sexta-feira, 18 de maio de 2012

Ascensão do Senhor


“O Senhor foi levado ao céu” (Mc 16,19)

Mc 16, 14  Jesus se manifestou aos onze discípulos, 15 e disse-lhes: 'Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! 16 Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. 17 Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; 18 se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados'. 19 Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus. 20 Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam.


             O tempo Pascal está chegando à sua plenitude. A VII semana Pascal, tem seu início com a festa da Ascensão de Jesus ao céu e se encerra em Pentecostes, celebração na qual se recorda a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos, manifestação que se atualiza sobre nós cristãos na bela oração de epiclese: “Vinde Espírito Santo!”

            O relato final do Evangelho de Marcos (Mc 16,14-20) trata-se de um epílogo não canônico, isto é, considera-se, pelos estudos bíblicos modernos que este relato, que tem seu início em Mc 16,9, tenha sido introduzido tardiamente, não pertencendo ao relato total do Evangelho marcano. Portanto, o conjunto literário de Mc 16,9-20 é um apêndice posterior deuterocanônico, ao corpo da obra de Marcos. Tal relato refere-se às aparições do Ressuscitado. Rudolf Pesch, como a maioria dos exegetas atuais, afirma que o fim do Evangelho de Marcos, posterior a 16,8, deve ser considerado secundário (apêndice).  A forma originária da tradição textual é finalizada em 16,8[1].

            Contudo, não levando a consideração exegética à instância normativa para a explicação deste relato, o tomamos como aparato para explicar os últimos acontecimentos da vida terrena de Jesus. É pertinente que a exegese bíblica nos afira que este relato seja tardio, no entanto, a Igreja o toma na liturgia como uma forma de explicar, a partir de sua proclamação, a Ascensão de Jesus aos céus.

            Mc 16,14: nesse versículo o autor afirma que Jesus apareceu aos onze discípulos. Este relato está em consonância com os relatos da aparição de Jesus, principalmente os mencionados no Quarto Evangelho. Porém, sendo Marcos o primeiro relato evangélico escrito percebe-se uma narrativa mais concisa e clara. Em Lc 24,36-42 há uma cena que pode evocar essa narrada pelo Evangelho marcano. O v. 14 afirma que os onze estavam recostados à mesa e quando Jesus apareceu os repreendeu da incredulidade e da dureza de seus corações. Eles não tinham ainda acreditado que Jesus havia ressuscitado de entre os mortos.

            16,15: Jesus voltando-se para os onze lhes diz: “ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura”. Era preciso que eles se descerrassem do marasmo e do medo que os invadiam e pudessem anunciar ao mundo o Evangelho. O imperativo “ide” é enfático. É fundamental que eles proclamem que Jesus ressuscitou. Pois, sobre Jesus o jovem diácono havia dito às mulheres que ele os precederia à Galileia (Mc 16,7). Agora é preciso ir ao mundo inteiro, a todas as criaturas e a toda humanidade anunciar a Boa Nova do Ressuscitado.  

            16,16: nesse versículo encontramos uma explicitação do sacramento do Batismo. Ele é porta para a salvação. Crer e ser batizado eram pressupostos para aderir-se a Jesus. Crer e ser batizado correspondem à escuta da Palavra e à prática da profecia, do sacerdócio e da realeza de Cristo. Não crer e nem ser batizado são formas de se abdicar à salvação. É deixar passar a oportunidade de ouvir a Cristo, o Ressuscitado na comunidade e acolhê-lo na vida.

            16,17-18: Estes dois versículos falam dos sinais que acompanharão os que crerem em Jesus. Tais sinais se realizam em “nome de Jesus”. É ele, presente na vida da comunidade, quem continua a realizar curas, milagres, exorcismos e toda libertação necessária para a vida plena da humanidade. Em outras palavras, Jesus Ressuscitado continua agora vivo e presente na comunidade cristã, manifestando seu poder salvífico por meio da ação libertadora e santa da Igreja.

            16,19: Este versículo afirma que Jesus Ressuscitado, o Senhor, em grego Kyrios, depois de ter falado com os discípulos foi elevado ao céu. Trata-se da imagem da Ascensão de Jesus. Aquele que estava junto de Deus e que veio a este mundo retorna agora para o Pai, que está no céu. Recordando a glória da ascensão de Elias em 2 Rs 2,11, Jesus se eleva ao céu. O Sl 110,1 lembra a glória daquele que está sentado à destra de Deus: “Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-te à minha mão direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés”. Destarte, no Símbolo dos Apóstolos todo cristão professa: “Está sentado a direita de Deus Pai, Todo Poderoso”. O título Kyrios, na expressão “Senhor Jesus”, era atribuído a Jesus Cristo por toda a Igreja Primitiva. Tal título era uma confissão da divindade de Jesus, muito presente no Corpus Paulinum (cartas de Paulo). Outro relato mais detalhado sobre a Ascensão de Jesus pode ser encontrado no Evangelho de Lucas 24,50-51.

            16,20: O versículo final do Evangelho de Marcos confirma a ação missionária dos discípulos de Jesus. Era o Senhor Jesus quem os ajudava. Pela assistência do Espírito do Ressuscitado, manifesto em Pentecostes, Jesus continuava agindo na comunidade, na Igreja e no mundo. Jesus confirmava pelos sinais sua palavra. A Palavra do Ressuscitado é seu Evangelho, a Boa Nova da salvação, para um mundo mais humano e mais de Deus.

            Por fim, em chave teológica, o relato da Ascensão de Jesus ao céu pode ser compreendido como a elevação de nossa humanidade, com Jesus, ao seio de Deus. Deus acolhe seu Filho da mesma forma que o enviou ao mundo, pela ação do amor. É por amor que o Pai acolhe seu Filho. Em seu Filho, o Senhor Jesus, Deus Pai, acolhe toda a humanidade que deseja e espera a salvação. Jesus irrompe no horizonte da fé a via de possibilidade da salvação que todos nós esperamos no último dia. Assim compreendemos a expressão do Apóstolo dos Gentios que diz: “pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3,3). Com Cristo, nossa vida está nos braços de Deus. À esta vida Cristo nos destinou. Portanto, em sua Ascensão, ele apenas antecipa para si, por desejo do Pai, aquilo que todos nós somos chamados a viver: o amor e a perfeita comunhão.



[1] Cf. PESCH, p. 94. Para um estudo crítico, aprofundado sobre o final (ou os finais) do Evangelho de Marcos,  cf. METZGER, A textual commentary on the Greek New Testament. 2. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1994. p. 102-106. Os doze últimos versículos não estão presentes nos dois mais antigos códices, B e א e no Antigo Latino manuscrito k, o Sinaítico Siríaco. Mc 16,9-20 falta também em muitos manuscritos da versão Antiga Armênia, os manuscritos Adysh e Opiza, nos manuscritos da versão Antiga Geórgia, e nos manuscritos da versão Etiópica. Cf. METZGER, B. M. The text of the New Testament. Its transmission, corruption, and restoration. 2. ed. Oxford: Clarendon, 1979. p. 226. Segundo Gnilka, 16, 1-8 + a chamada conclusão breve 9-20 pode ser encontrada em 0112, 099, L, Y, 579, 274mg I, 1602 (cf. GNILKA, El evangelio p. 411).

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