sábado, 17 de março de 2012

IV Domingo Quaresmal

Em sua Cruz, vislumbramos a alegre Ressurreição!

            O quarto domingo quaresmal, em sua mistagogia (mistério celebrado e vivido), tradicionalmente conhecido como Laetare (se diz letare), traduzido do latim por “Alegra-te”, nos conduz ao Mistério Pascal de Cristo, princípio e fim de nossa alegria. É na celebração do Sacramento do Amor[1], a Eucaristia, que nós vislumbramos, de forma sacramental, o Mistério do Ressuscitado que vence a morte e o pecado que imperam no mundo. Ao quebrar as algemas da morte, Cristo abre seus braços como crucificado-ressuscitado, abraçando toda criatura, concedendo-a a participação na experiência da vitória, da Glória e da exaltação da vida sobre toda negação, tudo aquilo que escamoteia a vida e sua dignidade intrínseca.
            Nesse domingo, como em alguns outros do ano litúrgico, o relato evangélico de João se faz importante. Embora quebrando a sequência narrativa do Evangelho que inspira o ano litúrgico, no caso deste ano, o Evangelho de Marcos, o Quarto Evangelho contém relatos próprios para temáticas teológicas mais densas. Trata-se de uma teologia diferenciada dos Sinópticos (Mc, Mt e Lc). João, por ser possivelmente o Evangelho mais tardio e, ainda, escrito para os judeus-cristãos que já vivenciavam a fé, e que estavam expulsos da sinagoga, trata de questões intrincadas, tais como: a pré-existência do Verbo, a relação nupcial com Jesus, a experiência sacramental do Batismo e Eucaristia, e os conflitos internos na comunidade, dos que aderiram plenamente ou parcialmente a Jesus, o Messias, Filho de Deus. Por isso, para celebrar a alegria desse domingo quaresmal, manifesta no crucificado-ressuscitado, nada melhor que esta narrativa de Jo 3, 14-21, na qual Jesus se dirige a Nicodemos para falar de sua exaltação experimentada na cruz, o lugar da humilhação, e esta que se torna a via de possibilidade para a Salvação de todo o que crê em Jesus.
            Após este proêmio, busquemos interpretar o texto de Jo 3,14-21.
            Antes de tudo, trata-se de uma narrativa simbólica. João brinca com os significados das palavras. No grego desse evangelista podemos encontrar ambivalência nas palavras, a esta ambivalência dizemos equivocidade, não porque nos equivocam, mas porque não são unívocas, de um só sentido, mas dão a pensar outras coisas. Por exemplo, as palavras geneté e anôthen em Jo 3,3, podem significar “nascer” ou “ser gerado” e “do alto” ou “de novo”. Portanto, esta ambivalência nos leva a pensar que uma interpretação apenas pode fechar nossa interpretação sobre esse relato de João.
            Faz importante lembrar que a liturgia desse quarto domingo Quaresmal retirou o relato do Evangelho de seu texto completo,[2] que tem início em Jo 2,23, onde se diz: “Enquanto estava em Jerusalém para a solenidade da páscoa, muitos creram em seu nome, vendo os sinais que ele realizava”. Trata-se do final da narrativa do Evangelho do terceiro domingo Quaresmal (ano litúrgico B). João, sumariamente, comenta que Jesus não dava crédito aos que acreditavam nele, pois conhecia o coração do ser humano. Segundo Léon-Dufour, Jesus fez inúmeros milagres durante seu ministério. “Ao qualificá-los de ‘sinais’, João caracteriza esses ‘atos de poder’ como devendo despertar a fé na pessoa de Jesus”[3]. Ao verem tais sinais muitos começaram a se simpatizar por Jesus, “viam e criam”. Lembramo-nos de Tomé: “se eu não vir...não acreditarei” (Jo 20,25b). Portanto, para João o mais importante é a fé autêntica, mesmo que não testemunhada pelos olhos, mas pelos ouvidos.
            Em Jo 3,1 o autor introduz em cena Nicodemos[4]. O v. 2 afirma que ele foi ao encontro de Jesus à noite, dando a compreender que Nicodemos era um simpatizante anônimo de Jesus. Seria por medo dos judeus (Jo 19,38) que ele não poderia se revelar, pois tinha um status a zelar, ou seja, era chefe dos fariseus, notável em Israel, um membro do Sinédrio (cf. 3,10; 7,48-50)? Seria talvez porque o costume dos judeus fosse de estudar a Torah durante a noite? Mas, o que se nos parece é que a Nicodemos não faltava coragem. O que lhe faltava era o esclarecimento sobre quem de fato era Jesus, por isso a curiosidade dele o leva ao mestre. Nicodemos estava preso, ainda, às “profundezas tenebrosas da carne”, como se referiu Santo Agostinho em uma de suas homilias (XI, 4-5 – Obras 71). Nicodemos vai até Jesus durante a noite para se encontrar com ele que é a luz, agora presente no mundo[5] (3,19).
            O episódio deste domingo quaresmal (Jo 3,14-21) desenvolve o discurso de Jesus a Nicodemos. O discurso em questão é fruto da dialética anterior estabelecida entre Jesus e Nicodemos (3, 2-13). Tal episódio se desenvolve em torno do símbolo da cruz, que é a essência da vida do Crucificado, de Jesus, o Filho de Deus. Jesus alude à figura exemplar do profeta do AT, por excelência, Moisés. Em Nm 21,6-9 vemos a narrativa na qual o povo se dirige a Moisés e pede para que ele interceda por eles. Pedem a Moisés que livrem do meio deles as serpentes. O Senhor, por sua vez, pede a Moisés para forjar uma serpente de bronze e todo aquele que, mordido por uma serpente, olhar para a serpente de bronze será curado e viverá.
            O ponto fulcral da questão está na comparação entre a serpente enaltecida no deserto e Jesus que será levantado na cruz do Gólgota. Esse fato será o enaltecimento do Filho de Deus. Na cruz de Jesus se dará a ressurreição, para João e sua comunidade.  O que João quer elucidar é o tema da fé: pois, não crer em Jesus é a via de acesso à condenação, mas dizendo positivamente, crer em Jesus é via de acesso à salvação, à vida eterna.
            Fundamentalmente, o que João quer mostrar aos fiéis de sua comunidade e aos leitores de hoje, os cristãos da geração atual, é que a salvação dada por Jesus não passa apenas pelo fato de crer naquele que Vive, mas, crer no crucificado, pois a cruz já é a vitória.
            Outra temática desenvolvida por João (vv. 16-21) trata-se do dom de Deus. Jesus, por ação do Pai, vem ao mundo não para condená-lo, mas para salvar o mundo. Isso poderia ser entendido como uma desdemonização do mundo. Salvar o mundo é concedê-lo saúde, vida nova, retirando dele toda força demoníaca que o faça desumano. Pois quando o homem concede ao mal o espaço necessário para ele crescer no mundo, este se torna um espaço desumanizador e mau.
            Para João, acolher a Jesus é acolher a luz da vida, a luz do mundo. O contrário, negar Jesus, é compactuar com as trevas que insistem chafurdar o mundo. A luz é que concede a vida. Por isso as plantas e os animais vivem apenas sob a influência da luz. Precisamos da luz do sol para viver, sem esse astro não existiria a vida na Terra. Destarte, para a comunidade do apóstolo João, viver sem Jesus Cristo, sua Palavra e seus exemplos é viver nas profundezas das trevas, ou seja, sob o influxo do pecado e da morte.
            Desta maneira, à guisa de conclusão, a narrativa do evangelho deste domingo quaresmal suscita-nos a perceber que no Crucificado da Sexta-feira Santa podemos vislumbrar o Ressuscitado do Sábado Santo e Domingo pascal. Há, portanto, uma união intrínseca entre o crucificado e o ressuscitado, e, estas duas realidades são fundamentais na vida de Jesus. Desta maneira, todo fiel que crer no Senhor Crucificado proclama sua Ressurreição e espera ressuscitar com ele para a vida sem fim, isto é, sem ocaso.


[1] BENTO XVI. SACRAMENTUM CARITATIS.
[2] Uma narrativa deve ser vista no horizonte da obra e não a partir de si própria. Esses cortes e retiradas que fazemos dos relatos bíblicos da narrativa total podem nos levar a fundamentar nossas ideologias e pretensões.
[3] LÉON-DUFOUR, X.  Leitura do Evangelho segundo João I. São Paulo: Loyola, 1996. p. 219-220.
[4] O nome Nicodemos, do grego, significa vencedor do Povo.
[5] O itinerário da fé de Nicodemos é existencial. Parece-se muito com a nossa própria existência. Nem sempre somos luz, há ainda espaço em nós para as trevas, obviamente para nos revelar o quanto a luz é mais atraente. Ora vivemos submersos às trevas, ora vivemos iluminados pela luz e crescemos, como um processo de maturação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário