quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Mt 23,11 O maior dentre vós deve ser aquele que vos serve

Mt 23 1 Jesus falou às multidões e a seus discípulos: 2 'Os mestres da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. 3 Por isso, deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam. 4 Amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. 5 Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Eles usam faixas largas, com trechos da Escritura, na testa e nos braços, e põem na roupa longas franjas. 6 Gostam de lugar de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas; 7 Gostam de ser cumprimentados nas praças públicas e de serem chamados de Mestre. 8 Quanto a vós, nunca vos deixeis chamar de Mestre, pois um só é vosso Mestre e todos vós sois irmãos. 9 Na terra, não chameis a ninguém de pai, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. 10 Não deixeis que vos chamem de guias, pois um só é o vosso Guia, Cristo. 11 Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. 12 Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado.'
                
Nesse Dia do Senhor, somos interpelados pela Palavra do Evangelho que nos convida a prática da diaconia perfeita, isto é, do serviço, vivido na humildade e mansidão.  
O discípulo de Jesus, o ouvinte da Palavra, na aventura de compreender essa narrativa de Mateus, se sente motivado a viver uma práxis nova e genuína, e, é claro, não aos moldes do farisaísmo do tempo de Jesus, mas na autêntica observância da Lei do amor, a emanação do coração de Deus. É notório que o Evangelho deste domingo pode ser compreendido em dois momentos significativos. O primeiro, que vai do versículo 1 ao 7, no qual se refere aos fariseus, suas práticas vazias e a hipocrisia vivida pelos mesmos. A segunda parte, do versículo 8 a 12, trata, em contrapartida, da práxis discipular, isto é, da experiência daqueles que seguem a Jesus, “caminho, verdade e vida”. Esta segunda parte culmina com a formidável exigência de Jesus: “Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve”, indicando o sentido de seu seguimento.
É justo e salutar objetivarmos algumas ressalvas em relação às críticas, ainda hoje, tecidas a respeito dos fariseus contemporâneos de Jesus. Primeiro, no tempo de Jesus havia um judaísmo saudável, observante e fiel a Deus, assim como hoje existe um Cristianismo fiel e engajado. Segundo, no tocante à hipocrisia, nem todos os fariseus eram perversos ou ímpios. Não podemos cair no tentação de generalizar tudo. Em terceiro lugar, Jesus mesmo afirma que os fariseus tinham autoridade para interpretar as Escrituras, pois eles eram preparados para isso. No grego de Mateus, com a ajuda de uma tradução literal, se diz: “Sobre a cátedra de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus. Todas as coisas, pois, que disserem a vós fazei e guardai.”. No entanto, como mesmo afirmou Jesus, nem todos os fariseus praticavam aquilo que acreditavam e proferiam. Isso não é diferente no âmbito cristão, há muitos que pregam como profetas, mas nada testemunham.
A comunidade de Mateus, segundo o relato em questão, vive uma querela com relação aos fariseus. Não se trata de uma divergência relacionada ao status quo assumido por estes, mas uma intriga a não observância da Lei e a hipocrisia de eles exigirem das outras pessoas aquilo que eles próprios não viviam. Os fiéis da comunidade de Mateus e a própria liderança da comunidade, estão às voltas com a hipocrisia farisáica que manipulava a Palavra de Deus em detrimento de seus próprios benefícios e subjugava aos demais a pesadas leis, na exigência de posturas coerentes e dignas. Ora, se queremos exigir de outrem atitudes corretas e éticas precisamos ser os primeiros a vivenciá-las, de modo contrário, nos tornamos um fardo pesado e não uma força motriz a encorajar outros na vivência do amor e da paz.
A experiência de fé do discípulo, no seio da comunidade cristã, precisa estar alicerçada no serviço humilde, que no original grego de Mateus significa diákonos. A diaconia é a expressão viva da fé em Jesus. Tal experiência nos integra a Ele, Jesus o nazareno, o pobre servo por excelência. A serviçalidade, a solidariedade em prol do outro, não é apenas uma máxima para o discipulado e cristianismo, é, antes de tudo, condição de possibilidade para seguir o Mestre.              
A grandeza do discipulado de Jesus está no serviço aos irmãos (Mc 10,43). O primeiro no discipulado é aquele serve a todos, o que vive a diakonia do Reino. “Quem dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos” (Mc 10,44 // Mt 23,11). Isso porque o próprio Jesus, o Filho do Homem, não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (Mc 10,45). Jesus, o servo de todos, é aquele que anuncia o Reinado de Deus, testemunhando com sua vida que anunciar é servir. Portanto, o mestre, que chama os discípulos a servir, é, ao mesmo tempo que serve, o paradigma de serviço.
Por fim, o Evangelho desse domingo nos incita a viver a realidade do discipulado do mestre Jesus, que viveu com perfeição arte de servir, dando sua própria vida como oferta a Deus e aos seres humanos. Assim, ao seguir a Jesus e só a ele chamar de guia-mestre, o discípulo é convidado à realidade da humilde oferta de sua vida para transformação do mundo e da história da humanidade. Ser discípulo e servo de Jesus é participar com Ele da Salvação Universal. Viver a realidade da diakonia de Jesus, que é o serviço gratuito e amoroso prestado aos homens e mulheres de boa vontade, é comungar com seu projeto de vida, compartilhando da edificação do Reinado de Deus, que corresponde à plenitude da vida que se doa, pois é vida para sempre.

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