sexta-feira, 23 de março de 2012

V Domingo Quaresmal

O Crucificado nos conduz a Deus


Jo 12, 20 Havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém, para adorar durante a festa. 21 Aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e disseram: 'Senhor, gostaríamos de ver Jesus.' 22 Filipe combinou com André, e os dois foram falar com Jesus. 23 Jesus respondeu-lhes: 'Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado. 24 Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. 25 Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. 26 Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. 27 Agora sinto-me angustiado. E que direi? `Pai, livra-me desta hora!'? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. 28 Pai, glorifica o teu nome!' Então, veio uma voz do céu: 'Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo!' 29 A multidão que lá estava e ouviu, dizia que tinha sido um trovão. Outros afirmavam: 'Foi um anjo que falou com ele.' 30 Jesus respondeu e disse: 'Esta voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por causa de vós. 31 É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, 32 e eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim.' 33 Jesus falava assim para indicar de que morte iria morrer.

            O relato evangélico desse quinto domingo quaresmal está localizado no capítulo 12 do Quarto Evangelho (Jo). O capítulo 12, por sua vez, consiste no último capítulo do Livro dos Sinais (que Jesus realiza) e, segundo Bruno Maggioni, trata-se de uma antecipação do livro da Paixão[1]. O capítulo em questão contém substancialmente dois relatos – a unção em Betânia, a casa dos pobres (vv. 1-11) e a entrada aclamada de Jesus em Jerusalém (vv. 12-19), um discurso desenvolvido de forma dialética (vv. 20-36) que tem como assunto o significado da morte de Jesus, evocando o evento da crucificação. Esse capítulo se finda com uma avaliação conclusiva (vv. 37-43) e uma exortação sobre a fé, a luz, e o testemunho do Pai. (vv. 44-50)[2]. O fio condutor do capítulo 12 de João é, sem dúvida, a vida que provém da morte, a glória que reluz da cruz do Filho de Deus.

         A narrativa (Jo 12,20-33) introduz em cena personagens helênicos, isto é, os gregos. Com isso, João alude à universalização da figura de Jesus e o sentido teológico de sua morte. Jesus é procurado por gentios simpatizantes do judaísmo. João dá a entender que a mensagem de Jesus não se restringia à Galileia ou à Judeia, mas se estendia a outras pessoas, portanto, a força de sua Ressurreição atinge a vida toda do mundo.

         Os gregos queriam ver Jesus, por isso recorrem a Filipe de Betsaida da Galileia que interceda o encontro com Jesus. Filipe, de origem galilaica, vai a André, que em grego significa “homem valente”, e ambos dizem a Jesus que aqueles homens querem vê-lo. O verbo "ver", em grego hídein, significa “desvelar”, “descortinar”, “ver além das aparências”. Para João, o verbo "ver" tem sentido de crer, da fé que vem pelos olhos, fruto da contemplação.

         Jesus, por sua parte, diz que sua hora já chegou. A hora de Jesus corresponde a sua glorificação, isto é, o fruto de sua morte v. 23 b. Os interlocutores de Jesus são convidados a considerar o mistério da cruz. A cruz é condição "sine qua non" para a revelação e ao mesmo tempo é objeto a ser compreendido como lugar da obediência do Filho Jesus ao Pai. Tal obediência é pensada a partir do despojamento de si, na autêntica entrega. A cruz é também altar no qual Jesus sacrifica a si próprio na perspectiva do amor oblativo e solidário, em conformidade com os sofrimentos do mundo. A cruz é re-significada em presença salvífica, sacramento de solidariedade divina à miséria humana.

         A hora de Jesus é uma temática relevante para a teologia joanina. Em Caná, a hora de Jesus não havia sido consolidada, afirma ele à mãe (2,4). Na festa dos Tabernáculos, Jesus reitera que sua hora ainda não havia chegado (7,6.8. 30; 8,20). Em contrapartida, em Jo 12, a perspectiva muda: sua hora chegou v. 23. Chegou o momento no qual a cruz desvelará o Vivente, que agora conduzirá a vida o mundo, narrando sua história de Filho fiel e Deus como Deus, Luz da Luz, Vida daquele que Vive eternamente.

         Liturgica e solenemente Jeus diz, Amén Amén légo, traduzido por “em verdade em verdade digo”, introduzindo o elemento metafórico do grão de semente (de trigo). Para a teologia dos Sinópticos (Mc, Mt e Lc), a semente corresponde à Palavra ou ao Reino de Deus. Para João, exclusivamente, o grão de semente (de trigo) é o próprio Jesus.  Se o grão de trigo não morrer permanece (em grego ménei). Permanecer é reter, ficar preso a uma realidade. João utiliza este verbo para falar da videira e dos ramos, nos quais estes devem permanecer agarrados aquela. Para o Quarto Evangelho, o Filho do Homem é como a semente que se não cair na terra e não morrer, não germinará frutos. Os frutos se chamam ressurreição e vida plena. A glorificação é o fruto por excelência daquela morte nefasta, porém irrenunciável. Para João, tudo é antecipado na morte de Jesus. Na cruz se culminará (já) a vida do Vivente, o Ressuscitado. Portanto, se desejamos viver com Jesus a Ressurreição é indispensável o caminho da cruz. Para isso, o v. 25 evocará a perspectiva do seguimento, tratando de dizer que o caminho do discipulado é o caminho da cruz, sob os prismas da doação e da solidariedade.

         O aniquilamento é a fonte da glória, v. 27. A alma de Jesus se dilacera em luta interna. Ele, não obstante ao sofrimento, aceita a cruz e pede para não ser livrado dela.  Essa é a hora para a qual sua vida está orientada desde a pré-existência do Lógos. Portanto, pode-se dizer que sua vida é também pró-existente, isto é, pró-vida, em prol da vida do mundo. Deste modo, afirmamos que o horizonte da vida de Jesus encontra o fim relativo no Gólgota e o fim absoluto na entrega aos braços do Pai, na inaudita e esperada experiência da Ressurreição, certeza-fé da vida sobre a morte, certeza da vitória da vida sobre os mecanismos que desejavam aniquilá-la. A cruz é, ainda, sacramento da humilhação, da sabedoria e da exaltação, lugar por primazia da doação, do amor oblativo de Deus, de sua simpatia para com a humanidade, do solidarizar-se conosco em nossa indigência e dor. Deus amou tanto o mundo que doou seu Filho para que todos tenham vida (cf. Jo 3,17).

         Na perspectiva do diálogo com o Pai, Jesus ouve do céu uma voz (v. 27). Essa voz não se dirige apenas a Jesus, mas também àqueles que duvidavam de sua messianidade (v.30). Da teofania, ou seja da manifestação divina, uma certeza se precipita: “Eu o glorificarei e o glorificarei de novo” (v. 28b). O desejo do Pai é senão outro que a vida de seu Filho. Diríamos que a felicidade do Pai é a realização do Filho. Para que o Pai cumpra sua missão é preciso que o Filho esteja são e salvo. Os pais terrenos são também assim. Seus sonhos são prolongados nas ações de seus filhos, seus patrimônios mais nobres são as lições de respeito e generosidade deixadas como legado de amor. O Pai de Jesus deseja o louvor e a exaltação de seu Filho. A glória do Filho de Deus é a própria glória de Deus.

         A incredulidade e a fé são balizas perceptíveis nesse relato de teofania. Alguns dizem que aquela voz era um trovão, outros afirmam que era um anjo falando, porém Jesus afirma que o próprio Deus se dirige a ele e aos seus demais interlocutores (vv. 29-30).

         Enfim, o versículo 31 introduz o tema do juízo do mundo. A hora do mundo chega a seu limiar. O chefe, aquele que dá as cartas segundo sua vontade, será extirpado. O maligno que regia com sua batuta o descompasso da história humana será extinto pela hegemonia da cruz, da glorificação de Deus em Jesus. A desmesura do amor de Deus no Filho levantado na cruz é lugar de possibilidade para o fim do mal humano. O Filho de Deus tem o dom de atrair todos para si, conduzindo-nos a Deus. Esta atração é dínames divina, milagre de Deus na história humana. Deus tem poder de convergir para si todos os seres por ele criados. Deus é agora a força que se estende sobre o mundo, que abraça a partir do Crucificado toda criação agora redimida e santificada. Uma vez que seus braços foram elevados na cruz do Calvário, Jesus se torna lugar premente de Salvação e de Vida. Ele abraça toda criatura como abraçou com devoção seu Deus e Pai no retorno à casa donde partiu.  Oxalá, também nós, nos sintamos abraçados por Cristo e, redimidos por ele, nos percebamos chamados à santificação, à vida plena e feliz, no constante caminhar deste mundo rumo ao verdadeiro fim de nossa existência: Deus mesmo.







[1]  Cf. FABRIS, R.; MAGGIONI, B. Os Evangelhos II. 4. ed.  São Paulo: Loyola, 2006. p. 396 (col. Bíblica Loyola vol. 2). De forma majoritária, os estudiosos do Quarto evangelho concordam com a ideia de que o livro dos Sinais foi escrito depois do livro da Paixão. Isso se deu porque o Livro da Paixão, a narrativa da Paixão-Morte-Ressurreição de Jesus é o relato mais antigo, é assunto prioritário dos Sinópticos (Mc, Mt e Lc) e de João. Destarte, tudo o que vem antes deste relato climatério é apenas uma introdução.
[2] Essa divisão, possível, do Evangelho joanino está assumida nos estudos de V. Mannucci, C.H. Dodd, e R. E. Brown.

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