sábado, 22 de setembro de 2012

XXV DOMINGO COMUM

Quem quiser ser primeiro, que seja o servo de todos!







Mc 9, 30 Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso, 31 pois estava ensinando a seus discípulos. E dizia-lhes: 'O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará'. 32 Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar. 33 Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: 'O que discutíeis pelo caminho?' 34 Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior. 35 Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: 'Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!' 36 Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse: 37 'Quem acolher em meu nome uma destas crianças é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou'.

 

            A narrativa do Evangelho de Marcos comporta três anúncios da Paixão de Jesus. Trata-se de três autoanúncios de Jesus, em sua paixão, morte e Ressurreição. É Jesus mesmo que anuncia sua paixão proeminente.

            Esta perspectiva pode ser compreendida a partir do método de análise narrativa no horizonte teológico do narrador do Segundo Evangelho. O narrador traça no pergaminho o horizonte daquilo que aconteceu com Jesus, elaborando uma verdadeira narrativa da Paixão, que é introduzida por treze capítulos, do capítulo I ao XIII, iniciando a narrativa da Paixão, morte e ressurreição, no capítulo XIV, estendendo-se até os capítulo XVI, versículo 8.

            O ponto de partida do narrador do Evangelho de Marcos está situado na ação transformadora da vida de Jesus. Ele caminha da vida para a morte. Da Galileia dos pobres e humildes para a Jerusalém dos poderosos e conhecedores do poder e da Palavra. No horizonte do narrador existem dois pontos cardeais sobre Jesus de Nazaré: a vida que se inicia na Galileia e a morte, que tem como cenário Jerusalém. A certeza da Ressurreição é apontada na vida da comunidade galilaica, pois o arauto da Ressurreição, no fim da narrativa marcana, aponta a Galileia como lugar no qual os discípulos verão o Ressuscitado (Mc 16,7): “Lá o vereis... Ele vos precede à Galileia”.

            No desenrolar da trama, a vida de Jesus, que tem como evento primordial o batismo, depois a missão na Galileia, as viagens missionárias e a grande viagem para Jerusalém, o narrador veicula três anúncios da paixão. Podemos encontrá-los em Mc 8,31-33; 9, 31 (o relato acima) e 10,32-34. Tais relatos obedecem a uma lógica: denunciar os algozes da morte de Jesus e apontar, no mesmo horizonte, a vontade de Deus. Da boca de Jesus evidencia-se quem desejou matá-lo: “os homens”, tratam-se dos poderosos, isto é, os “anciãos”, os “chefes dos sacerdotes” e os “escribas” (cf. Mc 8,31). A vontade de Deus perpassa na expressão “era necessário”. Jesus assume, em outras palavras, a vontade de Deus, isto é, leva às ultimas consequências sua vida, na obediência a Deus e sua palavra.

            Jesus, portanto, faz-se obediente à Palavra de Deus, ao próprio Deus. Em contrapartida, as autoridades judaicas não suportam tal reverência a Deus, Jesus faz-se filho  de Deus, faz a vontade de Deus, anuncia o Reinado de Deus, cura em nome de Deus, liberta as pessoas do pecado pela mão de Deus, isto é, em tudo e em todas as ações de Jesus há uma constância em Deus, uma sintonia fina, repleta de amor da parte de filho e de confirmação da parte do Pai. Daí que todos se surpreendem da exousia de Jesus. Ele age de forma autorizada pelo Pai. Faz aquilo que o Pai lhe pede e possibilita fazer.

            A narrativa supracitada, de Mc 9,30-37, tem como preâmbulo, no v. 30, o evidente segredo messiânico de Jesus. Ele, que atravessava a Galileia, não queria que ninguém soubesse. O segredo messiânico equivale ao desejo de Jesus revelar sua messianidade apenas na Cruz e Ressurreição.  O segredo messiânico tão comumente comentado hoje equivale à sutileza de Jesus, sua pedagogia, com precaução para não ser mal-entendido (em chave político-nacionalista) suscitando as reações das autoridades romanas. No ambiente palestinense do ano 30, as esperanças messiânicas eram grandes. Ao querer o segredo, Jesus quer apenas dizer que gradativamente as pessoas saberão que ele era o Filho de Deus. As próprias ações de Jesus confirmavam sua messianidade. A forma com que ele olhava seus irmãos, curava-os, libertava-os do maligno, corroboravam a tese de sua messianidade divina. Messianidade que tem caráter não só eminente, mas escatológico também. Afinal, por isso até hoje, esperamos a Parusia, a segunda vinda de Cristo, nosso Salvador.

            No ponto de vista do narrador do Evangelho marcano, está um projeto de tensão, entre o segredo que é posto na boca do personagem protagonista, Jesus e as revelações que ele mesmo realiza. A tensão se faz muito presente neste discurso que estamos analisando. Jesus pede segredo, mas revela aos discípulos o que deverá ocorrer com ele. Na Paixão, iniciada em 14,1 até seu clímax 16,8, dará para perceber o caráter messiânico de Jesus. Ele é o Ressuscitado que precede a comunidade dos discípulos à Galileia.

            Na narrativa acima Jesus continua ensinando seus discípulos. O ensinamento de Jesus está calcado sobre a experiência eminente da paixão. O ensino dado por Jesus nesta narrativa é sucinto. Fala apenas que o Filho do Homem será preso, entregue nas mãos dos homens, certamente aqueles que tinham poder em Israel, e morrerá. Mas no terceiro dia ele ressuscitará.

            Os discípulos, por sua parte, nada compreendiam das palavras do mestre. Por que ele deveria sofrer, morrer e ressuscitar? Estas são questões que ainda hoje inquietam os corações dos discípulos e seguidores de Jesus. Como é que o mestre, que a muitos curou e a outros salvou pelo poder de suas palavras, poderá morrer tão facilmente assim? Esta é a dúvida que ainda perpassa nosso coração de discípulo. Todavia, a não compreensão, por parte dos discípulos, não significa intolerância à mensagem de Jesus, mas desejo de que o mestre não tenha um fim tão ignominioso.

            Ao chegarem à Cafarnaum, isso pressupõe outro cenário e tempo narrativo diferente, Jesus lhes perguntou: “o que discutíeis pelo caminho?” Certamente tal discussão se fazia paralela aos ensinamentos do mestre. Durante os intervalos dos encontros com Jesus, os discípulos discutiam as tarefas que Jesus lhes aplicava. Há quase sempre, nos grupos formados, nas instituições existentes, uma conversa paralela, um poder que subjaz clandestino. E este poder estava também impregnado na mentalidade dos discípulos.

            Os seguidores de Jesus da primeira hora discutiam no caminho o poder (v. 34). Quem era o maior? Esta discussão perdura até os tempos hodiernos. Será que na comunidade o maior é aquele que coordena, preside, precede? Ou o maior seria aquele que coordenando visa servir, presidindo pensa em servir e precedendo, age como servo? Tal discussão é indubitavelmente necessária para revermos nossas posturas nas comunidades apostólicas dos tempos de hoje.

            O Jesus mestre do Evangelho marcano é aquele se senta para ensinar. Tratava-se de um modo rabínico de ensinar. Os mestres elegantemente ensinam sentados, apenas a fala é sua arte para a retórica do ensino. Ele chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (v. 35). Ser diácono de todos é o único modo para ser tornar o primeiro. Ser servo é a razão de seguir a Jesus. O caminho do discipulado passa pelo serviço ao próximo, de modo desinteressado e bondoso.

            Para concluir seu ensinamento Jesus tomou junto de si uma criança. Colocando-a no meio deles disse: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”. Esta atitude demonstra que os discípulos devem acolher aqueles que são ameaçados pelo poder dos adultos, dos prepotentes e arrogantes. Jesus estabelece a nova ética do discipulado: servir aos menores do reinado de Deus. Os que estão ameaçados, abandonados, feridos, empobrecidos pelo mundo, são os que se destinam os discípulos de Jesus. Em sentido de continuar a missão de Jesus, acolher, amar, servir, respeitar, são as únicas formas de se tornar fiel à mensagem do mestre Galileu e fazer parte dos primeiros no Reino, fundamentados pela verdade do serviço, do amor aos pobres, os amados de Deus.

 

 

 

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