sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Felizes os convidados para o banquete nupcial do Senhor!

Mt 22, 1 Jesus voltou a falar em parábolas aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, 2 dizendo: 'O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho. 3 E mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir. 4 O rei mandou outros empregados, dizendo: `Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!' 5 Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios, 6 outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram. 7 O rei ficou indignado e mandou suas tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles. 8 Em seguida, o rei disse aos empregados: `A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. 9  Portanto, ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes.' 10 Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados. 11 Quando o rei entrou para ver os convidados, observou ali um homem que não estava usando traje de festa 12 e perguntou-lhe: `Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?' Mas o homem nada respondeu. 13 Então o rei disse aos que serviam: `Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Ali haverá choro e ranger de dentes'.14 Por que muitos são chamados, e poucos são escolhidos.'

            Aproximamo-nos do fim do ano litúrgico. A liturgia da Palavra deste domingo começa a vislumbrar o fim de tudo. A esta realidade de encerramento de um tempo, chamamos de Escatologia. A realidade escatológica é aquela que evidencia e comunica a realidade do juízo de Deus, no qual alguns participarão do banquete celestial, enquanto outros ficarão de fora desta realidade perene.
            Contudo, esta mensagem evangélica, narrada por Mateus, se trata de uma parábola. Etimologicamente falando, parábola, vem do grego parabolé, constituído de pará   (= ao longo de, ao lado de, passando perto, junto de) e bolé (= o que foi jogado). Bolé vem do verbo grego ballo, que significa jogar ou lançar. Portanto, esta narração acima trata de elementos que evocam e comparam a realidade do Reino de Deus a um banquete, um festim de casamento, também conhecido no mundo semítico como núpcias.
            Esta parábola dirigida aos sacerdotes e anciãos do povo, como tantas outras parábolas elaboradas pelo teólogo Mateus, tem como intuito dizer da realidade final dos homens e da plenificação da realidade de Deus, de seu juízo, do festim nupcial, no qual Ele desposará definitivamente alguns e abandonará a outros, relegando-os ao desolamento. Aparentemente, a realidade da desolação é bem menor (em proporção de pessoas) que àquela do desposamento, dado porque aqueles que estavam na festa, narrada por Mateus, já tinham consciência clara do que estavam celebrando. Em contrapartida, o convidado que não estava vestido com os trajes de núpcias não sabia muito ao certo onde estava e o que estava festejando. Era como um peixe fora do aquário.
            Jesus, com toda clareza, diz aos “poderosos”, àqueles que representavam a religião legal de Israel que “muitos são os convidados, mas poucos são os escolhidos”. Este jogo de palavras é bem explicado pelo convide formal feito a alguns e o convite repleto de simplicidade feito a outros, nas ruas, encruzilhadas. Os que foram convidados com todo protocolo, responderam negativamente ao convite do dono da festa. Estes convidados estavam ocupados com muitos afazeres. Talvez sejam afazeres simbólicos, como uma desculpa esfarrapada para dizer que não se deseja oficializar um compromisso festivo. Estes compromissos formais demandam tempo tanto para aqueles que convidam quanto para os que estão com seus nomes nas listas. É preciso se preparar para uma festa, escolher a roupa, dar uma apanhada no visual, coisas protocolares.
            No entanto, estes convidados para a ceia nupcial estão envolvidos com outros compromissos que não a construção do Reino de Deus. Seus compromissos sociais estão acima do compromisso fundamental, que se constitui na cooperação com o projeto de Deus, sua hegemonia sobre as realidades e impérios humanos.
            Os empregados saem para convocar a outros, estes não os levam em consideração, o convite para a festa de núpcias do filho do dono da casa é deixado de lado. O dono da casa, o anfitrião da festa é Deus, seus empregados, os convocadores, são os profetas e os portadores da Palavra de Deus. Jesus é o filho que celebra suas núpcias com aqueles que são seus discípulos e discípulas, isto é, a noiva. O Pai não restringe o convite às núpcias com o Filho apenas aos discípulos de Jesus, mas o convite é extensivo a todos aqueles que querem que suas vidas sejam desposadas pelo amor redentor do Filho, o Goel -  resgatador. A festa está pronta, há fartura, regalias que só Deus, o Rei, pode oferecer. No entanto, ele mesmo afirma: “os convidados não são dignos” (v.8). A festa é a graça salvífica de Deus, configurada com as núpcias, uma realidade que era comemorada durante dias. Segundo Joaquim Jeremias, em sua obre Parábolas de Jesus, na festa nupcial, conhecido como bodas, havia uma comitiva de mensageiros que passava antes da chegada do noivo. Portanto, esta parábola tem um sentido histórico real, pois os mensageiros, ou empregados, saem convidando, convocando todos para a comensalidade das  bodas, com carnes e bebidas a revelia.  
            Não dado por satisfeito com a incompreensão daqueles que tinha prioridades em detrimento do absoluto que era a festa nupcial do Senhor, o Rei, anfitrião da festa, pede para que seus servos convoquem aqueles que estivem nas ruas, encruzilhadas, pelo caminho. Assim o fazem, convocando os bons e os maus. Nesta altura, entendemos bem a missão do Filho de Deus, Jesus de Nazaré que chamou para junto de si homens, mulheres, bons e pecadores. Na esteira do discipulado de Jesus estão muitos, os que estavam convertidos e os que estavam submersos na vida de pecado.
            Destarte, a sala de festa ficou repleta de gente. O anfitrião, ao adentrar o recinto festivo, se depara com alguém que estava desprovido das vestes de festa. O rei o indagou sobre o fato de não estar devidamente paramentado para tal ocasião. O “intruso” nada respondeu. Mas que atitude estranha deste rei, ele exige demais, a nosso ver. Primeiro pensamos que ele deveria estar alegre por ver tanta gente no salão, sua atitude foi arrogante. Mas, a insensatez do convidado que não se colocou a altura do convite o levou a tomar tal decisão, expulsar para longe o “penetra”. Certamente, houve tempo para se preparar. O homem não foi levado a força, levando-nos a pensar que ele poderia “mudar” suas roupas, vestir-se coerentemente como a circunstancia o exigia, porém nada disso ele fez.
            De acordo com esta narrativa, Deus convida a todos, bons e maus, sem distinção. Ele é como aquele festeiro de roça que não se esquece de nenhum de seus vizinhos para a festa do santo padroeiro. Para os convidados, por seu lado, havia tempo necessário para se prepararem. Deste modo, Deus nos concede muito tempo para transformar nosso coração, a fim de nos revestirmos de Cristo, como nos afirma o apóstolo Paulo (Rm 13,14). Deus não exige de alguém o bem, sem lhe dar chance e possibilidade de realizá-lo, como também não cobra o mal realizado se ele não foi conscientemente pensado antes de ser praticado. Deus quer colher em nós frutos no tempo certo, quando nosso coração se deixa abrir como terreno fértil para germiná-lo. Portanto, o Rei da festa exigia a veste nupcial, aquela “realidade” não externa, mas intrínseca, pois ela correspondia à disposição e entusiasmo de participar de fazer parte do banquete. O banquete nupcial é, sem dúvida, a salvação, o festim eterno, do qual todos somos convidados a participar com a veste nova do nosso coração, lugar propício para abrigar a Deus.
Pe. Junior Vasconcelos do Amaral.

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