sexta-feira, 9 de março de 2012

III Domingo Quaresmal


Ele é o Templo definitivo e excelente...
 

Jo 2,13 Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14 No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. 15 Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16 E disse aos que vendiam pombas: 'Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!' 17 Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: 'O zelo por tua casa me consumirá'. 18 Então os judeus perguntaram a Jesus: 'Que sinal nos mostras para agir assim?' 19 Ele respondeu: 'Destruí, este Templo, e em três dias o levantarei.' 20 Os judeus disseram: 'Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?' 21 Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. 22 Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele. 23 Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo os sinais que realizava, muitos creram no seu nome. 24 Mas Jesus não lhes dava crédito, pois ele conhecia a todos; 25 e não precisava do testemunho de ninguém acerca do ser humano, porque ele conhecia o homem por dentro.

            O Quarto Evangelho, ou mais conhecido como Evangelho segundo João, apresenta ao fiel e leitor uma progressiva revelação da pessoa de Jesus Cristo, o Messias, o Logos encarnado, o Filho de Deus (Jo 20,31). Com esta progressão desveladora, pode-se dizer que o Evangelho em questão é teo-lógico, dando-se a compreender a dramática vida de Jesus, o Filho de Deus. O Quarto Evangelho ainda pode ser considerado uma profunda teologia sobre Jesus de Nazaré, compreendido a partir das imagens do Logos (a Palavra), da água viva, do Pão da Vida, do Filho do Homem, da Luz do mundo, do verdadeiro Pastor, do Caminho, Verdade e da Vida, da verdadeira videira, e, por fim, do Vivente-Ressuscitado. Desta forma, a teo-logia joanina (de João) consiste em uma cristo-fania, ou seja, uma narrativa da revelação do Cristo (Messias) o amado de Deus, àqueles que já viviam a fé e que a aprofundam.
            A narrativa evangélica desse 3º domingo quaresmal, Jo 2,13-24 está inserida na seção joanina conhecida como “início da revelação de Jesus”, ou também conhecido como livro dos Sinais. Este relato da Revelação, no grande livro dos Sinais (Jo 2 - 12) do Evangelho de João, tem seu início com o primeiro dos sete sinais realizados por Jesus. O primeiro sinal, narrado por João (2,1-12), é o das bodas em Caná, da Galiléia. O termo sinal, em grego semeion, corresponde a uma realidade além do que é factual, do que é visível. Sinal, diferentemente de milagre (em grego Dynamis), remete a algo além daquilo que é realizado. Por exemplo, quando vemos uma cruz no alto de uma igreja logo identificamos que ela é cristã, mas a cruz lá posta não serve de enfeite, mas para sinalizar que alguém morreu na cruz e este alguém se chama Jesus, o Nazareno, o Cristo de Deus. Em Caná, a água foi transformada em vinho, o sinal não está na transformação, mas naquilo que ela indica: isto é, que Jesus, em sua ação nupcial com a humanidade e a comunidade do apóstolo João, transforma todas as realidades insípidas em realidades saborosas e de boa qualidade: “o vinho melhor conservaste até agora” (Jo 2,10).
            Todo este preâmbulo sobre o Evangelho de João nos serve para compreender a atitude profética de Jesus no Templo em Jerusalém.
            O Templo[1] era demasiadamente importante para a tradição judaica. Algumas vezes destruído e outras reerguido, o Templo jerosolomitano, representava o “lugar” do encontro e da experiência de Deus. Havia um templo também em Betel, a Casa de Deus, na tradução hebraica. Mas o Templo de Jerusalém era hegemônico.  Nele se configurava e se expressava a práxis e a fé judaica. Porém, concomitante à leal práxis os abusos se instalam, também como entre nós cristãos. Os abusos de fé sempre existiram e, não sendo pessimista, existirão sempre, pois quem os comete são falhos, ou seja, humanos.           
            Somente João é quem nos informa que Jesus ia todos os anos à Jerusalém, ou seja, ao Templo, por ocasião de suas festividades (Jo 2,13; 10,22-23; 12,12). Lucas, com exceção, informa que, todos os anos, os pais de Jesus visitavam Jerusalém por causa da Festa da Páscoa (Lc 2,41: aos doze anos Jesus vai a Jerusalém para o rito chamado “Filho do Mandamento” Bar Mitzvah). Os sinópticos, Mc, Mt e Lc, dizem que no fim de sua missão Jesus foi ao Templo para a expulsão dos vendilhões e contraventores (Mc 11,15-19; Mt 21,12-13; Lc 19,45-48) . O Quarto Evangelho não dispensa dizer que Jesus praticava a fé judaica, pois nos primeiros dois séculos não havia uma divisão tão radical entre judeus e cristãos, haja vista que os cristãos frequentavam as sinagogas.
            Vejamos agora as entrelinhas do relato, em seus episódios narrativos:
Jo 2,13-14: Jesus sobe a Jerusalém. Esta subida é significativa. Jerusalém ficava na terceira colina. Subir, biblicamente dizendo, é encontrar-se mais próximo de Deus. Porém, o inusitado é que Jesus se encontra com homens, contraventores, desonestos, que faziam da casa de seu Pai uma casa de comércio. Como entender esta transgressão ao ambiente dito santo?
            O Templo era lugar também de “pagar promessas”, levar os “donativos” a Deus, o Dízimo. No entanto, para os pobrezinhos, que vinha em caravanas de longe (Lc 2,44), era desvantajoso levar um animal grande. Esses levavam consigo pombas, rolinhas e animais pequenos. Em contrapartida, havia aqueles que economizavam durante o ano todo e, junto ao Templo, compravam das mãos dos cambistas os animais de maiores portes.
            Destarte, João quer dizer que ao invés de Jesus encontrar Deus em Jerusalém, ele encontrou-se com aqueles que abusavam do nome santo do Bendito de Israel.
Jo 2,15-16: Ao entrar no Templo e se deparar com a situação de abuso com a “casa de Deus”, Jesus faz um chicote de cordas e expulsou do Templo todos aqueles famigerados que faziam daquele lugar um lugar de aberração. Jesus age profeticamente. As palavras do mestre nazareno nos faz lembrar os arautos de Javé: Jeremias, Isaías e Zacarias. Para Jeremias, a casa de Deus não pode ser transformada em covil de assaltantes (Jr 7,11). Na concepção isaiana, a casa de Deus deve ser um “lugar de oração para todos os povos” (Is 56,7) e, para Zacarias, já no final de seu livro, a Casa do Senhor dos Exércitos (El Shaddai), não será mais lugar de comerciantes. Amparado, portanto, na missão profética, Jesus elimina do Templo todos aqueles que contaminavam suas paredes com a perversidade do coração faminto pela avareza.
Jo 2,17: João, com grande probabilidade, parece acrescentar este versículo à narrativa da “faxina” de Jesus no Templo. Chamamos este recurso literário de glosa, isto é, explicação posterior de algo que acontece em primeiro plano. “[...] lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: ‘O zelo por tua casa me consumirá’”. João alude ao Sl 69,10, que diz: “pois o zelo por tua casa me devorou...” e ainda ao profeta Elias, em 1Rs 19,9.14, que duas vezes declara: “Estou ardendo de zelo pelo Senhor, Deus dos exércitos...”. Dessa forma, entende-se que as atitudes de Jesus são releituras das ações proféticas, explicitas nas Escrituras. Jesus foi, por muitos, considerado um grande profeta, em palavras e atos, lembra-nos Mt 21,46b.
Jo 2, 18-20: Os judeus que testemunham o gesto profético de Jesus o questionam sobre a legalidade de sua ação. Em que autoridade amparava-se Jesus para realizar tal atitude? O v. 17 já sublinhou que ação de Jesus, de expulsar a perversão do Templo, está amparada no cuidado que ele tinha com as coisas de Deus, o seu Pai (cf. Lc 2,49: “Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?”). O Sinal (Semeion), por excelência, que Jesus pode mostrar àqueles homens é o de sua morte e ressurreição. Possivelmente o sétimo sinal no Evangelho de João seja a morte-Ressurreição de Jesus e não a reanimação- Ressurreição de Lázaro, como muitos atestam ser. Jesus reerguerá do pó da terra seu corpo crucificado. Eis o verdadeiro Templo. Jesus, portanto é o NOVO TEMPLO. Este novo Templo não é reerguido por mãos humanas, mas pela vontade de Deus, que não cativa seu Filho na morte.
No entanto, os judeus questionam Jesus: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?” Eles referiam-se ao Templo da cidade de Jerusalém, enquanto Jesus falava do seu corpo, Novo Templo, que abarca toda criatura com sua Ressurreição, a Vida Nova.
Jo 2, 21-22: Novamente João faz um comentário. Jesus se referia ao seu corpo. Após o evento miraculoso da Ressurreição os discípulos compreenderam as palavras proféticas de Jesus. Isso significa que tais palavras são relidas a partir do evento posterior. Há que se lembrar que o Evangelho, escrito recebido e transmitido, é um relato pós-Pascal, isto é, escrito após a morte-ressurreição de Jesus. Portanto, trata-se de uma reelaboração de todos os fatos acontecidos com Jesus e os discípulos. É, portanto, à luz da Ressurreição que os seguidores de Jesus compreendem suas palavras e ações. Há, ainda, que se pensar que também os discípulos passam pelos estágios da fé. Num primeiro momento, na pedagogia do caminho do discipulado, os discípulos nada compreendem, mas é na casa, muitas vezes, ou num lugar a parte, que Jesus explica-lhes aquilo que fora dito em público. Assim, somos nós também. Em muitos momentos, de imediato, não compreendemos o que está acontecendo. Mas é com o tempo decorrido, que vamos compreender o que Deus quer nos falar.
Jo 2, 23-25: O evangelista João continua a narrativa lembrando que Jesus estava em Jerusalém por ocasião da Páscoa. Tal festa, para a fé e tradição de Jesus, era fundamental. Tratava-se do evento fundador da fé de Israel: a passagem [pessach] da terra escravidão para a terra do serviço a Deus. Muitos que em Jerusalém estavam, passaram a crer nos sinais (semeia) que Jesus realizava. Jesus, contudo, não dava importância à fé deles à sua pessoa, pois conhecia seus corações. Jesus, aparentemente, vislumbrava neles uma sociedade que esperava apenas o “espetáculo”. Ora, também hoje, muitos fiéis fazem parte da “sociedade do espetáculo” e acreditam apenas no que veem e naquilo que lhes fascina os olhos, mas muitas vezes não deixam que o que veem desça ao nível profundo de suas ações, do amor, da fé genuína e engajada, comprometida com o mundo e o outro, permanecendo apenas nos níveis do sentimentalismo e da emoção.
            Por fim, o relato evangélico (Jo 2,13-25) deste domingo quaresmal faz alusão ao verdadeiro Templo ao qual devemos reportar nossa fé. Jesus, segundo a narrativa joanina tem a mesma primazia do Templo. Ele é o novo Templo, o lugar por antonomásia do encontro com Deus. Ele é o Templo definitivo e excelente. Assim somente Cristo é capaz de abarcar, de abraçar todo cristão, todo ser humano de boa-vontade, toda a humanidade e, porque não dizer, toda Criação, na dimensão da Salvação definitiva. Isso significa que o Templo de pedra e todos os demais templos são relativos em sentido do único e verdadeiro Templo, o Absoluto que é Cristo. É na vida, paixão, morte e Ressurreição de Jesus, na experiência profunda do encontro com Ele, na escuta de sua Palavra Santa, na vivência comum da fé, da partilha do bem, na feitura da caridade, na prática da justiça, que somos abraçados por este Templo formoso e pleno que abre seus braços, na dimensão do Crucificado e nos leva consigo à vida definitiva de Deus, à Plenitude, à Vida Eterna.







[1] Faz-se salutar lembrar que todo bom judeu deveria ir, ao menos, uma vez em sua vida ao Templo de Jerusalém e em suas orações deveria virar-se na direção do mesmo. Esta prática ainda é comum no Islã, pois na hora apropriada da oração todo Islã deve se voltar para Meca.
 

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