sexta-feira, 6 de julho de 2012

XIV DOMINGO COMUM

Um profeta só não é estimado em sua pátria (Mc 6,4a)



Mc 6, 1 Jesus foi à Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam. 2 Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: 'De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? 3 Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?' E ficaram escandalizados por causa dele. 4 Jesus lhes dizia: 'Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares'. 5 E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. 6 E admirou-se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando.



            O Evangelho de Marcos, que consiste na primeira narrativa evangélica elaborada a partir da tradição sobre Jesus, está permeado pela interrogação: “Quem é Jesus?” Tal questão é concernente a toda narrativa de Marcos. Destarte, saber “quem é Jesus” é fundamental para entendê-lo, aceitá-lo e segui-lo. Conhecer a identidade de alguém é sem dúvida entrar em sua intimidade, a fim de amá-lo ou detestá-lo, a isso dá-se o nome de empatia ou apatia.

            Como toda clareza, a partir de uma leitura atenta da narrativa marcana, evidencia-se no Segundo Evangelho uma dupla ação por parte dos interlocutores de Jesus: “admiração-incredulidade” e “admiração-seguimento”. Para as autoridades judaicas e alguns curiosos, que buscam compreender quem é Jesus a partir apenas da curiosidade, tal admiração se converte em hostilidade, dado que Jesus se lhes revela absolutamente o oposto às esperanças criadas por tais pessoas. Para os que buscam conhecer a Jesus a partir da procura afetuosa, a admiração se converte em força para o seguimento, pois estes se identificam com o Mestre Jesus que lhes mostra o verdadeiro sentido de suas vidas. Jesus, um Messias adverso aos paradigmas esperados, se revela como aquele que serve ao próximo e procura revelar o amor de Deus, o Pai.

            A práxis de Jesus, segundo o Evangelho de Marcos, é verdadeiramente uma exousia, isto significa em grego, “poder autorizado pelo Pai”. Jesus age segundo a vontade de Deus. A vida, a palavra, a missão e o destino de Jesus estão todos orientados para Deus. É em nome de Deus que ele age na vida dos homens, dos discípulos. Fiel à vontade do Pai, Jesus doa a sua vida na cruz, cumprindo precisa e fielmente a promessa de Deus. A morte e ressurreição de Jesus são momentos decisivos da fidelidade de Jesus, que se entrega à morte de Cruz e espera obedientemente a Ressurreição, a vida nova, reservada a ele pelo Pai.

            A partir da narrativa marcana desse domingo, percebe-se que Jesus anuncia a palavra de Deus, seus ensinamento e mandamentos, entende-se que Jesus não é compreendido por seus patrícios e que sua decisão em ir para Jerusalém está subordinada à rejeição experimentada na Galileia e Judeia. Vejamos os pormenores da narrativa de Mc 6, 1,-6.

v. 1 “Jesus foi à Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam”. Jesus decide-se ir para Nazaré sua terra natal. Nazaré é um lugar especial para vida de Jesus: constitui seu lar, sua primeira morada. Os amigos e seguidores mais próximos de Jesus também estavam ligados a esta cidade. Nazaré é uma palavra polissêmica, isto é, com muitos sentidos. Pode ser traduzida por “ramo” ou “broto”. Para o Evangelho apócrifo de Filipe, Nazará significa “verdade”. Uma terceira opção leva a compreender o termo Nazireu como “separado”. Este termo gentílico considera “aquele que fez um voto de não tocar em cadáveres, não cortar o cabelo e barba, e de não tocar em uvas nem em seus sub-produtos”.

v. 2 “Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: 'De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?” Era dia de sábado, shabat, dia do cessar de Deus, na Criação. Jesus desobedece o shabat e começa a ensinar na sinagoga. Jesus age não amparado pela Lei, mas por seus princípios. Ele transgride a lei que dizia que nada poderia ser feito nesse dia, que era dedicado a Deus. Em contrapartida Jesus está ensinando a palavra de Deus. Seus interlocutores ficavam admirados com tanto conhecimento e sabedoria. “De onde recebeu ele tudo isto” era a interrogação que lhes saltava à mente. Não apenas as palavras de Jesus deixava seus conterrâneos admirados, mas também os milagres que ele realizava por suas mãos. Jesus não se destacava apenas pela Dabar de Deus proferida, pela Palavra divina, mas por um agir libertador. Sua Palavra estava ligada à cura, ao perdão e à libertação das demonias que aprisionavam os homens. O agir de Jesus não era desconexo da Palavra, nem sua Palavra era vazia de sentidos. Ele falava e agia em nome de Deus.

v. 3 “Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?' E ficaram escandalizados por causa dele”. Contudo a ação de Jesus ser libertadora e absurda às realidades humanas, os homens insistiam em reduzir a pessoa de Jesus à realidade que o circundava. Ele não é o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de Joset e de Simão? Todos estes questionamentos levam-nos a compreender que os vizinhos incrédulos de Jesus querem reduzi-lo àquilo que o tornava comum. Como um homem comum faz tais milagres? A incredulidade desses homens que questionam a origem de Jesus os leva a cegar e a reduzir a verdadeira imagem de Jesus. Destarte, tais homens não aceitavam que um comum entre eles pudesse agir em nome de Deus e pela mão de Deus. Tais homens ficaram escandalizados. Escandalizar significa tropeçar nas pedras do caminho da vida. Jesus tornava-se pedra de tropeço para as maldades e mesquinharias de seus compatriotas. Eles preferiam que tudo permanecesse na mais perfeita harmonia e que Jesus em nada os atormentasse com sua palavra santa e libertadora. Por fim, Jesus os escandalizava porque eles queriam permanecer na mesma condição política e religiosa de sempre, de submissão e imoralidade, enquanto o Messias, que atendia por nome de Jesus Nazareno, desejava um povo livre e temente apenas a Deus.

v. 4 “Jesus lhes dizia: 'Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares'”. Para Jesus, essa indisposição por parte de seus concidadãos o leva a proferir a máxima verdade popular: “Um profeta só não é estimado em sua pátria...” Em outras palavras, equivale dizer: “Santo de casa não faz milagre”. Jesus é desprezado em sua própria cidade. Aqueles que com ele conviveram estavam cegos pela incredulidade. Seus corações estavam endurecidos para a ação bondosa de Deus em Jesus nazareno. Não é diferente entre nós hoje, quando alguém que conosco conviveu se destaca em algum nível da vida. Nunca lhe daremos a devida importância e sua profecia, sua vitória sempre nos será um fardo pesado para carregar, um espinho em nossa garganta.  Infelizmente esta mesma realidade é perene ainda hoje, em nossas igrejas, em nossas instituições e até em nossas famílias.

v. 5 “E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos”. O comentário do autor do Evangelho de Marcos é claro: “E ali não pôde fazer milagre algum”. Trata-se da verdadeira indiferença à pessoa de Jesus, o Messias. Esta indiferença os sedou diante da ação miraculosa de Deus em seu filho Jesus. Milagre, em grego, dynamis, significa ação de Deus. Como se daria em Nazaré a ação de Deus se nem a ação profética de Jesus eles estavam propícios a receber? Trata-se de uma verdade de fé: Deus não nos salva se nós não estivermos propensos a receber sua salvação. Da mesma forma não chegamos a entender a verdade de alguém se não estivermos abertos a ele. A esta realidade damos o nome de hospitalidade. Em contrapartida o autor do Evangelho diz: “Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos”. Tais curas são naturais à ação pública de Jesus. Ele liberta os que estão sob o peso do pecado e da doença. Trata-se de uma atitude espontânea daquele que vem para salvar os que estão enfermos. O ato de impor as mãos significa comunicar a alguém a autoridade, o poder e, no caso dos doentes, a cura.

v. 6 “E admirou-se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando”. Jesus fica estarrecido com a falta de fé de seus patrícios. No entanto, tal admiração não lhe fez desanimar do projeto de Deus. Trata-se, contudo, de um estímulo a mais na missão de Jesus. Trata-se de compreender que nem sempre a Palavra de Jesus será bem aceita. A hostilidade faz parte do processo daquele que evangeliza, que comunica a Palavra de Deus. Há, portanto, em nós o perigo sedutor de achar que todos aderirão à palavra do mestre de Nazaré. De modo contrário. Nem todos estão propensos e abertos à palavra libertadora e santa de Jesus. Seu Evangelho, o anúncio do Reino, da iminente soberania de Deus entre nós, é um perigo, uma afronta aos poderes mundanos, aos soberanos e iludidos mercenários deste planeta. A incredulidade à mensagem de Jesus não equivale à ineficácia ou inverdade de seu Evangelho. De modo contrário, vale dizer que seu Evangelho não é para as massas humanas, mas para os poucos seguidores que deixam ser desafiados pela mensagem do amor radical, do perdão desmedido e da caridade benfazeja e serena.  

            Deste modo, a mensagem da Boa Nova de Jesus deve ser nosso maior desafio, ora, em vivê-la de forma honesta e fiel, ora, em torná-la conhecida por nossa pregação corajosa. Por fim, os desafios e as hostilidades virão, mas com a mesma coragem de Jesus precisamos continuar anunciando que Deus é amor e que seu Reino é a mais bela realidade já anunciada e em construção no meio de nós.

   

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