tua mão te leva a pecar, corta-a! É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. 45 Se teu pé te leva a pecar, corta-o! É melhor entrar na Vida sem um dos pés, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno. 47 Se teu olho te leva a pecar, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno, 48 'onde o verme deles não morre, e o fogo não se apaga''.

 

            Muitos seguiam a Jesus anonimamente. Como ainda hoje o seguem. Fazem milagres, vivem eticamente suas vidas e anunciam o Evangelho não por palavras, mas por gestos concretos, de justiça, de direito e de misericórdia, atributos fundamentais para quem conhece a Deus e com ele faz comunhão. Este anonimato no seguimento de Jesus está mais associado à práxis libertadora, em um mundo que gradativamente escraviza seus habitantes, pelo consumo alienante, o modismo incabível, por posturas arbitrárias diante dos problemas éticos, culturais, religiosos, sociais, ambientais e políticos, que por profissões e confissões de fé artificiais, levadas apenas pelo emotivo, pela alienação religiosa*.

            A escravização de nós terráqueos se dá também pelo relativismo absurdo diante das verdades éticas, do respeito ao diferente, seja religioso, seja de outra cultura ou condição sexual, diante ainda do gênero feminino, dos idosos e crianças, dos que sempre foram ameaçados pelo poder androcêntrico-patriarcal (nas mãos dos homens). Libertar o ser humano das cadeias da violência não é uma missão restrita aos seguidores e seguidoras de Jesus, que confessam, professam e testemunham a fé, mas é missão também para os que, ao conhecerem a Palavra de Deus, se sentem interpelados pela Lei do Amor, a normativa mais sagrada, que se desvela no rosto dos empobrecidos, dos marginalizados, desumanizados pelo Mundo.

            O Evangelho de Marcos, sobremaneira a narrativa acima, constitui claramente o discipulado de Jesus vivido no mundo, sem confissão ou profissão de fé, mas vivido, fundamentalmente pelo testemunho do amor. “Vimos um homem expulsar demônios em teu nome” (Mc 9,38a). Trata-se de uma constatação. Este homem, com muita probabilidade, não fazia parte dos seguidores de Jesus, institucionalizados pelo chamado. Mas, tornou-se adepto do Mestre da Galileia, por ter ouvido ou por tê-lo visto. Não sabemos ao certo como ele conheceu a Jesus. Trata-se de um personagem anônimo. O fato de ele não ter nome não significa menor importância, mas significa que outros homens, que não são do grupo que seguia a Jesus, realizam milagres em seu nome.

            Esta intriga evidencia, contudo, um personagem importante, pois tal homem incomoda os discípulos e João destaca: “Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue” (v. 38b). Trata-se de uma atitude bairrista, preconceituosa e  incongruente com o modo de pensar de Jesus, que chamou para segui-lo a judeus piedosos, zelotas e publicanos. O chamado que Jesus faz é para todos os que aceitam a cruz como instrumento de salvação. A cruz não é símbolo de divisão, dando margem à importância de alguns e irrelevância de outros.

            Todavia, Jesus desconstrói o pensamento do discípulo João dizendo: “Não o proíbais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim” (v. 39). Jesus reprova a atitude segregadora de seus discípulos.  Estar ao lado de Jesus é fazer sua vontade e não professar piedosamente uma fé morta, bonita por fora, mas carcomida por dentro. Ele ainda completa: “Quem não é contra nós é a nosso favor” (v. 40). Trata-se de uma decisão: estar a favor de Jesus é viver a vida em harmonia, mesmo que anônima e despretensiosa, com a Palavra de Deus, sua vontade e seu desígnio. Jesus favorece a todos aqueles que não são religiosos de “carteirinha”. Sua atitude é de abertura a todos os que no dia-a-dia assumem um projeto de libertação, de vida plena para o próximo, em consonância com sua própria mensagem: o Evangelho – a Boa-Nova do Reino, do amor, da vida em plenitude.

            Para Jesus, toda atitude, por menor que seja, realizada em nome do amor, é recompensada. Há em todas nossas ações uma ação-reação. Se plantamos amor colheremos amor, se plantamos ódio, ódio ceifaremos. Evidentemente, em alguns momentos nossas boas atitudes nem sempre serão recompensadas com a bondade, mas a bondade já reside em fazer o bem, independentemente de para quem ou o por quem. Jesus diz: “Em verdade eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa” (v. 41). No caminho do seguimento de Jesus, os discípulos encontrarão de tudo: bondade e também aversão, corações generosos, mas também perseguidores. Os que derem de beber água, àqueles que são de Cristo, serão recompensados pela bondade, mesmo que não se professem cristãos. Ainda hoje, há no mundo os que vivem bondosamente sem se professarem cristãos. Esta é uma realidade desafiante para nós, os cristãos, pois deve nos inspirar a agir de forma mais Cristã, a fim de que outros conheçam a Cristo.

            Destarte, Jesus é severo com os discípulos. Para ele, o discípulo deve sinalizar o mestre no mundo. Ser cristão é ser outro Cristo no mundo, agindo como ele, pensando como ele, falando como ele. O v. 42, revela a extrema força de nosso testemunho: “E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”. Para Jesus, quem o conhece e se decide por ele, engajando sua vida, deve apenas testemunhá-lo. Se por ventura, contudo, nossa ação, nos depor contra o que professamos, melhor seria o aniquilamento. Ser motivo de escândalo é ser pedra de tropeço no caminho dos simples, dos humildes, dos pequenos que professam Jesus como senhor de suas vidas, muitas vezes inspirados em nossa palavra que deve estar prenha de sentido, de testemunho e verdade.

            Os versículos seguintes a estas instruções aos discípulos (vv. 43-48) situam-se em perspectiva da ação pecaminosa e da reação da correção. Devem ser lidos não ao pé da letra, de forma fundamentalista. Se nossa mão nos leva a pecar (v. 43), sendo usada em prol da destruição de outros, deve ser cortada, em sentido metafórico, arrancada de nossa mão a raiz da maldade, as atitudes que nos levam, a com ela, pecar. Trata-se não de arrancar os membros do corpo, em sentido literal da palavra, porque senão todos nós cristãos estaríamos mutilados, haja vista que somos todos pecadores, mas trata-se de arrancar, mutilar, a raiz da maldade que muitas vezes quer coabitar em nós com o amor. O mal não é uma realidade que deve sobressair no coração do homem. Na luta das paixões no interior de nosso coração, o que deve prevalecer é o amor, a bondade, e não o egoísmo, a perversidade.

            Por fim, para Jesus, é preferível adentrar na Vida, possivelmente se trata da eternidade, apenas com uma mão, ou seja, aquela que nos leva a fazer o bem, a afagar as pessoas, a abraçá-las e construir um mundo melhor, que tendo as duas mãos, supostamente a mão que muitas vezes fere as pessoas, faz o mal, aponta seus pecados, a mão leva a roubar, a mão que aniquila o bem, e destrói o mundo, e com esta mão ir para o inferno, ao fogo inextinguível. Do inferno, que no original grego de Marcos é dito Géena, não temos muito a dizer, apenas, que para o Evangelho de Marcos, trata-se de uma realidade final, um suposto lugar onde se queimava o lixo da cidade, no qual o fogo não tinha fim, pois sempre existia lixo, coisas descartadas pelos homens, seus moradores. Muitas vezes a Géena, ou como a tradução da Igreja preferiu, o inferno, é também uma realidade decidida pelo homem, que insiste em fazer o mal, destruindo seu irmão, enveredando-se pelos caminhos da perdição, envenenando o coração do outro com o fermento da malícia, muitas vezes, aniquilando o próximo com suas atitudes mesquinhas e diabólicas.

* É comum ligar a televisão e ver programas religiosos repletos de fanáticos religiosos. Em tais programações não encontramos nenhum engajamento de fé. Nenhum trabalho pastoral sério de ajuda aos pobres, na promoção da vida dos oprimidos, dos abandonados, mas apenas um culto vazio e alucinante, com desafios apenas de saldar as dívidas das emissoras com suas promoções de arrecadação de dinheiro dos fiéis, tendo que atingir as metas das dívidas, com doações em contas bancárias, ou por meio ainda de boletos mandados para as casas das pessoas com uma revista repleta de comentários, testemunhos e fotos de obras e construções megalomaníacas, próprias dos cristãos de hoje, que querem externalizar a fé por meio de construções suntuosas e templos palacianos, nos quais consideram que Deus lá habitará. Deus, segundo João, é Espírito e amor, ele habita nos corações de carne e não se enclausura nos templos de pedras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário