sábado, 15 de setembro de 2012

XXIV DOMINGO COMUM


Mc 8, 27Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe. No caminho perguntou aos discípulos: 'Quem dizem os homens que eu sou?' 28 Eles responderam: 'Alguns dizem que tu és João Batista; outros que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas'. 29 Então ele perguntou: 'E vós, quem dizeis que eu sou?' Pedro respondeu: 'Tu és o Messias'. 30 Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu respeito. 31 Em seguida, começou a ensiná-los, dizendo que o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias. 32 Ele dizia isso abertamente. Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo. 33 Jesus voltou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: 'Vai para longe de mim, Satanás!' Tu não pensas como Deus, e sim como os homens'. 34 Então chamou a multidão com seus discípulos e disse: 'Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. 35 Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la.

 

“Se alguém quer me seguir...”
 
 

          O relato acima, narrado por Marcos, pode ser encontrado paralelamente em Mt 16,21-27 e Lc 9,22-27. Esta narrativa refere-se, na perspectiva do primeiro evangelho escrito em ordem cronológica, ao primeiro anúncio da Paixão proferido por Jesus aos discípulos. No que tange à tradição da Paixão, considera-se que o relato elaborado por Marcos foi a primeira construção teológica do gênero literário chamado Evangelho[1], dando-se, portanto, a pensar que Marcos serviu de inspiração para o Evangelho de Mateus e de Lucas. Segundo alguns exegetas (estudiosos da Sagrada Escritura), a Tradição da Paixão existia como um material independente, que prestou serviço à teologia posterior, i. é., aos Sinópticos (Mc – Mt – Lc) e, mais tarde ainda, ao Quarto Evangelho (João). Contudo, toda a discussão sobre a pré-existência da tradição da Paixão, neste artigo, parece mera especulação, pois a beleza teológica que se percebe no relato é, indubitavelmente, maior. Trata-se de vislumbrarmos aqui o convite ao seguimento, seguido da não compreensão de Pedro e do ensino de Jesus, quando ele diz que perder é ganhar e ganhar é perder.

          Com evidência pode-se perceber que Marcos utiliza o termo Filho do homem, (8,31, 9,30; 10,32), referido também na tradição de Lucas (9,44), mas suprimido pelo texto de Mt (16,21;). A expressão apocalíptica Filho do Homem (presente sobretudo no AT em Dn 7,13-14), segundo o respeitado perito em AT, Gerard Von Rad, represtenta um personagem messiânico, no sentido mais amplo do termo. O Filho do Homem é o ungido, em hebraico Mashiāh, aquele que levaria a cabo a construção de uma nova realidade em Israel, no eminente advento do Reinado de Deus. “Identificando a si mesmo no destino do Filho do Homem, Jesus prospectou não só sua morte trágica, mas também a exaltação gloriosa da parte de Deus”.[2] Levando em consideração o Sitz in leben (contexto vital) em que Jesus estava inserido, já no clímax de sua missão terrena, era de se esperar que sua vida seria testada no “cadinho da humilhação” (Eclo 2,5; Is 48,10). A morte de Jesus, e ele bem sabia disso, seria o resultado ou a consequência da pregação do Evangelho, assim como uma reação dos poderosos à práxis libertadora de Jesus, que estava, evidentemente, em conformidade com a vontade do Pai. Jesus sabia que iria morrer por causa do projeto do Pai, não que o Pai quisesse sua morte, mas a vida mesma de Jesus, vivida e assumida em radicalidade à obediencia fiduciária ao Pai, o levaria à morte, pois sua vida não se conformava às realidades humanas, muitas vezes alicerçadas no poder, no dinheiro, no pecado e na morte.

          O anúncio da Paixão dá início na obra marcana a uma nova fase da existência de Jesus, que consiste também em um passo novo em direção do caminho de sua revelação no mistério da Páscoa, trata-se da pergunta cruciante: “'Quem dizem os homens que eu sou” (v.27). O cenário é o caminho para Cesáreia de Filipe. A questão é: “Quem é Jesus” para os homens, seus interlocutores, e para os discípulos seus seguidores? Esta noção é pertinente para o mestre de Nazaré, pois saber o que dizem sobre ele e o que os discipulos dizem a respeito dele é condição para continuar revelando-se sem o perigo de no fim nada compreenderem.

          Jesus não dado por satisfeito com a resposta evasiva dos discípulos que diziam que o povo o considerava algum dos profetas, ou João Batista, ou ainda Elias, vai além. Ele agora pergunta “E vós, quem dizeis que eu sou?” v. 29. Pedro, com toda prontidão, responde: “tu és o Messias”.

          De imediato, Jesus proíbe severamente Pedro de anunciar esta verdade (v.30). Trata-se, nas entrelinhas de Marcos, do segredo Messiânico de Jesus. Ele precisava, gradativamente, revelar-se Messias. Dizer na metade do Evangelho que Jesus era o Messias, seria uma possibilidade de perder o sentido da narrativa e de toda sua missão que se constituía paulatinamente.

          Jesus agora começa a ensinar os discípulos. No ensino de Jesus, evidencia-se que sua morte em Jerusalém, não corresponderia a uma “casualidade” banal, mas seria a expressão de sua opção e das consequências de sua missão. Nota-se em Marcos, bem como em outros evangelhos, que a morte de Jesus é vontade divina. O Filho do homem deveria sofrer, morrer para depois ressurgir. No entanto, o evangelista denuncia os algozes de Jesus, nas pessoas dos anciãos do povo, da hierarquia sacerdotal e dos doutores da Lei.

          Pedro conduz Jesus à parte (v. 32b), na tentativa de tirá-lo do caminho para a cruz. Pedro não compreende o que se passa na cabeça de Jesus.  Dá-se aqui a célebre cena de confrontação, traduzida pelas duríssimas palavras: “Vai para longe, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens” (v. 33b). No grego de Marcos encontramos: “Vai para trás de mim, Satanás”. Literalmente, Pedro precisa voltar-se para o devido lugar: no seguimento de Jesus. Objetivamente, na “escola” do mestre Jesus, Pedro ainda é seguidor e aprendiz. Pedro não está em condições de conduzir o mestre, mas deve deixar-se conduzir por ele. Jesus quer, formal e enfaticamente, dizer a Pedro que seu lugar é na esteira do caminho e não na precedência da missão. Pedro é condenado por Jesus por pensar como os homens, de forma triunfalista e mesquinha, visando apenas seus interesses próprios. Pensar como Deus é antes de tudo corresponder à vontade do criador, fazendo-se em nossa vida sua vontade, seu desígnio.

          Pedro é denunciado por Jesus como tentador satânico. Isso traduz-se a escassez da compreensão de Pedro. Ele quis, por seu egoísmo, por em risco a obediência fiducial de Jesus ao Pai. Fazer a vontade humana de Pedro faria com que Jesus se colocasse na contramão dos projetos de Deus, isto é, tudo a perder, como mero capricho humano, afastando-se da verdadeira vontade a de Deus. Obviamente, não é difícil ver cristãos hoje que pensam como Pedro. Para muitos, a radicalidade de Jesus, sua confiança na Palavra do Pai e sua obediência não passam de meras opções do mestre, não tocando sequer o mínimo de suas vidas na dimensão do serviço ao Reino de Deus, do bem ao próximo e da construção de um mundo melhor para se viver.

          A recusa do messianismo de Jesus, que pressupõe abraçar a Paixão e a morte, para alcançar à Ressurreição, é diabólica. Tal recusa parece ser um capricho diante da vontade e benevolência de Deus. Pensar no messianismo dos cristãos de hoje é deparar-se com as cruzes do mundo e com todos os Cristos que caminham em direção aos Calvários. A tentação de Pedro, por um cristianismo de poder e de glórias ainda ronda muitos corações e mentes, principalmente dos que estão no poder-serviço. O messianismo de hoje, dos cristãos pós-modernos, se traduzirá fielmente na busca pelo verdadeiro Messias que não triunfou, que sentiu todas as dores, que se humilhou e pacificamente morreu por todos.

          Nosso messianismo se depara hoje com tantos sofredores, homens e mulheres, crianças e idosos, jovens sem futuro. Há fome na África, ditaduras em ebulição em muitos países, pessoas sem sentido, perambulantes, intolerâncias religiosas. Há muito que se fazer. Não podemos nos ater, como Pedro, à ideia de uma Cristandade triunfalista quando vemos um mundo em declínio. Não podemos apenas pensar em nós e em nossos interesses pessoais, quando o mundo se esfacela desejando a paz, justiça e amor. Há que se superar a tendência atual do eclesiocentrismo quando o Reinado de Deus é verdadeiramente a palavra áurea proferida e vivida por Jesus. 

          Com a expressão “então” (v.34), seguido de uma exortação, (v. 34-35) conclui-se esta narrativa. Esta parte pode ser considerada o desenlace da intriga, conhecida como parênese ou exortação parenética, considerada o eixo ou o suporte moral da intriga acima, a moral esperada. Daí Jesus tira de seu anúncio da Paixão, seguido da interrupção confusa de Pedro, uma moral para os discípulos, seus interlocutores: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (v. 34). Segundo Marcos, quem não se coloca atrás de Jesus para segui-lo não atinge o conhecimento nem a compreensão afetiva e efetiva de sua missão. Jesus perderá sua vida, ele depositará sua própria existência no altar do Gólgota, no madeiro da cruz. Para seguir a Jesus é preciso tomar a cruz, renunciar a si mesmo, nossas vaidades e vontades pessoais mesquinhas e no chão da história segui-lo, testemunhando-o no mundo.

          Para Jesus, perder é ganhar (v. 35). A dinâmica, do mestre Jesus, na contramão dos “valores” atuais, é sempre um desafio. Nem sempre queremos perder, nem sempre queremos doar, mas receber e acumular. Para Jesus, ganhar a vida consiste em renunciar ao mundo e seus fascínios e ambições. Para nós, a vida de Jesus, sua pregação, o anúncio do Reino, a relação com o outro e o desejo de se doar ilimitadamente no projeto de Deus, dão a pensar que vida só tem sentido na consumação da cruz, que é o lugar da exaltação, onde o Pai acolhe a perfeita oferenda de seu Filho, o amado, o único e sumo Sacerdote de toda Criação. Jesus compreende que na consumação de sua vida, extenuada, levada as últimas consequências, e, por sua misteriosa morte, que também é obra da maldade humana, ele exultará o Pai e receberá a glorificação eterna.

          Para nós cristãos, a glória de Jesus Cristo é realidade alcançável. Ele deixa claro que nossa práxis é condição de possibilidade para nos conduzir à sua vida divina, à glória do Pai. Segui-lo é a única forma de identificar-se com ele. Por isso, ele se diz ser o “caminho” (Jo 14,6). Ele é quem nos convida e nos possibilita a participar da glória do Pai, que é a vida feliz e eterna.

 

 

 

 



[1] Fazemos nossa as palavras de Rudolf Pesch quando diz: “O autor do evangelho de Marcos criou com sua obra um novo gênero literário”. (PESCH, R. Il vangelo di Marco. Prima parte, introduzione e commento ai capp. 1,1-8,26. Brescia: Paideia, 1980. p. 33). Com o título de seu livro (Mc 1,1) Marcos deu início ao processo denominado “Evangelho”, livro no qual o autor proto-cristão resumiu a tradição de Jesus com a ajuda da comunidade. Pode-se entender “Evangelho” não no sentido de denominar um livro, mas um gênero literário.
[2] BARBAGLIO, G. Os Evangelhos (I). 2.ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 257.

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