sexta-feira, 4 de maio de 2012

V DOMINGO PASCAL


“Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30)

Jo 15, 1'Eu sou a videira, a verdadeira, e meu Pai é o lavrador. 2 Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda. 3 Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei. 4 Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim. 5 Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permaneceu em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. 6 Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados. 7 Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedí o que quiserdes e vós será dado. 8 Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.

           

            O capítulo 15 do Quarto Evangelho apresenta mais uma autoproclamação de Jesus: “Eu sou a videira, a verdadeira”. Esta autocompreensão de Jesus como videira, espécie simbólica de Israel, é acrescida do adjetivo “verdadeira”, do grego joanino, “hé aletyné”. Não se trata de uma videira apenas, mas da verdadeira videira, a qualificada pelo Pai, o lavrador, o vinhateiro.

            Este relato (Jo 15,1-8) está inserido no quadro que podemos chamar do “adeus” de Jesus, iniciado em 13,33, e da identidade do discipulado no Evangelho joanino, que se estende até 16,4. Esse cenário apresenta o modelo de discípulo que deve permanecer unido ao Mestre, como os ramos estão “aderidos” à videira. Essa metáfora, da videira, elucida bem o caráter da união dos discípulos ao Mestre Jesus.

            Evidentemente, tal metáfora, como todas as demais utilizadas por João em sua narrativa, supõe um limite, mas também uma imagem nova de Jesus, a verdadeira vinha de Israel, aquela que produz frutos, e seus frutos permanecem. O limite, supostamente, está em reduzir a mensagem de Jesus ao povo de Israel, pois a videira é uma espécie muito importante para a tradição simbólica da Palestina. Pensando bem, se transposta à realidade Ocidental poderíamos pensar em outra espécie de árvore frutífera ou hortaliça importante à nossa mesa.

            Israel é conhecida como a Vinha do Senhor (cf. Jr 2,21; Ez 15,1-8; Sl 79,80; Is 5,1-7). Uma videira plantada e preparada para dar frutos no tempo certo. O clássico Sl 79, 9, meditado nos cânticos da Paixão do Senhor na 6ª Santa, diz: “Arrancastes do Egito esta videira e expulsastes as nações para plantá-la”.  Não obstante sua natureza, constituída para gerar vida, Israel se deixou corromper pelo pecado, tanto na adoração aos ídolos, quanto na não vivencia da justiça e do direito, dos preceitos divinos. Israel foi esterilizando-se em sua dinâmica de gerar frutos. De videira fecunda à estéril, como nos diz os Evangelhos Sinópticos a respeito da figueira estéril a beira do caminho (Mt 21,18-19; Mc 11,12-14.20-21).

            Jesus inicia o capítulo 15 dizendo ser a vinha do Pai (vv. 1-2). Do v. 3 ao 17 se percebem duas unidades. A primeira 15,3-8, o relato deste domingo. A segunda subseção vai do v.9 ao 17, no qual se refere ao amor como objeto da revelação. A imagem da vinha, sem muitos rodeios, se trata do fato único: produzir frutos. O discípulo que está vinculado a Jesus e deixa sua vida ser assimilada por Ele, gerará frutos, isso é uma questão sine qua non, ou seja, consequencial.

            Retomando a simbólica da videira, pode-se dizer que a Vinha, juntamente com a figueira e a oliveira, constitui a vegetação da Palestina (cf. 1Rs 5,5; Ag 2,19; Mq 4,4; Zc 3,10). Uma vinha plantada por Noé, a nova humanidade é salva do dilúvio (Gn 9,20). A vinha pode designar, no Cântico dos Cânticos, uma esposa fecunda (cf. Ct 1,14; 2,15. 6,11). Assim, a imagem da vinha constitui-se no AT o povo de Deus. Do mesmo modo, Jesus anuncia uma parábola sobre a vinha e os vinhateiros homicidas e seus interlocutores assimilam naturalmente o que ele intencionava dizer (cf. Mt 21,33-43 paralelo cf. Mt 20,1-16).

            Para João, em sua teologia e mensagem, agora Jesus é a vinha. Esta operação é inaudita, ninguém nunca foi comparado a uma vinha, a não ser o povo. O Pai é o vinhateiro, ou melhor, o agricultor, aquele que cuida da vinha, dispensando seu amor e dedicação. Há também um terceiro elemento: os ramos. Esta imagem nos faz lembrar a do Bom Pastor (Jo 10,1-5). Jesus é o pastor, o Pai, supostamente o dono do aprisco e as ovelhas são os que ouvem a voz do pastor, isto é, seus discípulos.

            O que, objetivamente, o evangelista quer dizer? Qual a relação entre Jesus e a vinha antiga, o Povo de Deus? Por que os que permanecem nele geram frutos? Tais questões são indispensáveis para pensar esta narrativa de Jesus.

            O profetismo bíblico de Israel, em especial o mais antigo dos profetas, Oseias (10,1), pode nos fornecer um bom indício. “Israel é vinha florescente que produz muitos frutos”. Mas a vinha só pode gerar frutos se estiver plantada em terra fértil. A terra fértil da vinha de Israel é Deus. Assim, João entende a relação íntima de Jesus com o Pai. Jesus é a vinha que está plantada no seio do Pai. Do Pai ele veio (Jo 1,1) e ao Pai ele retorna (Jo 1,18). Jesus é agora o novo povo de Israel e aqueles que permanecem nele são também o novo Povo de Deus.

            A plantação do Senhor, nos diz Isaías (61,3), é destinada a dar frutos abundantes. A vinha é chamada a manifestar a glória de Deus (em grego eix dóxan). Consequentemente, os ramos que estão enxertados em Cristo, o Filho, devem também gerar frutos. Assim, os ramos cumprem sua missão e destino. Se derem frutos permanecerão e, os que estão limpos, ou seja, purificados com a seiva do amor de Deus, estes gerarão mais frutos ainda. Uma metáfora belíssima que nos diz de nossa adesão a Jesus Cristo e a seu projeto de Salvação. Em linguagem popular “filho de peixe, peixinho é”.

            Portanto, Deus quer a vida. Sua mensagem é impositiva “Frutificai, multiplicai-vos” diz o Criador (Gn 1,22.28). A fecundidade do solo é sinal da benção de Deus, portanto, a fecundidade dos cristãos é sinal da graça de Cristo, dom perene, que habita em nós.

            Embora, muitas vezes nossa conduta pareça decepcionar a Deus, por conta de nossos pecados, somos chamados a dar frutos. Fomos criados à sua imagem e segundo sua semelhança (Gn 1,27), portanto, estamos destinados à vida plena, em comunhão e participação. Em Cristo, nosso irmão, somos portadores da vida eterna, destinados à gloria de Deus, à vida Santa.

            Assim, gerar frutos é o leitmotiv (motivo principal) e a finalidade essencial de nossas vidas permanentes em Cristo. Nossos frutos revelam a glória de Deus, a glória do “vinhateiro”, assim como o Filho Jesus procurou em toda sua vida glorificar a seu Pai, inclusive na morte de cruz, somos também chamados à vida de Deus. Jesus é a vinha verdadeira, única e inigualável. Sua missão está subordinada ao amor do Pai.

            Há, por fim, no texto de Jo 15,1 um sentido indispensável: Jesus é a vinha verdadeira que se faz permanecer em íntima relação com o agricultor, o Pai. Sem o Pai o Filho nada pode fazer. Sem o Filho o Pai não glorificaria o mundo. Aí está a ousadia do Evangelho joanino: dizer que o Filho está face-a-face com o Pai, unido em seu seio, e, da boca de Jesus se afirmar “Eu e o Pai somos um” Jo 10,30. Ao permanecer no Pai, Jesus nos chama à permanecermos nele e, assim, permanecermos em Deus. Desse modo, não há mais nenhum mediador senão Jesus Cristo, a Vinha fecunda do Pai. Nós, os ramos aderidos a Cristo, ao gerarmos frutos no mundo, estamos gerando a própria glória de Deus, seu amor e sua misericórdia.


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