sexta-feira, 10 de agosto de 2012

XIX DOMINGO COMUM


"O pão que eu darei é a minha carne" Jo 6,51c






Jo 6, 41Os judeus começaram a murmurar a respeito de Jesus, porque havia dito: “Eu sou o pão que desceu do céu”. 42 Eles comentavam: “Não é este Jesus o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como pode então dizer que desceu do céu?” 43 Jesus respondeu: “Não murmureis entre vós. 44 Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia. 45 Está escrito nos profetas: ‘Todos serão discípulos de Deus’. Ora, todo aquele que escutou o Pai, e por ele foi instruído, vem a mim. 46 Não que alguém já tenha visto o Pai. Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. 47 Em verdade, em verdade vos digo, quem crê, possui a vida eterna. 48Eu sou o pão da vida. 49 Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. 50 Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer, nunca morrerá. 51 Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”.
  
           


            O estilo narrativo, bem aplicado ao Quarto Evangelho, segundo João, nos coloca diante da cena pensada e descrita a partir de em torno do tema do “pão da vida”. Esta temática é contundente para o capítulo VI do Evangelho joanino. Trata-se da realidade do pão descido do céu, que tem como destino a realidade humana: “O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós”, afirma o v. 14 do prólogo de João. Portanto, “o pão descido do céu”, ao engendrar-se na realidade humana, torna-se o alimento para a vida eterna, isto é, para a salvação do mundo. A salvação cósmica depende da encarnação de Deus na história, do fazer-se um de nós, do assumir (de Deus) aquilo que será por fim reconciliado e redimido. O pão da vida, que é o próprio Cristo Jesus, equivale, em redenção, àquilo que sua própria encarnação outrora (já) assumiu. Nossa história faz-se redimensionada pela ação salvífica de Jesus, o pão da vida eterna, descendente da realidade divina, Deus-homem que habita, transforma, assume e salva nossa história.

            A narrativa acima aborda a querela que as autoridades judaicas têm mediante a autoproclamação de Jesus como “o pão da vida”. Vejamos os pormenores desta narrativa que desemboca na ação transformadora, que certifica o leitor, de que de fato Jesus é o pão da vida, pois quem come deste pão viverá para a eternidade.

v. 41 “Os judeus começaram a murmurar a respeito de Jesus, porque havia dito: ‘Eu sou o pão que desceu do céu’”. Tal qual no relato do Ex 16,2s, o narrador do Quarto Evangelho começa por notar a murmuração dos judeus, esta ação é como uma espécie de preâmbulo para adentrar no conteúdo principal: “o pão descido do céu”. O murmúrio é próprio de quem tem uma fé infantil, ou que não entende o sentido claro da própria vida, repleta de altos e baixos, tristezas e alegrias, compreensões e incompreensões. O povo murmurou no deserto quando estava com Moisés, as autoridades judaicas (judeus) murmuram quando estão com Jesus. Todo líder religioso deve saber muito bem caminhar entre os elogios e as críticas, as aprovações e reprovações. Contudo, é pertinente notar que as murmurações têm seu início quando Jesus lhes diz: “eu sou o pão descido do céu”. Para eles, Jesus jamais poderia vir de Deus. Para eles, Jesus era apenas um mortal, um concidadão, um homem como qualquer outro e nunca poderiam imaginar a origem divina de Jesus, o Verbo feito carne no meio dos homens (cf. Jo 1, 14).

v. 42. “Eles comentavam: “Não é este Jesus o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como pode então dizer que desceu do céu?” Os judeus (termo actancial para dizer autoridades judaicas), começaram a questionar Jesus. “Não é este Jesus o filho de José?” A pergunta sobre a procedência de Jesus é a forma mais concreta e razoável para perceber sua verdadeira origem. Atitude aparentemente sábia da parte dos judeus, porém, não convincente. Pois toda a práxis de Jesus demonstra e corrobora que sua origem não era humana, mas divina. As curas que realizava, os sinais que foram evidenciados por ele dão, por si só, a pensar que Jesus não era um homem comum, mas que era Deus feito homem, Deus humanizado ou ainda, a “carne de Deus”. Portanto, para os judeus ortodoxos, quando Jesus dizia-se “pão descido do céu” era como se dizer Deus, isto é, uma blasfêmia.

v. 43. “Jesus respondeu: Não murmureis entre vós”. O termo “murmurar” (aqui em 6,43) tem como horizonte, para João, o maná do deserto. Os judeus do tempo de Jesus murmuram tal e qual os que estavam com Moisés no deserto. A ligação entre os dois textos, segundo comenta Léon-Dufour, é a falta de fé, e pode ser útil especificar mais este elo. “No deserto os hebreu murmuraram contra Moisés, e este lhes responde que não é contra ele que estão murmurando, mas contra YHWH, Adonai, retificação sublinhada por três vezes seguidas (Ex 16,708)”[1]. Assim, possivelmente João preferiu conservar o verbo “murmurar” para dizer daqueles que se recusavam crer em Jesus (o que significa o murmúrio), ou seja, recusar aderir à vontade do próprio Deus. Jesus insistiu em 6,35-40 sobre o fato de o Pai tê-lo enviado, cuja vontade ele cumpriu com fidelidade.

v. 44. “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia”. Do v. 44 ao v. 47, Jesus narra a “atração” do Pai. No versículo 44, especialmente, Jesus afirma sua verdadeira origem divina. Ele explica que vem de junto de Deus. E é o Pai que permite que o ser humano aproxime-se (em laços de amor) de Jesus, pois é o Pai mesmo que nos atrai a Cristo. Não é Cristo, o Filho, quem dá a conhecer o Pai, mas o contrário. É o Pai quem dá a conhecer o Filho. Todos, pelo Pai, seremos atraídos a Cristo. O Filho, por sua vez, ressuscita todo aquele que é atraído a ele. Evidente que este poder de atração concedido por Deus-Pai é fé. Deus nos concede a fé no Filho e o Filho, por sua parte, nos concede a vida eterna, a Ressurreição. O eixo narrativo que perpassa esta intriga é certamente a iniciativa salvífica de Deus[2].

v. 45. “Está escrito nos profetas: ‘Todos serão discípulos de Deus’. Ora, todo aquele que escutou o Pai, e por ele foi instruído, vem a mim”. Para a tradição da comunidade joanina, todo aquele que aprende de Deus, é instruído por Deus consequentemente aproxima-se de Jesus, é atraído por Ele. O ensinamento do Pai transmitido a Israel, se admitido no âmago, isto é, no coração, nos conduz ao Filho. Toda revelação de Deus tem como clímax narrativo o Filho. João cita para isso o versículo do profeta Isaías que diz que “todos serão ensinados por Deus” (Is 54,10;55,3). O oráculo de Isaías previa que todos seriam discípulos de Deus, mas para que isso acontecesse, em função do pleno cumprimento das Escrituras, era preciso que o homem abrisse o seu coração. Ser atraído por Deus é abrir-se a Ele, à sua instrução, isto é, ao seu Mandamento, o próprio Filho de Deus, a nova Torá, descida do céu.

v. 46. “Não que alguém já tenha visto o Pai. Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai”. Jesus é fiel às Escrituras, ele é a Escritura levada ao cumprimento. Portanto assevera que ninguém jamais viu o Pai. Moisés viu a Glória de Deus, isto é, o Logos, mas não, verdadeiramente, a face de Deus. Somente o Filho, que procede do Pai, é quem viu a face de Deus. Jesus está voltado desde toda a eternidade para o seio do Pai (Jo, 1,1-2), e só ele viu Deus, face a face.

v. 47. “Em verdade, em verdade vos digo, quem crê, possui a vida eterna”. “Amém, amém”, de forma semita e litúrgica Jesus pronuncia: ‘quem crê possui a vida eterna’. Crer para o Quarto Evangelho é já possuir a salvação, a vida eterna de Deus. Crer é estar em íntima relação com o objeto (no caso de Deus – sujeito) crido. Assim, crer é o mesmo que participar da eternidade, pois a certeza que Jesus nos concede é que com ele estaremos após esta vida (cf. 6,44).

v. 48. “Eu sou o pão da vida”. v. 49Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram”. v. 50. “Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer, nunca morrerá”. Estes versículos estão em estreita relação. Jesus é agora o pão descido do céu. Ele abole o mistério que estava por trás do maná ofertado por Deus. O maná saciou a fome dos antepassados, porém não os descartou da morte. Eles comeram e morreram. Em contrapartida, Jesus é o pão descido do céu. Pão que dá a vida. Quem dele come viverá eternamente. Em 5,24, Jesus afirmou: “quem escuta a minha palavra passou da morte á vida”, e agora diz que quem come do pão que é ele, viverá para sempre. Jesus é o pão da imortalidade, que conduz à eternidade. O recurso literário utilizado por João, que presume a repetição das palavras, não pode ser considerado um estilo descuidado de escrever, mas a repetição equivale à importância das palavras e expressões. O fato de Jesus repetir que é o “pão da vida”, consiste em dizer que ele é o alimento por excelência da vida do cristão, seu seguidor, seu servidor.

v. 51 “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”. Jesus aqui modifica o teor da narrativa, o fio condutor é o mesmo, porém, a tônica não. Jesus passa de “pão da vida” para “pão vivo”. É interessante notar que a palavra vida, no grego joanino, não é vida em sentido biológico, mas espiritual, em grego, Zoen equivale à vida em sentido mais especial, e não comum, como vida animal, mas vida existencial. Jesus diz, “Eu sou o pão vivo” e ainda “quem comer deste pão viverá eternamente”.

            Aqui, no v. 51, o leitor é conduzido a uma nova revelação da parte de Jesus: “o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”. O verbo “dar”, no futuro, tem por sujeito um egó, em grego significa EU, enfático, o mesmo que caracterizava a designação do pão em 6,35, “Eu sou o pão da vida”, em 6,48 e em 51a. Agora, porém, em 51c “o pão que eu darei...” é uma ação do próprio Jesus e não mais do Pai. A carne que Jesus dá não é sua carne sarquíca, do grego, sarx, mas psiché, espiritual, psíquica, que pode ser traduzida por “vida” ou ainda por “alma”. Mas pode ser entendida como corpo, soma, em grego, para lembrar-nos da última ceia com os discípulos, na quinta-feira santa. O verbo “dar”, dóunai, em grego, é utilizado apenas no contexto dos pães. A preposição “para”, em grego, hyper, indica em João, o sentido de “em favor de”, a finalidade do dom de Jesus faz de sua vida: um “para”, ou seja, “em favor” de suas ovelhas, para o povo, para as nações, para seus discípulos, e em no v. 51c, “para a vida do mundo”.

            Por fim, a morte de Jesus, que se transforma em vida para o mundo, é o fio condutor desta narrativa. O pão da vida será, no final da trama joanina, ofertado, de modo claro e pleno, no altar do Calvário, e lá, tal qual o grão de trigo, que morre, germinará a vida eterna (Jo 12,24). Destarte, Jesus, “o pão vivo descido do céu”, é perfeita condição para a entrada na eternidade, isto é, a vida plena diante da face amorosa de Deus, nosso Pai.





[1] LÉON-DUFOUR, X. Leitura do Evangelho segundo João. (vol II). São Paulo: Loyola, 1996. p. 112.
[2] LÉON-DUFOUR, p. 113. O autor considera que todos os homens são convidados a fé e que a salvação é destinada a todos os homens sem exceção. O tema da atração divina, na Escritura, é inseparável do tema do amor, do qual ele constitui expressão. Por exemplo, Deus disse a Israel: “Eu te amei com um amor eterno, por isso te atraí em minha misericórdia” (Jr 38,3).

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