sexta-feira, 17 de agosto de 2012

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA




Minh' alma engrandece a Deus, meu Salvador!





Ficheiro:Tizian 041.jpg

Obra de Tiziano Vecellio, século XVI



Lc 1, 39 Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40 Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.  41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Com grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! 43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44 Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. 46 Então Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47 e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48 porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49 porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50 e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o respeitam. 51 Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52 Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54 Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55 conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56 Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

           


            A festa da Assunção (ato de ser elevada) de Nossa Senhora aos céus, também conhecida no Oriente como a Dormitio Mariae ou Dormição de Maria, é celebrada pela igreja do Brasil no primeiro domingo depois do dia 15 de agosto. Com caráter solene, a celebração da Assunção de Maria aos céus, de corpo e alma, retrata a devoção de muitos fiéis, que, em torno da Virgem Maria, compreendem seu próprio mistério de destino, no último dia, à glória de Deus, à contemplação da face amorosa do Pai.

            O dogma (ou verdade de fé) da Assunção de Nossa Senhora, mesmo antes de ser proclamado como tal, já era celebrado e havia se tornado devoção dos fiéis. Isto é, fazia parte do sensus fidelium, para ser mais claro, do senso de fé dos fiéis. Proclamado por Pio XII, em 1º de novembro de 1950, o Dogma da Assunção refere-se à Virgem Maria elevada de corpo e alma aos céus, por desígnio amoroso do Pai, Deus de amor. Assim afirma a Constituição Munificentissimus Deus: "[...] para aumentar a glória da mesma augusta Mãe e para gozo e alegria de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, terminado o curso da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória do céu".

            Evidentemente após a proclamação do Dogma segue-se sua recepção. E não se tornou difícil tal ato. Os fiéis do mundo todo, tanto Ocidentais como Orientais, se voltam à face de Maria, sob variados títulos, e clama por sua intercessão, a partir e por causa da comunhão dos santos. Maria participa plenamente desta comunhão como salva e ressuscitada. Contemplando a face de Deus, e gozando das alegrias da vida eterna, ela intercede pelos seus filhos, recebidos na cruz do Calvário: “Mãe, eis aí o teu filho”.


            O dogma da Assunção nos faz compreender que Maria, em sua humanidade, é assumida por Deus. Na essência da proclamação está a percepção de que ela fora aceita no céu de corpo e alma, reiterando para nós o sentido pleno da vida humana. É, deste modo, a vida toda de Maria aceita por Deus. Nela, a Virgem filha de Nazaré, a humanidade se torna representada na cidade celeste, a Jerusalém fiel. Maria simboliza a humanidade que corteja e adora o Criador, adora e bendiz o nome do Filho amado de Deus e com mesma intensidade louva e reverencia o Espírito Santo, que a fecundou.  


            Com grande significado, o texto do Evangelho, escolhido para esta solenidade, nos faz lembrar das palavras proferidas pelos devotos nas Aves-Maria: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. Lucas nos apresenta a conhecida cena da Visitação de Nossa Senhora a Isabel, sua parenta que também estava grávida na velhice.

            O texto lucano (1,39-56), situado no Evangelho da infância, pode ser considerado uma composição narrativa da visita de Maria a Isabel e do cântico por ela proclamado, o “Magnificat anima mea”, que pode ser traduzido por “engrandece minha alma”, em grego transliterado encontramos: “megalinei hé  psiché mou”.

            A visita de Maria a Isabel retrata com clarevidência sua condição de doulia, de serva do Senhor. Maria é mulher sensível, dócil e servil ao projeto tanto de Deus, como aos homens, neste caso sua parenta, Isabel, que também estava para dar a luz.


           Maria, ao adentrar o recinto da casa de Isabel,  faz a criança que Isabel trazia em seu ventre exaltar de alegria. Isabel torna-se cheia do Espírito.  Daí, a tradição afirma que “o batista foi batizador pelo Senhor”. Da boca de Isabel advém a saudação: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!”. Como poderia a pobre anciã das montanhas da Judeia receber a jovem de Nazaré, a mãe do Salvador? Isabel fica sem compreender o gesto servil de Maria. Isabel completa dizendo: “Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1, 44-45).

           
          Para Isabel, a visita de Maria confirma os desígnios de Deus, o desejo de que João se torne arauto de Jesus, ou seja, precursor do Messias, bem como também Isabel afirma a bem-aventurança de Maria. Ela é feliz, pois acreditou na palavra de Deus, na promessa que lhe fora feita (Lc 1,31). Por isso a Igreja afirma que Maria gera Jesus primeiro pela fé.


            A seguir, é Maria quem protagoniza a cena com seu cântico, o Magnificat. As palavras de Maria, carregadas de significados da Tradição de Israel, contemplam a reviravolta causada por Deus: “derrubou dos tronos os soberbos e elevou os famintos” (v. 52). Aparentemente trata-se uma realidade mais apocalíptica e escatológica do que presencial, isto é, de revelação e dos fins dos tempos, nos quais o próprio Deus fará a inversão dos papéis. Os que estão no alto cairão, os que foram massacrados serão exaltados com poder.


            Com as palavras de Maria, no Magnificat, podemos perceber a dimensão transformadora de Deus. Para Ele, tudo será recapitulado, tudo terá novo sentido. “Eis que se farão novas todas as coisas”. Os esquemas humanos não prevalecerão ante a vontade do Criador. Os famintos serão saciados de bens e os que se fartaram perecerão. A realidade de Deus não está em conformidade com o projeto humano, não é claro, quando Deus for tudo em todos, quando seu Filho, Jesus Cristo, entregar o Reino ao Pai, Deus transformará todas as realidades. Com toda clareza, a justiça de Deus, repleta de misericórdia, restaurará a história humana empobrecida e aviltada pela ganância humana. Deus, com toda certeza de fé que Maria nos fornece, não compactuará com este mundo sanguinolento e perverso, no qual os poderosos pisam na cerviz dos humildes e humilhados. Certamente Deus não compactuará com este sistema perverso, no qual nossos dirigentes públicos roubam descaradamente, e usurpam do povo mais do que necessitam para viver em paz. Certamente Deus não compactuará com este mundo de pré-conceitos e racismos, de intolerâncias e arrogâncias. Deus quebrará os esquemas religiosos que apenas anunciam o dinheiro como Deus e colocam o verdadeiro Deus a serviço do dinheiro.



           O cântico de Maria nos ensina que também Deus intervirá na história humana por ele mesmo criada. Deus não tardará em revirar os esquemas perversos dos homens mesquinhos que furtam a dignidade de outrem, que corrompem as leis divinas e humanas para benefício e gozo próprios. Por fim, a Mãe de Deus, do Salvador, nos ensina que é preciso confiar na providência do Criador, que com seu Espírito ainda nos alenta no caminho da fé. Tal Espírito nos conduz a não desacreditar que Deus é amor e que ele, em sua justiça, transformará este mundo, instaurando para sempre seu Reinado de paz tão sonhado por nós, seu novo Israel.

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