sexta-feira, 27 de abril de 2012

IV Domingo Pascal

         


“Ninguém tira a minha vida,

eu a dou por mim mesmo” (Jo 10,18a)




Jo 10, 11 Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. 12 O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas. 14 Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, 15 assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas. 16 Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. 17 É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. 18 Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi do meu Pai'.


          
             O Quarto Evangelho atribui a Jesus muitos títulos. Ele é um profeta (Jo 4,19.44;9,17), o profeta (Moisés 6,14;7,40), o Salvador (4,42), o Unigênito (1,14.18;3,16.18), o Messias ou Cristo[1] (1,17.20.25.41;), Senhor e  Deus (20,28). Um destes títulos está também posto na boca do Jesus joanino, trata-se do título “Cristo” (4,25-26). Dois outros títulos postos no discurso do Jesus joanino são: Filho do Homem (1,51; 3,13. 14; 5,27...) e Filho (de Deus: 3,18; 5,25; 10,35; 11,4).
            Há, também, na narrativa joanina algumas autoproclamações de Jesus. O Jesus joanino toma sete vezes a palavra para se autoanunciar. A saber, em: 6,35: Eu sou o pão da vida; 8,12: Eu sou a luz do mundo; 10,7: Eu sou a porta; 10,11.14: Eu sou o bom pastor; 11,25: Eu sou a ressurreição e a vida; 14,6: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; e 15,1: Eu sou a videira verdadeira. Portanto esta riqueza de títulos e autoproclamações cristológicas (de Jesus Cristo) demonstram, claramente, a riqueza semântico-lexical (palavras e expressões) do Evangelho joanino, bem como, provavelmente, as várias tradições a qual João se referia ao tratar sobre Jesus de Nazaré.
            A narrativa desse domingo Pascal (Jo 10,11-18) é mais uma das autoproclamações reveladores de Jesus, a partir da expressão EU SOU. Trata-se do título adjetivado “Bom Pastor”, em grego de João: poimén kalós. Este título segue-se ao título de autoproclamação “Eu sou a porta das ovelhas” Jo 10,7, uma imagem espacial no quadro simbólico do pastoreio. Evidentemente em todo redil das ovelhas havia uma porta, as ovelhas e o pastor que as conduzia para dentro e as levava para fora.
            O versículo 11 é notavelmente interessante, pois Jesus se autoanuncia, em 1ª pessoa, “Eu sou o bom pastor” (10,11) e, logo em 3ª pessoa diz, “O bom pastor dá sua vida pelas suas ovelhas”. Esta forma de narrar não é sem sentido, pois serve de conexão com o que vem a seguir, em contraponto com o mercenário, ladrão que vem apenas para roubar e espoliar as ovelhas (vv.12-13). A identificação Bom Pastor é repetida em Jo 10,14. Para a arte narrativa isso é salutar, pois repetição nem sempre é imprudência, mas desejo de ressaltar o léxico, isto é, a palavra.
             Na narrativa pode ser vista a sintonia dos versículos 11 a 16. Já o versículo 17 inicia um novo e pequeno discurso, no qual Jesus se refere ao Pai. Ele diz: “é por isso que o Pai me ama, porque dou minha vida, para depois recebê-la novamente”. Não se trata mais das ovelhas, mas da vida de Jesus, que é o bom pastor, que não apenas cuida bem das ovelhas, mas entrega sua vida por elas. Jesus, no v. 18, diz que sua vida não é tirada, todavia é entrega generosa e solicitamente. A morte salvífica de Jesus é mencionada tradicionalmente no NT através da expressão “dar [a vida] por”. Isso conduz nossa memória aos textos de Mc 10,45, onde se diz: “O Filho do Homem veio para dar a sua vida em redenção da multidão”, e Lc 22,19, que afirma “Isto é meu corpo que é dado por vós”.
            Jesus diz no v. 15 que entrega sua vida pelas ovelhas. O verbo utilizado por João é o títhemi. Alguns autores traduzem por “dar”, outros por “oferecer” (é o caso do Pe. Lagrange, grande perito no Evangelho de João), outros ainda traduzem por “entrega”, “depor”, ou “despojar-se” por suas ovelhas. Um exame minucioso aponta-nos para a afirmação que este verbo se torna chave de interpretação para a narrativa em questão, pois há nele várias facetas. Em grego, a expressão títhemi tem psykén, de acordo com Léon-Dufour, não significa “dar a vida” no sentido de entregar-se à morte; significa “arriscar” ou “expor” a vida frente a um perigo que ameaça a outrem. Trataria-se ao pé-da-letra a “pôr a vida na palma da sua mão”, assim, “o pequeno pastor Davi põe a vida em jogo para defender as ovelhas de seu pai Jessé” (cf. ISm 17,34; 19,5, 28,21. Cf. Jz 12,3; Sl 119,109). Davi não se entrega à morte, pois se ele se sucumbisse o rebanho todo estaria à mercê da vontade do leão ou do lobo voraz; antes, ele se expõe, aguerridamente, porque é responsável pelas ovelhas. Davi é guardião das ovelhas. Essa leitura é propícia para o v. 11, que define o bom pastor como tal, como o confirma a descrição, em contraposição com o mercenário que foge diante do perigo eminente do lobo.
            Desta maneira, Jesus é o bom pastor porque arrisca sua vida pelas ovelhas, porque guarda suas ovelhas do perigo do mal. Concomitantemente a esta atitude de Jesus há também sua liberdade de se entregar, v. 17 e 18, significando sua morte efetiva, pelo fato de ela opor-se a “retomar a vida” (para isso acontecer é preciso abandonar-se). Jesus diz: “Ninguém a tira de mim, mas eu a deposito livremente” (v. 17). Jesus vislumbra o ato de sua morte, visto em horizonte de ressurreição.
            Portanto, a tradução “despojar-se de sua vida” é a mais contundente no sentido do grego de João e na ação de Jesus. O v. 15, que está no centro desta narrativa, lembra muito a atitude do bom pastor Davi, que serve de paradigma para Jesus. Ele, o Filho, arrisca-se à morte pelas ovelhas do seu Pai. Ele fará isso até o fim, inclusive na cruz. O Pai foi quem deus as ovelhas a Jesus (10,29). Davi, figura messiânica, ilumina a ação do Messias Jesus. Jesus despoja-se “em favor de” suas ovelhas, esta preposição, em grego hiper, se traduz “por suas ovelhas” (v. 15). Ela não se traduz “no lugar de”, mas “em favor de”, dando a pensar não em substituição, mas em favorecimento a alguém.
            Jesus apresenta-se nessa narrativa joanina como o Pastor. “Eu Sou”, em grego egó eimi.  Ele não se autointitula como verdadeiro, como faz com a videira, o pão e  a luz, mas como “belo” (em grego Kalós), isto é, bom. Kalós, no grego do NT, designa a qualidade de uma coisa ou de uma pessoa, correspondendo à sua função (Mt 13,8: terra boa; Mt 7,17 “árvore boa”; Jo 2,10 “vinho bom”). Portanto, Jesus é o belo e bom Pastor que leva a termo sua missão, não apenas protegendo suas ovelhas, mas despojando sua vida em prol e por causa delas.
            Jesus tem, ainda, em seu redil outras ovelhas que não são pertencentes naturalmente a ele (que não são israelitas, v. 16), mas ele veio para elas também, a fim de que escutem sua voz (intimidade), para que exista um só rebanho e um só pastor. Este versículo demonstra a preocupação da comunidade de João com a unidade. Embora este versículo sugira uma dimensão escatológica, do fim dos tempos, pois os verbos estão no futuro, “escutarão” e “haverá”. O rebanho não cessará de crescer até o dia em que não houver mais noite (Ap 22,5), então aquele que “está no meio do trono os apascentará, conduzindo-os às fontes da vida” (Ap 7,17).
            Por fim, Jesus é o bom pastor que cuida, protege e ampara suas ovelhas a ponto de consumar sua vida por elas, despojando-se de si (mistério kenótico da vida de Jesus). Ele deposita nas mãos do Pai sua vida em prol, isto é, em favor de suas ovelhas que somos todos nós, homens e mulheres de todos os tempos e lugares. Jesus é diferente do mercenário, ele não deixa que o lobo (símbolo da astúcia e do mal) liquide a fé e a vida de suas ovelhas, mas, antes, defende-as do maligno, da perversão e do pecado. Jesus leva as ultimas consequências este ato de cuidar das ovelhas, a ponto de doar sua vida, entregando-a aos esquemas perversos da humanidade, mas não se deixa corromper por eles. Jesus entrega-se, doa-se, despoja-se autonomamente, em plena confiança ao Pai que devolverá a vida verdadeira (de vivente) a ele, seu Filho. Jesus é o verdadeiro e único pastor do rebanho que somos todos nós, o mundo. Não há outro pastor com a mesma primazia e excelência que Jesus, mas se este (es) existe (em), ministerialmente falando, é para que se configure (em) ao bom-belo pastor que é Jesus, e não seja (am) como os mercenários que roubam, espoliam e violentam as ovelhas.

[1] O título Cristo – Messias aparece ainda nos versículos: 3,28;4,25.297,26.27.31.41.41b.42;9,22;10,24;11,27;12,34;17,3;20,31




           

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