sábado, 12 de maio de 2012

VI DOMINGO PASCAL


“Só o amor é digno de fé”
(H. U. Von Balthasar)

Jo 15, 9 Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10 Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11 Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena. 12 Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 13 Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos 14 Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. 15 Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. 16 Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que então pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. 17 Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros.

           

            Depois da autoproclamação de Jesus como a “videira verdadeira” (Jo 15,1), inicia-se no Quarto Evangelho uma seção fundamentalmente narrativa. A narratividade do Quarto Evangelho é explícita e profícua a ponto de envolver o leitor na teia narrativa, na construção da figura do Jesus sábio que narra sua relação com o Pai, a fim de que os discípulos possam também conhecê-lo e amá-lo.


            A finalidade da narrativa consiste em revelar o que está velado. A narrativa conduz o leitor à dramaticidade cenográfica, à inter-relação dos sujeitos da cena, chamados de personagens, a ponto de que estes atinjam o clímax narrativo, ou seja, o leitmotiv, também conhecido como fio condutor da narrativa. No caso dessa narrativa, trata-se da temática fontal, o Amor, em João, conhecido como agapén.


            A partir do versículo 9, a imagem da vinha dá lugar à justificativa de sua existência. A vinha, simbolicamente narra a relação de Jesus com o Pai e seus discípulos. Essa relação se baseia na fonte de todas as relações: o amor. O Pai é a fonte do amor, o Filho é o amor personificado, os discípulos são os tocados por esse amor em pessoa. É, portanto, o amor do Pai que fundamenta o amor de Jesus, o Filho, pelos homens: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1b).


            O verbo grego menein, na narrativa de Jo 15,1-8, que se traduz por permanecer, é o mesmo na unidade narrativa de Jo 15,9-17. Trata-se de uma continuidade com a unidade anterior, sobre a videira e os ramos. Esse verbo evoca o sentido de que o amor só é vivido na permanência ao projeto de Jesus e sob a dínames do amor do Pai, na efusão do Espírito santificador.


            Jo 15,9: Jesus diz: “como o Pai me amou também eu vos amei”. A relação amorosa de Jesus com o Pai é paradigmática. Tal relação serve de baliza para o amor do Filho. Na intimidade do Pai, o Filho Jesus configura sua personalidade: ele ama o mundo e o a humanidade na dinâmica do amor paterno. É preciso, contudo que os discípulos, os interlocutores de Jesus, permaneçam nesta mesma relação amorosa. O amor não é apenas um sentimento nobre, é, antes de tudo, uma decisão, uma condição de possibilidade para a formatação da vida.


            Jo 15,10: Segundo Jesus, os mandamentos constituem o núcleo de onde emana a vontade de Deus. Guardar os mandamentos significa assumi-los para a vida. A vivência da vontade de Deus é condição para permanecer no seu amor. Deus se revela a seu povo como aquele que propõe a aliança. A aliança consiste em Lei, ordem, prescrição, mas, acima de tudo, na instrução para a vida do discípulo. Valer-se do mandamento, em sua vivência e ressonância na vida, significa conciliar à vontade de Jesus: permanecer no Pai e em seu amor.


            Jo 15,11. A alegria é fruto espiritual da vida em Deus. Trata-se da finalidade da vivencia da fé em Jesus e naquilo que ele propõe. Esse versículo parece interromper a sequência sobre a temática do amor e da permanência em Deus. No entanto, a alegria do Filho Jesus consiste em assumir a vontade do Pai, expressando-a na vida, comunicando-a. A alegria se vincula à salvação, para a Teologia do Antigo Testamento. Para João, alegrar-se é assimilar a obediência do Filho, tornando-se obediente como ele, na vivência do amor do Pai. Para atingir a plenitude é fundamental a alegria, ela inspira nossa vida na dinâmica do amor de Deus em sua totalidade.


            Jo 15,12. No versículo 12 encontramos o clímax dessa unidade narrativa. Jesus lembra: “Este é o meu mandamento: que vos amei uns aos outros, assim como eu vos amei”. Ele condensa todos os mandamentos em um apenas: o amor. Mas trata-se do amor ao próximo, o amor ao outro. Ao outro que tem rosto, que é pobre, fraco, indigente, forte, fiel e justo. Trata-se do amor verdadeiro, do amor aos moldes do amor de Jesus. Evidencia-se um ato condicional. Dependemos da experiência do amor de Jesus por nós para, verdadeiramente, experimentarmos o amor ao próximo, desinteressadamente. É o amor agápico, doação, oblativo. Os versículos 13 e 14  evocam o verdadeiro autor desse amor oblação: o próprio Jesus de Nazaré. Ele deve motivar nossa fidelidade ao mandamento do amor fraterno. Jesus se torna o motivador ao amor, pois ele mesmo oferece sua vida na cruz. Só o amor justifica o ato da cruz de Jesus. Na cruz se revela o amor extremado de Jesus. Por amor, ele se oferece no altar da cruz, tal como aquele pão e aquele vinho, os quais ele mesmo ofereceu aos seus discípulos na ceia da quinta-feira, antes da Páscoa.


            Jo 15,15. Jesus nos chama de amigos. O termo grego é fíloi. Se os discípulos agem conforme Jesus eles o amam e acreditam nele. Não são servos, mas irmãos, pois, executam com perfeição e harmonia a mesma ação de Jesus, proveniente relação filial ao mesmo pai, o Pai de Jesus, nosso Deus. Ser amigo de Jesus é assumir seu projeto, permanecer próximo dele. Ser amigo é amar profundamente aquele que nos inspira e encoraja no caminho do bem. Ser amigo de Jesus é alegrar-se com o fato de ser dele um discípulo, na vivência das lições do mestre, que se faz, antes de tudo, nosso irmão.


            Jo 15,16. Surge diante do leitor o tema da eleição. Jesus é quem nos escolhe. Lembra-se aqui a eleição que Deus fazia a seu povo. O livro do Deuteronômio, 7,7-8, nos diz que Deus se afeiçoou e escolheu a seu povo, não por ele ser mais numeroso, pelo contrário ele era o menor. Deus assim o fez por causa de seu amor. Evidentemente Jesus ama seus discípulos. Ele convida o discípulo. O discípulo apenas assume a missão do mestre. O discípulo se admira pelo mestre, busca segui-lo e imitá-lo. Para Jesus, seus discípulos precisam ir, como apóstolos, ao mundo e produzir fruto. Lembramo-nos aqui da videira, dos ramos, dos frutos que os ramos produzem. O fruto precisa também permanecer, não pode ser escasso, nem sequer raro, mas permanente, sempre profícuo. É, contudo, em nome de Jesus que o discípulo pode gerar fruto. Destarte, em nome de Jesus, tudo o que o discípulo pedir lhe será concedido.


            Jo 15,17. A unidade narrativa, que tem como epicentro a palavra amor e como verbo, permanecer, conclui-se com a seguinte admoestação: “Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”. Este recurso literário de recapitulação, finaliza a narrativa com o que lhe é essencial: o Mandamento do Amor. Evoca, como aspecto jurídico, sob o ponto de vista da ordem, o que é fundamental: a vivência do amor. Parafraseando o teólogo Hans Urs Von Balthasar, digo: “Só o amor é digno de fé” na e para vida do discípulo.


           



Nenhum comentário:

Postar um comentário