sábado, 3 de março de 2012

II Domingo Quaresmal

Transfiguração: Jesus é a Nova Lei e a Nova Profecia

Mc 9, 2 Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. 3 Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar. 4 Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus. 5 Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: 'Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.' 6 Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo. 7 Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: 'Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!' 8 E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém,  a não ser somente Jesus com eles. 9 Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. 10 Eles observaram esta ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer 'ressuscitar dos mortos'.
            O relato evangélico deste 2º domingo quaresmal, o da Transfiguração de Jesus, está inserido no contexto do caminho missionário de Jesus. Após o episódio em Cesaréia de Filipe, no qual Pedro diz que Jesus é o Messias, e após este anunciar sua paixão, morte e ressurreição, a narrativa nos coloca diante de uma cena muito bem elaborada. Trata-se de uma teofania, isto é, uma manifestação divina, da parte de Jesus, o Filho amado de Deus. Este relato, com grande possibilidade, era muito comentado na época em que os evangelistas elaboraram suas teologias. Marcos, por sua vez, é o primeiro a inaugurar tal descrição. Ele apresenta para o leitor de seu Evangelho uma amostra-grátis da Ressurreição, a vitória plena de Jesus sobre a morte.
            Pedro, Tiago e João são os primeiros discípulos chamados por Jesus-Mestre. Os três, na comunidade primitiva, exercem influência clara. Eles sobem com Jesus a uma montanha importante. Na concepção semítica a montanha é lugar da manifestação divina. Haja vista o que aconteceu com Moisés no monte Horeb, com Elias, Eliseu e tantos outros homens de Deus. Com Jesus não é diferente. Deus se manifesta por excelência a seu Filho amado. Jesus se transfigura indicando a vida gloriosa que ele assumirá na cruz de sua Paixão. A morte será suplantada pela vida nova da luz do Ressuscitado. A luz da Ressurreição vencerá as trevas da morte e do pecado. Mc 9,3 afirma que as roupas de Jesus ficaram brilhantes confirmando esta nova realidade, bem distinta de toda aquela humana.
            Na cena do monte santo, Elias e Moises estão inseridos como homens de Deus. Elias é ícone da Profecia, Moisés simboliza a Lei e, Jesus, sintetiza a Lei e os Profetas, sendo agora a Nova Lei e a Nova Profecia, que deve, portanto, ser ouvida.
            Pedro, com sua personalidade impetuosa, diz a Jesus: “Mestre, bom é ficarmos aqui”. Destarte, ele se coloca pronto para levantar três tendas, uma para Elias, outra para Moisés e uma para Jesus. As tendas eram as casas dos primeiros patriarcas bíblicos. As tendas simbolizam o Israel peregrino. A tenda é ainda lugar da shequinah de Deus, sua in-habitação, lugar provisório onde Deus faz morada. Contudo, não sabendo o que estava falando, pois estava em êxtase, Pedro e os dois discípulos experimentavam o medo. A realidade espiritual a qual estão inseridos lhes causa pavor. Pedro e os discípulos vivem a sensação do inaudito, da experiência de fé, a realidade inexprimível invade seus corações.
            A nuvem que os encobre lembra a mesma nuvem que seguia o povo pelo deserto durante o dia, ainda nos faz pensar na mesma sombra que desceu sobre a Virgem no dia da encarnação do Verbo. Da nuvem uma voz exclamava: “Este é o meu Filho amado: escutai o que ele diz”. A voz do Pai testifica que a Palavra do Filho é a verdadeira Lei e a Profecia. Jesus é o Verbo de Deus, a Palavra, a Dabar que se faz carne e habita a nossa realidade. Jesus é a Palavra, Boa-Nova, Evangelho, pleno de esperança. Desse modo, deve ser a Igreja, portadora da Palavra que é Jesus, e não ditadora de palavras humanas, insensatas, escrupulosas e moralistas. A Palavra da Igreja é o próprio Jesus Cristo, sua mensagem, sua práxis, seus milagres, sua Boa Notícia. A fidelidade da Igreja não consiste em anunciar a si mesma, mas a Cristo, o Fim último de sua missão. Quando a Igreja anuncia a si e deixa Cristo de lado não está sendo meio, mas fim e ao mesmo tempo infiel ao seu chamado. Afinal, a palavra Igreja, do latim ecclesia, do grego ekkesia, do hebraico Qahal, significa assembléia que anuncia o Senhor de sua vida.
            Segundo Jose Antonio Pagola, não podemos continuar a reter a força humanizadora do Evangelho de Jesus.Temos de aprender a ler juntos o Evangelho. Familiarizar-nos com os relatos evangélicos. Colocar-nos em contato direto e imediato com a Boa Nova de Jesus. Nisso temos de consumir as energias. Daqui começará a renovação da qual necessita hoje a Igreja”.
            Assim, a Transfiguração de Jesus é força que impulsiona o agir da Igreja ouvinte e profetisa. A Igreja é convidada ouvir a Jesus e anunciá-lo como profetisa fiel. Enfim, como profetas e profetisas de um mundo novo, regido pela vontade e bondade do Criador, façamos ressoar a notícia humanizadora do Evangelho de Jesus, o Ressuscitado, Aquele que Vive para sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário