sábado, 12 de novembro de 2011

Vem participar da minha alegria! (Mt 14, 23c)

Mt 25, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 14 Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. 15 A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; cada qual de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou. 16 O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois. 18 Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão. 19 Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados. 20 O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: `Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei'. 21 O patrão lhe disse: `Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!' 22 Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: `Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei'. 23 O patrão lhe disse: `Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na  administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!' 24 Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e disse: `Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. 25 Por isso fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence'. 26 O patrão lhe respondeu: `Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde não plantei e que ceifo onde não semeei? 27 Então devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence.' 28 Em seguida, o patrão ordenou: `Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez! 29 Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30 Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes!'
           
            Vislumbramos o fim do ano litúrgico. A liturgia deste tempo limiar nos convida a uma avaliação de nossa vida. Toda realidade fronteirísa, que marca um novo começo, é uma oportunidade para ponderar, agradecer e re-propor novos valores, novos caminhos, os quais não foram vividos nem percorridos na busca da plenitude.
            Sem sombra de dúvidas, a parábola dos talentos, reservada a esse momento do tempo litúrgico, situa-nos diante do juízo escatológico, isto é, final. Juízo no qual Deus “acertará as contas” de nossa vida, e nós, como a narrativa afirma, podemos apresentar a Ele a vivência ou a negligência (negação) de seu projeto a nós confiado.
            Certamente, esta parábola causa-nos a seguinte intriga: Porquê o patrão, que saiu viajar, deixou aos três empregados quantias diferentes de dinheiro (talentos)? Ao primeiro cinco, ao segundo dois e ao terceiro um talento. Esta parábola parece corroborar a tese capitalista meritocrática. Isto é, que eu, que sou bom, mereço mais e o outro menos capaz, mereça menos. Este meritismo está muito presente nas realidades humanas, principalmente nas comunidades de fé. Alguns, que estão nos primeiros lugares, assumindo tarefas de liderança, se acham sempre no direito de receber mais, em compensação dos outros que sempre podem ficar com menos.
            Essa tendência nem sempre pedagógica de privilegiar alguns em detrimento da depreciação de outros, conduz a uma rivalidade entre aqueles que são chamados a viver suas qualidades. Assim, esta parábola pode ser entendida não a partir da perspectiva de causa, do patrão que dá a um mais que a outro, mas sob a perspectiva final: que ele exige de todos a operacionalidade de seus talentos, o rendimento de seus empréstimos.
            De acordo com G. Barbaglio, a perspectiva é “claramente escatológica, mas esta é interpretada nos seus reflexos éticos sobre o hoje dos crentes.” (BARBAGLIO, G. Os evangelhos I. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002). Para este comentador de Mateus, o Evangelho em questão, pretende contrapor a operosidade dos primeiros dois servos à preguiça do terceiro. “A finalidade última é de caráter moral; exortar a comunidade a viver o presente na fidelidade e com empenho.”
            Johan Konings afirma que o acento principal desta parábola contada por Jesus não “está na diversidade dos talentos[1], dos dons, mas no valor decisivo do serviço empenhado”. Para ele, essa parábola exprime o critério final de nossa vida. O assunto em questão não é a diversidade de carismas (em Lc 19,12-17, os servos recebem todos a mesma soma), mas sim o investimento esforçado em vista do fim. (KONINGS, J. Liturgia dominical. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2004).
            Por fim, o que precisa ser ressaltado na parábola dos talentos não é o mérito maior concedido ao primeiro servo ou o medo experimentado pelo terceiro servo, mas o esforço, o dinamismo e a dedicação daqueles que receberam um dom de Deus e que o colocam a serviço dos irmãos, multiplicando-os. Todo tesouro confiado a nós precisa ser vivido-multiplicado em sentido último e final de nossa existência que é Deus mesmo. Em outros termos, devemos frutificar em nós a semente recebida por Deus desde a criação. Esta semente é do Reino que precisa nascer como árvore, crescer, florescer e dar frutos, servindo de abrigo para todos aqueles que se sentirem abandonados e, com seus frutos, alimentar, saciando a fome daqueles que se sentem famintos.


[1] Um talento é 30 kg de ouro. Mt, segundo J. Konings, gosta de números exagerados, cf.  Mt 18,21-35

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