sábado, 3 de dezembro de 2011

II Domingo do Advento - Confiar é preciso!

Mc 1, 1 Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, [Filho de Deus]. 2 Conforme está escrito em Isaías, o profeta: 'Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. 3 Voz do que clama no deserto: 'Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!'' 4 Veio João Batista que batiza no deserto, que proclama um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados. 5 Toda a região da Judéia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão. 6 João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel silvestre. 7 E proclamava, dizendo: 'Depois de mim vem alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de curvar-me para desamarrar as correias de suas sandálias. 8 Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo.'
                Como meditamos no domingo passado, o tempo do Advento segue marcado por algumas figuras bíblicas importantes. O profeta João Batista, o precursor do Messias, é uma delas. Com sua voz que proclama no deserto: “preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas” (Mc 1,3), João segue como um profeta carismático que denuncia e anuncia. Suas denúncias ameaçam os poderosos, Herodes por exemplo. O anúncio da esperança, por ele proferido, atrai as multidões (inclusive Jesus) que vão até o Jordão para serem batizados.
            O Batista foi um homem singular. “Entre o outono do ano 27 e a primavera de 28, ele surge no horizonte religioso da Palestina”, afirma J. Antonio Pagola (Jesus, uma aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2010, p. 88). Ele é um profeta original e independente de corrente profética, como as tantas existentes em Israel, nos tempos áureos do império e nos tempos frustrantes de Exílio. João é o seu nome. Filho de Zacarias e Isabel, de epíteto “Batizador”, porque praticava um rito inusitado nas águas do Jordão, João é sem dúvida um homem que marcou como ninguém a vida do Messias, Jesus de Nazaré.
            De família rural, nascido na região da Peréia, portador de uma linguagem rude e empregando imagens do campo em seu discurso evangélico, como boa-notícia, João anunciou a vinda eminente de Deus ao mundo. Ele rompeu com a tradição do Templo de Jerusalém e com os ritos do judaísmo formativo do I século[1]. Não se apoiando em nenhum mestre, João se torna uma autoridade para a tradição de Israel. Ele se tornou para Jesus e para os seguidores de Jesus motivo de inspiração. Foi ele quem anunciou ao ver Jesus se aproximar: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).
            Sem dúvida, Jesus fica seduzido pela mensagem do Batista. Nos estudos atuais sobre Cristologia, muitos autores afirmam, a partir da leitura do Evangelho, que Jesus tenha sido discípulo de João. Essa hipótese se sustenta nas palavras do próprio Batista que diz, após mim virá àquele que vos batizará no Espírito Santo (cf. Mc 1,8). Jesus percebe que João põe Deus no centro de seu discurso. A profecia de João é atroz. Ele denuncia os saduceus e fariseus e os compara com as víboras (Mt 3,7). A profecia de João, segundo o Evangelho de Mateus, tem um tom escatológico. Ele diz: “E já está posto o machado á raiz das árvores; toda árvore, pois que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt 3,10). Na narrativa de Marcos, por sua vez, João aponta o Messias, o esperado: “Depois de mim vem alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de curvar-me para desamarrar as correias de suas sandálias” (Mc 1,7).
            Para João Batista, Jesus é mais forte do que ele próprio, pois é o Pai de Jesus quem confere a seu ele, seu Filho, um poder-autorizado, uma força que só o profeta João é capaz de antever. Evidentemente, esta é uma narrativa na qual o evangelista dá a entender a profecia de João como de fato o era, preparatória, isto é, João é servo de Jesus. Ele não se sente digno de sequer desamarrar as correias de suas sandálias de Jesus. Assim, entendemos o que o narrador quer nos dizer: que Jesus é maior que João, pois João está a serviço de Jesus, isto é, João se compreende em relação a Jesus, como servo que cumpre a missão.
            Desta forma, podemos compreender João Batista como aquele que prepara o povo para a vinda do Reino de Deus que se irrompe em Jesus de Nazaré. João é ponto de chegada da longa espera e preparação histórica de Israel e anuncia Jesus, que é o ponto de partida no novo curso da história humana. O batismo de João transforma-se em sinal e compromisso de uma conversão radical a Deus, que vem em Jesus. O abandono do pecado e o estado de graça significam um status novo para acolher a Jesus como aquele que há de vir.
            Por fim, a mensagem de João Batista é radicalmente importante. Sua mensagem nos leva ao deserto (lugar de silêncio e recolhimento) para que possamos sair do ativismo do dia-a-dia, das preocupações supérfluas e deixar que ecoe em nós a voz de Deus. João ainda nos aponta aquele que virá, isto é, nos mostra Jesus. Portanto, João nos ensina ainda hoje a confiar no Senhor, nosso resgatador. Trata-se de uma mensagem, um convite, a uma mudança radical de vida. O Batista, ainda nos faz lembrar o nosso batismo, dos compromissos que, por nossos pais e padrinhos, assumimos. João nos faz lembrar a fé que nos foi transmitida, por fim, da vida divina que habita em nós. Peçamos a Deus que o mais forte que virá nos encontre preparados, vigilantes na confiança. Que Ele, o mais forte, venha resgatar nossa história, libertando-nos da opressão do pecado, conduzindo-nos por seu Espírito à vida sem ocaso.


[1] Entendemos por judaísmo formativo as escolas rabínicas que surgiam no século 1, as sinagogas existentes na Palestina, a formação conscienciosa da tradição judaica, com ritos e normas prescritas, também conhecido como farisaico.



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