sábado, 30 de junho de 2012

FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO, APÓSTOLOS



TU ÉS O MESSIAS, O FILHO DO DEUS VIVO



Mt 16, 13 Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?" 14Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas". 15 Então Jesus lhes perguntou: "E vós, quem dizeis que eu sou?" 16 Simão Pedro respondeu: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo". 17 Respondendo, Jesus lhe disse: "Feliz es tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus".



            Estamos diante de um texto conhecido, instigante e sobremaneira decisivo para a comunidade e o Evangelho de Mateus. Tal narrativa pode ser considerada a dobradiça do Primeiro Evangelho. Comparado a tal dobradiça, este texto, separa duas realidades: a primeira, a qual se trata da missão de Jesus na Galileia e Judéia e a segunda, onde se dá o início da viagem de Jesus para Jerusalém. Esta segunda parte tem seu ápice narrativo na morte e ressurreição de Jesus. Evidencia-se, portanto, no Evangelho mateano um caminho no qual Jesus norteia sua história terrena, desembocando na morte de cruz e na resposta de Deus, a Ressurreição de Jesus.

            A primeira parte da narrativa de Mateus, que vai do capítulo 3 a 14, Jesus se apresenta, mas seus compatriotas se recusam a crer nele. Até concordam que ele tenha autoridade, mas como um profeta não é bem aceito em sua casa, eles preferem ser indiferentes a Jesus. Jesus se apresenta poderoso em obras e palavras, ele cura, expulsa os demônios, e anuncia as bem-aventuranças do Reino dos Céus. No fim desta seção do Evangelho encontramos os ensinamentos parabólicos (cap. 13, conhecido também como parábolas do Reino).          

            A segunda seção narrativa de Mateus, que se inicia no capítulo 14 e vai até o capítulo 28, moldura na qual o texto deste domingo se delineia, contempla Jesus percorrendo o caminho que o leva pela cruz à gloria da Ressurreição. Dois movimentos evidenciam esta longa seção; a primeira de base geográfica (14,1-16,20) e segunda de base doutrinal (16,21-20,34). A base geográfica diz que Jesus vai para região de Cesaréia de Filipe.

            O texto proposto para esta liturgia dominical, na Festa de São Pedro e São Paulo, compreende um pequeno relato (da confissão de Pedro) de uma seção unitária que vai até o versículo 28. As seções podem ser divididas da seguinte maneira: Mt 16, 13-20: Pedro reconhece em Jesus o Filho de Deus; Mt 16, 21-23: anúncio da Paixão e Ressurreição de Jesus e a tentação de Pedro; Mt 16,24-28: As condições para o seguimento de Jesus: renúncia de si mesmo e tomada da cruz.

            Obviamente na base geográfica do Evangelho, na qual se trata das viagens de Jesus, suas idas e vindas, anuncia-se também uma doutrina nova, um conhecimento novo. Tomemos a narrativa proposta para esta liturgia e vejamos as minúcias de Mateus nas entrelinhas do seu texto evangélico.

v. 13 “Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?’” Jesus se dirige à região de Cesaréia de Filipe. Tratava-se de uma cidade construída junto às nascentes do Jordão, nos anos 2 ou 3 a. e. C. por Herodes Filipe, em honra de Augusto. Tal cidade é conhecida hoje como Banias.

            A questão geográfica da tradição da profissão do apóstolo Pedro é diversa nos Evangelhos Sinópticos. Para Marcos e Mateus trata-se de Cesaréia de Filipe. Para Lucas o fato da profissão se dá em Cafarnaum ou nas vizinhaças. João, diferente dos Sinópticos, insere as palavras de Pedro logo após o discurso sobre o pão da vida, feito na sinagoga de Cafarnaum. Esta cidade localizada ao litoral do mar da Galileia era onde Pedro e os discípulos moravam.

            A questão de fundo está na expressão “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Trata-se do “feedback” que Jesus deseja daqueles que ouvem dizer sobre ele, daqueles que estão fora do círculo dos discípulos, ou seja, da opinião pública.

v. 14 “Eles responderam: ‘Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas’”. As respostas são as mais diversas sobre o Filho do Homem. Alguns pensavam que fosse o Batista, outros que era Elias ou Jeremias. Tais opiniões em nada relacionam à verdadeira realidade. Evidente que estas respostas coincidem ainda hoje sobre Jesus, pois muitos homens e mulheres o consideram apenas um profeta ou guru espiritual ou ainda um sábio e iluminado do povo. Longe desses está a verdadeira identidade de Jesus, homem-Deus.

v. 15 “Então Jesus lhes perguntou: ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’” Paralelamente a primeira pergunta esta segunda desce ao nível pessoal dos discípulos. Trata agora de eles identificarem quem é de fato Jesus de Nazaré. Esta não se parece uma tarefa fácil. Evidentemente os discípulos também tinham visões diferentes sobre aquele que eles seguiam. Alguns o consideravam apenas um Messias político, da ordem davídico-salomônica, outros o consideravam um zelota reformador, outros, que já estavam inconformados com seu modo de ser, o consideravam mais um curandeiro e sábio que Messias político. Havia, portanto, divergências entre os discípulos sobre a verdadeira identidade de Jesus. A pergunta que não se calava em seus corações era: “Quem realmente era esse homem?”

v. 16 “Simão Pedro respondeu: ‘Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo’” É Simão, filho de Jonas, o primeiro dos discípulos a ser chamado por Jesus, certamente o mais velho entre eles, que, em nome dos demais discípulos responde para Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Há, com toda certeza, dois níveis de compreensão nesta resposta de Pedro. Primeiro, o título Messias é funcional. Trata-se daquilo que Jesus veio cumprir. Ele é Messias, o Ungido do Pai. Ser Messias, para a tradição messiânica de Israel, tratava-se de assumir um reinado messiânico, no qual não haveria mais injustiça e a paz (shalom) reinaria em todos os corações humano. Segundo, o título Filho do Deus vivo, representa a natureza de Jesus, ele é Filho de Deus vivo, do Deus de Israel. Trata-se da ontologia de Jesus, do seu ser, da sua natureza divina. Ele é filho de Deus, isto é, Deus de Deus. Destarte, Pedro compreendende o além da missão de Jesus como Messias, compreende, pois, a identidade própria e natural de Jesus, o Filho de Deus, “Bar Elohim”. Vale lembrar que nos lábios de Pedro está a fé da Igreja primitiva, iluminada pela Ressurreição de Jesus e inspirada pelo Espírito Santo. Evidente que tal profissão é pós-pascal, na perspectiva da narrativa bíblica. Mas também é pré-pascal, isto é, antes do evento da Páscoa de Jesus em perspectiva da história. Com muita precisão histórica Jesus perguntou aos seus discípulos quem ele era. Esta pergunta está vinculada à identidade do mestre e a compreensão dos discípulos. É como o professor que pergunta no meio da aula “Vocês estão compreendendo o que eu digo?”

v. 17 “Respondendo, Jesus lhe disse: ‘Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. Ao receber tal resposta da boca de Pedro, Jesus se admira e o considera “feliz” – em grego Makários – “bem aventurado”, tal como no capítulo 5, das bem-aventuranças. Pedro, filho de Jonas, recebe de Deus a revelação de que Jesus é Messias e Filho do Deus vivo. Foi Deus Pai quem autocomunicou a Pedro a identidade de Jesus, não como algo miraculoso, mas na experiência com Jesus, no discipulado, na esteira do seguimento, Pedro é capaz de identificar a verdadeira realidade de Jesus. Pedro é bem-aventurado não por sua inteligência ao explicitar a filiação divina de Jesus, mas por se deixar iluminar pela graça divina presente na vida do Filho do Deus vivo. É o próprio Jesus quem se revela, Pedro é apenas um homem capaz de Deus, capaz de se relacionar com Deus e ver no Filho o que é próprio de Deus.

v. 18 “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”. Segue um duplo dito que se prospecta sobre o futuro. Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja. Pedro, em grego Kefa, em aramaico Cefa. Antes de tudo Simão é chamado de Pedro, tradução grega da palavra aramaica Kefa, que quer dizer “rocha”. O discípulo é apresentado e constituído como pedra sobre a qual a comunidade messiânica edificará sua eclesia, isto é, sua igreja.

            Por um lado podemos identificar Pedro como pedra sobre a qual Jesus edifica sua Igreja. Por outro, podemos identificar em Pedro a pedra angular, isto é, Jesus, a verdadeira rocha sobre a qual se edifica a Igreja. Numa terceira via, ainda, podemos ler na perspectiva de que Pedro edifica sua Igreja, que é igreja de Jesus, sobre a pedra angular que é o próprio Cristo. Estas leituras em nada forçam o texto bíblico, mas dão ao mesmo a oportunidade de se redizerem em outras perspectivas que não aquelas fundamentadas apenas pela palavra escrita, mas reditas na perspectiva do Espírito. Pois, teologicamente falando Cristo é a pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a pedra angular (Sl 117) sobre a qual a Igreja de Pedro é edificada.

            Em perspectiva lexical, Jesus diz que Pedro é pedra e sobre esta pedra, que supostamente é Pedro, ele edificará sua Igreja. Em perspectiva semântica, o contexto é de edificação, Pedro-Kefa, rocha sobre a qual se constrói a Igreja. Pode-se evidenciar que Pedro só se torna “rocha” porque percebe que Jesus é o Messias e o Filho de Deus. Evidencia que Pedro reconhece a verdadeira Pedra, que é Jesus e ganha a oportunidade de ser, a partir dele, a pedra relativa sobre a qual o próprio Jesus edificará sua Igreja. Em perspectiva teológica, Jesus é a pedra angular, a rocha principal da construção do Reino de Deus (Sl 117). Será sobre Jesus que Pedro edificará a sua Igreja, a Igreja de Jesus. Estas duas últimas perspectivas esvaziam o triunfalismo petrino. Evidentemente esvaziam também o triunfalismo da figura do papa, que não é a rocha sobre a qual a Igreja está edificada, mas sinal de comunhão e unidade dos fiéis cristãos. Re-significando a imagem de Pedro estamos re-significando a figura do papa, que sempre será sinal de unidade em torno de Cristo. Podemos então perceber Pedro como homem do serviço, pois ele edifica a Igreja de Cristo e isso vale para a pessoa do papa. É óbvio que esta perspectiva está também amparada na repreensão que Pedro sofrerá de Jesus, logo no versículo 23, onde Jesus dirá a ele: “Tu és para mim eskandalon”, que da tradução grega significa pedra de tropeço. Então, quem deveria ser pedra de edificação pode ser ao mesmo tempo pedra de tropeço?

            A Igreja, “ecclesia” em grego, e “qahal” em hebraico, é comunidade dos convocados, dos que foram convidados. Ela é sinal da vida de Cristo no mundo, de sua comunhão com os homens, da tenda (shequinah) no meio da humanidade. As portas do inferno não prevalecerão sobre ela, aludindo a imagem da cidade bem edificada. Significa que a morte e o aniquilamento não poderão derrubá-la, evidenciando seu caráter perpétuo entre os homens. no mundo. 

v. 19 “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus". Jesus confia a Pedro as chaves do Reino dos Céus. Ligar e desligar é forma rabínica de dizer declarar, com autoridade, proibido ou permitido. Este é o sentido em nível doutrinal. Pedro tem hegemonia na comunidade dos convocados. Ele é quem liga e desliga alguém da comunhão com a Igreja. O que desligar na terra será desligado no céu, e o que ligar na terra será ligado também no céu. Evidencia que Pedro antecipa no céu a comunhão dos que estão na terra e desliga do céu aqueles que são desligados na terra.

            Deste modo, ao celebrarmos os Apóstolos São Pedro e São Paulo, celebramos a Igreja gloriosa no céu e a peregrina na terra. Que a Igreja do Alto ajude-nos com sua intercessão e nos ensine o a viver o amor a Cristo e a nossos irmãos e irmãs.


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