sábado, 5 de novembro de 2011

Solenidade de Todos os Santos - “Ser santo não é ser perfeito, ser santo é fazer bem feito o que precisa ser feito”

Mt 5 1vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2e Jesus começou a ensiná-los: 3“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus! 11Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12aAlegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.
A santidade é a essência de Deus. Nele, o Todo Santo, podemos caminhar para a santidade. A palavra santo, do hebraico bíblico kadosh, significa separado. Separado não no intuito de negar qualquer relação, mas no sentido mesmo da alteridade, na garantia da diferença salutar e envolvente. Deus é o Outro, o separado: que convida o ser humano à relação. Nessa relação envolvente, isto é, alicerçada na essência do amor, a virtude humano-divina, a santidade se torna uma força que emana de Deus, o Criador, para todas as criaturas, de forma especial, o humano – criado a imagem do seu Criador (cf. Gn 1,27).
A essência da santidade de Deus está no desejo mesmo de criar, de redimir e de salvar toda Criação, o kosmos, as criaturas, o ser humano. Na celebração da santidade divina sobre o mundo, como um altar edificado para o sacrifício, Deus se imola – fazendo tudo santo – pelo ser humano. Deus se entrega, se doa, comunica sua graça santificante. Na experiência da fé cristã, entendida a partir da Trina relação de Deus, em três pessoas em um só Deus, entendemos o sentido da palavra Santidade. O Pai cria, sendo origem de tudo e de todos. Isso nos leva a compreender que toda criação se relaciona com Deus, o Criador. Assim, toda criação é convocada à vida santa – o que santo Agostinho entendeu por Vita Beata. No Filho, Jesus de Nazaré, o Cristo, o mediador e o sentido último de toda criação, somos redimidos. O Filho nos ensina a clamar Abbá – ó Pai. Por ele, com ele e para ele tudo foi feito, desde todos os séculos. Destarte, o Filho nos santifica com sua vida, a oblação (sacrifício/entrega) perfeita no altar do universo de Deus. O Espírito, que é dito na tradição Cristã como Santo, é o hálito irredutível de Deus. O Espírito nos comunica a Vida Divinal. Ao insuflar em nós a vida Daquele que nos criou, o Espírito reaviva nossa esperança na no caminho da santidade, não obstante as tantas redundâncias e idiossincrasias de nossa história. Portanto, pela vida da Trindade Santíssima, somos enxertados na ciranda do amor, da relação pura de afeto, das bem-aventuranças, da felicidade eterna.
Desse modo, na relação com a Trindade eterna e santa é que todo ser criado encontra o sentido de sua gênese e finalidade. Em Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, encontramos a trajetória de nossa vida. Na relação de amor com Deus Uno-Trino, o cristão percebe-se a caminho da vida plena, entendendo-se em constante relação consigo mesmo, com o outro (seu irmão) e o outramente Outro (Deus o Criador).
As bem-aventuranças, como itinerário perfeito para todo ser criado, torna-se um compasso harmonizador. Tal como a batuta, que está cravada nos dedos do regente que harmoniza um coral, as bem-aventuranças deve estar no coração do cristão. Se a batuta não for bem utilizada pelo sábio mestre da música, não haverá a sinfonia, isto é, a harmonia acústica. Se no coração do cristão faltar o desejo de vivenciar as bem-aventuranças, ele perderá o sentido de sua existência.
Para Dom João Resende Costa, a proclamação da bem-aventurança da pobreza, por exemplo, nos impõe uma série de atitudes de lógica cristã. “É preciso que nosso empenho em combater a pobreza não se transforme numa luta de natureza puramente social e econômica, alimentando antagonismos e matando no coração do pobre a grande riqueza que ele tem e que nenhum dinheiro pode dar: a simplicidade de usa fé e sua humilde confiança na presença do Senhor. Por outro lado, não ficaremos indiferentes aos sofrimentos dos pobres” (COSTA, J. R. Palavras do Caminho. Belo Horizonte: Fumarc, 2010, p. 214).
Portanto, as bem-aventuranças são caminhos novos para que o cristão atinja a maturidade de sua fé, de seu testemunho de vida, na proclamação da boa-nova de Jesus. É necessário que nos vejamos convidados pelo Mestre a viver a pobreza, que não se trata apenas da escassez dos bens materiais, mas do fato de acreditar que Deus é nossa maior e suprema riqueza. Viver a aflição é perceber que só Deus pode acalmar nossas revoltas, nossas insatisfações com o mundo, como o modelo de sociedade que vivemos, na qual estamos inseridos. Que nossa mansidão consista em acreditar que Deus, e só Ele, é a essência de nossa busca. Como um rio manso busca encontrar-se com o mar bravio, precisamos viver nossa vida na procura incessante de Deus. Que nossa fome e sede de justiça possibilitem a construção de um mundo mais justo e fraterno, no qual todos os pobrezinhos não fiquem ao relento, nem morram de inanição, nem continuem desprotegidos pelos caminhos da vida. Que nossa misericórdia esteja conjugada com a paixão, com todos os nossos sentidos, com toda intensidade na busca de resgatar a “ovelha perdida”. Que a pureza de nossos corações seja a forma secreta de vermos a Deus, muitas vezes escondido no rosto triste e abatido de nossos irmãos e irmãs. Que sejamos felizes por contribuirmos na consolidação da paz, da justiça e do amor. Que a paz seja nosso objetivo no combate à violência covarde que ceifa tantas vidas inocentes. Por fim, se de fato formos perseguidos e ultrajados por causa de Jesus Cristo e de seu Evangelho é porque estamos no caminho certo, da construção do Reinado de Deus.
Assim, que nossa voz não se cale diante das maldições que encontramos ao longo de nossa história, que nossos pés não se cansem nem sofram nas idas e vindas de nossa missão, que nossas mãos não se cruzem nem se deixem cerrar diante de tantas coisas que precisamos construir e edificar, que nosso coração não se acovarde mediante aos males que o mundo apresenta. Por fim, que Deus, o Santo de todos os Santos, nos faça fiéis e nos leve a fazer bem feito o que de fato precisa ser feito. Não queremos homens perfeitos, queremos santos homens que façam “bem feito” tudo aquilo que necessita ser feito (Esta frase é memória da pregação de Monsenhor Antonio Afonso, por ocasião da Solenidade anual de Todos os Santos).   
Pe. Junior Vasconcelos do Amaral

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