sábado, 19 de novembro de 2011

“Tive fome e me destes de comer” Mt 25,35

 Mt 25, 31 Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. 32 Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos 33 E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34 Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: `Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! 35 Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; 36 eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar'. 37 Então os justos lhe perguntarão: `Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber? 38 Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? 39 Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?'40 Então o Rei lhes responderá: `Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!' 41 Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: `Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. 42 Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; 43 eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não fostes me visitar'. 44 E responderão também eles: `Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?' 45 Então o Rei lhes responderá: `Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!' 46 Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna'.

            Este, talvez, seja o relato mais conhecido do Evangelho de Mateus. Tal como o Sl 22/23, no qual o salmista proclama ‘O Senhor é meu Pastor, nada me faltará’, também estas palavras de Mateus, provenientes segundo ele da boca do Senhor, ecoam em nosso coração e nos fazem apropriá-las para também dizer: ‘tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber’. Palavras límpidas e ao mesmo tempo emblemáticas. Pois, se ditas aos bem-aventurados (Mt 5), aos benditos do Pai, tais palavras são claras e evidentes, isto é, quem planta o amor, colherá seus frutos. Mas, estas palavras são emblemáticas, pois, não são dirigidas, favoravelmente, apenas aos benditos, mas são, inclusive, proferidas em tom de recriminação aos “malditos”, que negaram viver a vocação ao amor.
            Fundamentalmente, este texto de Mateus evidencia a realidade apocalíptica e escatológica, tratando-se de um belo relato sobre o fim. Constitui-se uma narrativa de revelação, pois o Filho do Homem é um personagem da literatura Apocalíptica, mas não só por isso. Este relato indica ainda que Ele, o Filho, o “uiós tou antropou” no grego de Mateus, procede, isto é, provém da glória (dóxa), da realidade própria de Deus (cf. também Mt 24, 30.31). Ele, o Filho, tem mesma dignidade que o Pai, portanto, tem a missão de julgar e, como juiz (Dn 7,13-14), separará os justos dos injustos, os benditos dos malditos. Esta missão do Filho é assemelhada à do pastor que separa as ovelhas dos cabritos[1]. Este relato tem um teor escatológico, como já afirmado, pois, retrata de forma narrativa o fim último da realidade do juízo humano e cósmico. No fim, o Cristo Senhor, sentado em seu trono de glória (v.31), fará uma seleção claríssima, tal como na metáfora do pescador que separa os peixes comestíveis de todo o resto (Mt 13,47-50). Ele, o Senhor, fará aparecer em pleno dia a verdadeira identidade do ser humano, a humanidade essencial.[2]
            Evidentemente, este relato, dirigido hoje a Igreja Universal, pode ser lido na perspectiva e no caráter operacional, ou seja, de atenção espiritual pelo futuro, na vivência e fidelidade do cristão, em sentido legítimo, necessário, indispensável e gravíssimo do dever de servir e promover a vida dos empobrecidos do mundo[3], dos estrangeiros, dos encarcerados, dos indigentes, de todos os quais cujas vidas estejam ameaçadas pelos signos da morte e do pecado. Esta narrativa que tem sabor de fim evidencia, contudo, o que deve ser a da vida do Cristão autêntico e maduro na fé, os benditos de Deus, aqueles que se engajam no projeto de Jesus Cristo, fazendo de sua vida uma doação, oblação sobre o altar do Universo.
            A narrativa deste Evangelho ressoa a sentença que assinala a alguns um destino de salvação e a outros uma perdição eterna. O Filho do Homem, Jesus, é agora chamado de Rei. Ele julgará com o poder recebido pelo Pai na Ressurreição: “Foi-me dada toda autoridade no céu e sobre a terra” (Mt 28,18). Jesus tem exousia (poder autorizado pelo Pai) no céu e sobre a terra, indicando que todos aqueles que residem neste mundo só adentrarão os pórticos do céu através de Jesus Cristo. Assim entendemos que fora de Cristo, o único mediador entre Deus e os homens, não há Salvação. Mas, isso não exclui aqueles que não crêem em Cristo. Cristo total, Encarnado-Crucificado-Ressuscitado, assume a totalidade das vidas humanas pelo simples fato da Encarnação, experiência única do Filho na qual ele assumiu nossas alegrias e nossas dores, inclusive a limitação humana.
            Em contrapartida, há aqueles que deliberadamente negam a Deus, pois negam o Espírito da vida, o hálito de Deus que os insuflou desde a Criação. Estes, os malditos, decidem-se a fazer o mal, compactuam com as estruturas de morte e de desumanização, como os projetos diabólicos e humanos. Os malditos não o são assim porque Deus os esqueceu ou os destinou, mas porque eles próprios apostam única e exclusivamente na auto-salvação, no dinheiro e no poder. Não podemos descartar que muitos que dizem servir a Deus, mas servem aos esquemas perversos do poder e do dinheiro, estejam na condição de malditos, revestidos de aparente bem-aventurança, tais como “lobos em pele de cordeiro”. Estes excluem a Deus de suas atitudes, mas o utilizam em seus discursos vazios.
            Por fim, os seres humanos, julgados pelo Filho do Homem, herdarão a vida plena ou a definharão na perdição, não por vontade de Deus, mas porque cuidaram e amaram dos necessitados, dos últimos e excluídos deste mundo. Os homens serão julgados não pelo mal que cometeram, e isso vale à moral sexual ou aos tantos escrúpulos de consciência inventados pelas religiões, mas serão julgados pelo bem que deixaram de praticar. A experiência de samaritano é decisiva para a vida plena junto de Deus. Vale lembrar que em nossas idas e vindas, nos deparamos com pessoas sedentas, maltrapilhas, sujas, com fome e humilhadas, esquecidas. Nesse nosso caminho para Jerusalém celeste, encontramos homens e mulheres violentados pela vida, muitas vezes desumanizados, daí, somos convidados por Deus a cuidar deles e delas, tal como o gentil samaritano (Lc 10,29-37). Assim, nossa religião Cristã não deve apenas estipular princípios moralizantes e teológicos, mas nos humanizar, na dimensão do cuidado, do amor, assim como Jesus nos ensinou: “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,12).
             É, portanto, juntos dos pobres que encontramos o Filho do Homem e, então, encontramos a vida solidária, a humanização plena, o desejo profundo e inspirador pela vida em plena ascensão e sem fim. Os pobres são irmãos de Jesus e ao servirem a outros mais pobres ainda, servem-nos como se fosse a Jesus. Com isso, nunca me esqueço de quando fui a um mosteiro beneditino, no qual o prior, na entrada da abadia, ao beijar minha mão disse: “seja bem-vindo, Cristo”, e ao ser servido na mesa pelo monge menor, ele disse: “seja bem-vindo, Cristo, a nossa mesa”. Assim, quando servir e amar o teu irmão, lembre-se: é Cristo que está sendo servido e amado.


[1] Segundo J. Jeremias, em  Les paraboles de Jésus, p. 196, os cabritos têm necessidade de ser protegidos do frio durante a noite, demandam, portanto, muito mais trabalho.
[2] TILLICH, P. Teologia Sistemática. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p. 387.
[3] Frei Prudente Nery proferiu estes adjetivos de missão para o serviço que deve ser prestado pela vida Religiosa no mundo atual. Cf. Uma reflexão sobre as motivações de uma Vida Religiosa In: <http://www.procamig.org.br/home.php?sessao=0002&indice=212>

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