sábado, 16 de junho de 2012

XI DOMINGO COMUM


“Com que poderemos comparar o Reino de Deus” (Mc 4,30a)

Mc 4, 26 Jesus disse à multidão: 'O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. 27 Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. 28 A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. 29 Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou'. 30 E Jesus continuou: 'Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? 31 O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. 32 Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra'. 33 Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. 34 E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.

           

            Estamos diante de duas parábolas do Segundo Evangelho. A da semente que cresce silenciosamente (Mc 4,26 a 29) e do grão de mostarda, a menor das sementes, mas a maior de todas as hortaliças (Mc 4, 30 a 32) e, por fim, uma nota explicativa a respeito do modus operandi de Jesus, isto é, do seu modo de falar, em parábolas (Mc 4,33-34).

            Estas duas parábolas colhem elementos comuns da vida dos palestinos. Mas, somente Jesus, o Nazereno, o sábio do Povo, foi capaz de perceber nas mais simples realidades uma bela explicação para o mistério, muitas vezes inexplicável, do Reinado de Deus.

            O Reino de Deus ou seu reinado entre os homens é uma realidade esperada desde a Criação. Deus nos criou para a vida feliz, para a realização e a plenitude. O Reino de Deus, proclamado, esperado e construído pelo Povo de Deus é uma realidade de plenitude. Diríamos, audaciosamente, já contemplado em nossa realidade, mas não levado à plenitude. Ele ainda não chegou à realidade plena, pois ainda existem realidades pecaminosas que o impedem de constituir a forma perfeita.

            O Reino é uma realidade escatológica, ou seja, vindoura e final. O Reinado de Deus corresponde à primazia divina nas (e sobre as) relações humanas. Estas relações, quanto mais humanizadas, mais prenhas de Deus estão. É como se Deus mesmo assumisse as causas humanas. “Quando Deus for tudo em todos”, então o Reinado, sua supremacia sobre a humanidade transbordará em tempo pleno de realização, de Kairós (de graça), no qual não haverá mais limites, nem dores, nem pecado, nem sequer sofrimento. Nesse tempo, a morte não terá seu domínio garantido, mas a vida assumirá toda realidade criada, redimida e santificada.

            Observemos, a partir do relato bíblico, a consideração sobre o Reino de Deus do Jesus marcano (do evangelho de Marcos):

A pequena parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29): v. 26 'O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. v. 27 Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece.

            O Reino tem seu princípio na iniciativa de Deus. Ele espalha a semente na terra. Hipoteticamente, diríamos se tratar da criação. Deus espalha, planta, cultiva o jardim do seu Reino, o Éden da História dos homens e mulheres. Ele cria, homem e mulher, à sua imagem e segundo sua semelhança. Deus espera o processo natural do crescimento de seu Reino. Esta parábola evidencia a sutileza do agricultor que deve esperar a naturalidade dos primeiros brotos, fiozinho por fiozinho, brotar da terra, no sofrimento da semente que morre para germinar nova vida. O processo é, evidentemente, misterioso. Essa naturalidade é ciência para Deus e nossa humanidade. Se Deus, a sabedoria plenificada, tem paciência para esperar, nós também o podemos. O Reino vem, calmamente, fazer entre nós sua morada.

            v. 28 A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. v. 29 Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou'.

            Deus, o Eterno agricultor, conhece o processo de sua plantação, a humanidade. As sementes são lançadas, os primeiros fios verdes brotam, embelezando a terra. Folhas, espigas e grãos. No tempo certo, ele arranca do mundo suas verduras que já deram fruto. Naturalmente, nossa vida é colhida por Deus. Dele viemos e a ele retornaremos. Desse modo é o Reinado de Deus. Tem etapas, processo, tempo determinado. Ninguém, por mais sábio e inteligente que seja, é capaz de explicá-lo. Ele vai acontecer. Os frutos da vida humana são notórios e naturais. Por mais que o mal possa impedir, o bem ainda há de vir, no tempo favorável. De um modo ou de outro, o ser humano produzirá o bem. Outro não é dono dessa realidade a não ser Deus. Ele é nossa origem, nossa meta, nosso fim.

A história da pequena semente de mostarda que cresce e se torna grande (Mc 4,30-32): v. 30 E Jesus continuou: 'Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? 31 O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. 32 Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra'

            Como um bom narrador judeu, Jesus pergunta: que parábola, isto é, comparação, usaremos para representar o Reino de Deus? Ele mesmo responde. Compara-se com um grão de mostarda. Uma pequenina semente. Embora pequena e aparentemente sem valor comercial, pois nasce em todos os lugares com facilidade, ela cresce exuberante. Tal hortaliça é vicejante e estende seus ramos, sob os quais os pássaros podem abrigar-se.

            Assim é o Reino de Deus: ele cresce sutilmente. Embora seja frágil em sua gênese, pois ela essencialmente é o amor, constitui-se na força mais bela e profunda. O amor é essencialmente frágil e sabiamente forte. Só o amor dá coragem aos homens. Eles mesmos podem se abrigar sob a força e beleza do amor. Os homens são tais passarinhos que, ao chegarem próximos dos que amam, são capazes de sentir sua força, sua sombra, seu esplendor e beleza. Desta forma, àqueles que chegam até nós precisam sentir nossa disposição a amar e a servir.

O motivo que levava Jesus a ensinar por meio de parábolas (Mc 4,33-34): 33 Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. 34 E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.

            As parábolas se tornaram o modus operandi de Jesus, isto é, sua forma mais simples de comunicar o amor de Deus. Ele falava e ensinava seus interlocutores, o povo, por meio de parábolas, comparações. Parábola, do grego parabolein, significa “lançar algo”, ou seja, lançar um ensinamento a partir de algo comum, corriqueiro. Jesus lança o pensamento do seu povo adiante, na possibilidade de eles repensarem a ação de Deus em suas vidas. O Reinado divino era essencial nas vidas palestinas. Todos desejavam a irrupção do Reino de Deus. Sua realidade descortinaria o próprio Deus, em sua misericórdia, justiça e direito. O Reino de Deus estava na agenda do Povo de Deus. Portanto, quando Jesus toca neste assunto, ele põe em relevo o assunto essencial.

            De outra maneira, quando estava com seus discípulos, Jesus fazia uma verdadeira exegese, isto é, explicava-lhes tudo aquilo que havia dito em parábolas, em comparação.

            Desta forma, falando em parábolas, Jesus tocava nas coisas mais simples: semente, terra, mostarda. Ele tornava o cotidiano transparente, extraordinário e surpreendente. Nas coisas ordinárias, comuns da vida humana, Jesus desvelava o Reinado de Deus, sua primazia na vida humana.

            Por fim, ao tocar na realidade do Reino de Deus hoje, atualizamos a Boa Nova de Jesus, seu Evangelho. A Boa Nova do Reino consiste na vida nova e abundante, no perdão desmedido, na graça benfazeja, na caridade perfeita, em nossa doação para a construção de um mundo melhor.

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