sexta-feira, 1 de junho de 2012

Festa da Santíssima Trindade (Mt 28,16-20)

"Ide e fazei discípulos meus"



Ícone de André Rublev


Mt 28,16 Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. 17 Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram. 18 Então Jesus aproximou-se e falou: 'Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. 19 Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo'


            No Domingo em que celebramos a Festa da Santíssima Trindade, "a perfeita comunidade", somos chamados a perceber os vestígios de Deus Trino em nós. Para a vida, somos criados. Nossa vida nos lembra o Pai. Por nossa missão, de cristãos batizados, lembramo-nos do Filho, Aquele que nos envia ao mundo. Pela força espiritual, que habita em nós, lembramo-nos do Santo Espírito, que foi insuflado em nós desde a criação (Gn 2) e nos santifica no caminho do bem. Portanto, não seria demasiado profano dizer que é a vida da Trindade que habita em nós e, não mais audacioso seria dizer, que, por seu mistério inefável, somos nós quem habitamos no Deus Uno e Trino.
           Após a morte de Jesus, no contexto de sua Ressurreição e aparição aos discípulos, se dá o começo da ação missionária da primeira comunidade cristã, tudo tem como marco inicial a Galileia. A Galileia é lugar teológico da missão. Tanto no Evangelho de Mateus (28,16), quanto no Evangelho de Marcos (16,7) se diz que foi lá, na Galileia, que Jesus iniciou sua vida apostólica (Mc 1,14; Mt 2,23. 3,13). Desta maneira, a Galileia se torna lugar por excelência da ação messiânica de Jesus. 

            A Galileia, que em hebraico significa “iluminado”, era uma região grande ao norte de Israel. Duas cidades, muito conhecidas pelo leitor dos Evangelhos Sinópticos se destacam na região da Galiléia: Nazaré e Cafarnaum. A primeira, cidade em Jesus viveu, a segunda onde estava situada a casa de Simão, conhecido também como Pedro. Para o Quarto Evangelho, dois dos sete sinais (semeia) que Jesus realizou em todo o Evangelho (Jo 1-12) foram em Caná, da Galileia, onde ele transformou água em vinho (Jo 2,1,11) e curou o filho do funcionário real (Jo 4,46-54).

            De acordo com a narrativa mateana (Mt), os onze discípulos foram para a Galileia, isto é, saíram de Jerusalém (lugar onde Jesus foi assassinado) e foram para o lugar onde tudo tinha começado. Trata-se obviamente de um recomeço. Voltar aos lugares nos quais nossa vida teve sentido novo é renovar em nós o desejo pela própria vida. Desta maneira, o monte, que nessa narrativa (v. 16) não tem nome, significa lugar da teofania, da manifestação divina, do recomeço. Digno de nota é considerar que muitos eventos da vida de Jesus se dão num monte, num lugar elevado. Lembramo-nos aqui do monte onde Jesus proferiu as bem-aventuranças (Mt 5), onde se transfigurou na presença de seus discípulos (Mt 17,1-9). Destarte, os últimos instantes da vida pública de Jesus são vividos no monte das Oliveiras. Faz-se mister lembrar que as manifestações de Deus quase sempre ocorriam nos montes: Sinai, Horeb, Carmelo, Hermon, etc. Dada a realidade geográfica e espacial, o monte simboliza proximidade de Deus. No silêncio das montanhas, nos picos gelados, é possível “ouvir” a voz da nossa consciência e certamente a “voz” de Deus.

            O versículo 17 afirma que alguns, ao verem Jesus, prostraram-se diante dele. Outros, porém, duvidaram. A realidade do Ressuscitado é a realidade propriamente dita de Deus. Deus realizou na vida de Jesus algo surpreendente e novo. Ele é o primeiro a experimentar tal realidade, que um dia pela fé, nós também haveremos de vivenciar. Esse versículo abre um precedente para se pensar a divindade manifesta de Jesus nesta aparição no final do Primeiro Evangelho. Trata-se de professar ou não, em Jesus, a vida de Deus. Prostrar em adoração é certificar-se que o ser adorado é Deus e não um ídolo. Ajoelhar-se diante dos seres criados é idolatria. Nesse caso, evidentemente, alguns discípulos já haviam percebido que Jesus era verdadeiramente Deus. Outros, pela incompreensão, duvidavam.

            Jesus é autorizado pelo Pai a realizar a missão salvífica. Ele é provido de exousia,  em grego significa "poder autorizado" por Deus, desde que foi enviado ao mundo. Jesus tem autoridade no céu e sobre toda face da terra (v. 18). A ressurreição constitui Jesus o artífice autorizado da criação do novo mundo, iniciado na manhã do domingo pascal. Ele é plenipotenciário de Deus. Deus, o Pai, concede a Jesus, em sua Ressurreição, o poder divino. Obviamente, durante toda sua vida terrena Jesus deu provas de sua exousia, do poder autorizado pelo Pai. Quando curava os enfermos, perdoava os pecadores (Mt 9,6), expulsava os demônios (Mt 10,1), ensinava com autoridade (Mt 7,29) e restabelecia as mulheres ao convívio sadio na vida da comunidade, Jesus sinalizava que seus poderes eram extramundanos, isto é, provinham do Pai, na força do Espírito.

            Jesus agora envia os discípulos, por força de seu poder (v. 20), ao mundo (cf. Mc 16,15-18 e Lc 24,44-48) para que o mundo creia e o conheça de verdade. Para a narrativa de Mateus, trata-se de ir ao mundo todo: todos os povos, fazendo com que os homens se tornem discípulos de Cristo. Também a profecia bíblica já havia preanunciado a salvação de todos os homens: Is 2,2-4; 49,6; Jr 16,19-20. Estas profecias se cumprem agora por força do discipulado. Jesus quer que todos se tornem seus discípulos, conhecendo o amor de Deus, vivendo no mundo como irmãos e irmãs uns dos outros.

            Contudo a realidade do discipulado não se dá na individualidade da fé, mas na vida comunitária e eclesial. Isso é possível ser deduzido a partir dos verbos "batizar" e "ensinar" (v. 19-20). O batismo confere um caráter eminentemente comunitário. Pelo batismo, tornamo-nos filhos de Deus, no Filho Jesus. No batismo, o fiel é incorporado no Corpo de Cristo, a Igreja. Portanto, tornamo-nos, por esse sacramento, Templos do Espírito Santo. Enfim, no batismo, celebrado e vivido em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, participamos da vida Trinitária e nos tornamos também morada da Trindade.
           No v. 20, Jesus deseja, ainda, que seus discípulos sejam ensinados em tudo aquilo que ele ordenou, isto é, o amor, a fraternidade e o perdão. Ensinar pressupõe colegiado, vivência demorada. É preciso que todo cristão passe pela escola do mestre Jesus. Sua escola é versada no amor e na justiça. Os mestres, continuadores do ensinamento de Jesus, somos nós. Contudo só podemos ensinar com o exemplo, o testemunho. De nada valerá palavras sedutoras se nossa práxis não for exemplar.

            As palavras de Jesus descrevem a essência da Igreja. Ela não é somente lugar de santificados por um sacramento, mas também lugar de praticantes da nova obediência. Trata-se, com clareza, não apenas dos aspectos triunfalistas da fé cristã, mas do serviço que esta fé deve prestar ao mundo. Trata-se evidentemente da ética cristã que é diaconal, de serviço. Ser batizado é estar mergulhado no amor de Deus, pela morte de Cristo e sua Ressurreição, aprendendo o Evangelho, não como tabuada a ser decorada. O Evangelho deve ser antes vivido, isto é, praticado a partir das virtudes do direito e da justiça, sustentados pelo amor e a misericórdia.

            Por fim, Jesus promete à Igreja que sua presença é perene. Ele garante estar presente com seus discípulos, em todo tempo e lugar. Isso assegura-nos que o Senhor está presente, por seu Espírito, em nossa ação missionária. No entanto, a presença de Jesus se faz viva quando mantemo-nos fiéis ao Evangelho, à sua Boa Nova. Estar em consonância com o Evangelho é  ser fiel ao Cristo Palavra viva. Deste modo, com a presença de Jesus Ressuscitado, continuamos sua ação no mundo, amando os irmãos e servindo-os para que o mundo seja melhor e mais feliz. Que a presença de Jesus Ressuscitado nos fortaleça no caminho do amor e que o mundo creia que foi ele quem nos enviou, para a Glória de Deus Pai e a santificação, pelo Espírito, de toda a humanidade.


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