sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"Devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22,21)

Mt 22, 15os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. 16 Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes, para dizerem a Jesus: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. 17 Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” 18 Jesus percebeu a maldade deles e disse: “Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha? 19Mostrai-me a moeda do imposto!” Levaram-lhe então a moeda. 20 E Jesus disse: “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” 21Eles responderam: “De César”. Jesus então lhes disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Estamos diante de um texto clássico que retrata a astúcia dos malvados: pôr Jesus à prova, mediante suas próprias palavras. Ele, o bom contador de histórias, é hoje assediado pelos discípulos dos fariseus e por alguns herodianos, os que eram bajuladores de Herodes. Vejam que os malvados às vezes se unem para combater os “filhos da luz”. E, em um plano bem armado, desejam fazer Jesus cair na armadilha de suas próprias palavras.
A cilada é introduzida por um elogio. Quem faz um elogio também é capaz de criticar. Então, como diz por aí, prefiramos quem nos critiquem, que os que elogiam às vezes retratam apenas o jogo da perversidade humana. Eles dizem: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências”. Eles bem sabiam que Jesus não se deixava influenciar por ninguém, nem por esquemas e interesses humanos. Eles conscientemente sabiam que Jesus não era manipulado, mas, que ao contrário, exercia um poder sobre muitos homens e mulheres, principalmente os desfavorecidos. Portanto, para os poderosos do tempo de Jesus, tê-lo ao lado deles era melhor do que tê-lo como inimigo.
A questão crucial apresentada para Jesus era: “É lícito ou não pagar o imposto a César?” (v.17). Em caso de uma resposta afirmativa, a pregação de Jesus cairia por terra diante do povo, que estava saturado com a ocupação romana, que explorava e se beneficiava com a miséria sempre maior do povo. Além do mais, pagar o imposto a César, religiosamente falando, era dobrar-se diante do imperador, como num culto prestado a ele. Na inscrição da moeda corrente do tempo de Jesus podia-se ler: Tibério César, Filho do Divino Augusto. Por isso muitos se opunham a pagar os impostos, pois pagá-los era incensar o homem divinizado por ser Rei.
Contudo, se Jesus respondesse que não se devia pagar o tributo ele seria apanhado em aberta afronta ao império. Os próprios herodianos, que comungavam da exploração de Roma e que estavam ao lado de Herodes, o “peixe-grande” do Imperador, inclusive escolhido por ele, poderiam acusar Jesus de inflamar o povo à anomia, ou seja, à inviabilização do cumprimento da lei.
As palavras de Jesus desmascaram o fetichismo religioso e a legitimação do sistema Cesariano. Jesus certamente não concordava com a imposição do sistema religioso romano, ou seja, o lucro proveniente da cobrança de impostos às províncias conquistadas por Roma. Jesus dissocia César de Deus. Ora naquela época, como nos tempos subsequentes, César era glorificado, exaltado e cultuado. Inclusive havia pessoas que acendiam incensos a César. Hoje, infelizmente não é diferente. Tem gente que acende uma vela para Deus e outra para o diabo, quando não elevam a outros homens no lugar de Deus.
No tempo de Jesus, alguns desejavam a expulsão dos dominadores romanos. Roma se beneficiava das províncias pequenas, captando para si todos os bens do povo pobre. Os impostos cobrados faziam circular a própria moeda romana, desmerecendo as moedas nacionais. Hoje, quando falamos em dólares, muitos olhos chegam a brilhar, porém, nem podemos imaginar que tudo, como no tempo de Jesus, se repete até hoje. Quanto mais valorizamos o dólar, mais depreciamos o Real, facilitando ainda mais o culto diabólico a potência romana dos dias atuais, chamada de Estados Unidos.
No entanto, estamos falando de uma questão de duas faces. Pois para alguns, patrícios e contemporâneos de Jesus, era vantajoso oferecer um incenso ao divino César, pois isso garantia a permanência no poder e viabilizava as benesses próprias tiradas deste culto diabólico. Nos dias hodiernos, não é diferente, há quem se favoreça enormemente da exploração das classes minoritárias em detrimento do direito das classes majoritárias, isto se chama capitalismo, que beira a selvageria. Note-se que nesta semana os noticiários estão pululando o desejo das potências européias (Itália e Grécia) de não se afundarem no precipício da recessão. Assim com a ajuda de países menos favorecidos, os grandes não se afundam.
Mateus, que segue a tradição deixada por Marcos (12,13), coloca juntos fariseus e herodianos. Já a narrativa lucana opta por nomeá-los como “espiões que fingiam de justos” (Lc 20,20). Enquanto os falsos justos perguntam a Jesus se é lícito ou não “pagar” (dídomi em grego de Mateus), ele responde com a expressão apodídomi, de mesma raiz é claro, porém, dando outra ênfase, não se tratando mais de pagar, mas de devolver. Para Jesus, a liceidade (do que é lícito) não está em pagar, mas devolver aquilo que pertence a César. Mas, também, devolver a Deus o que lhe é de direito (v.21).
Na moeda está inscrito a imagem (termo correto é epigrafe) do seu proprietário. O dinheiro pertence ao dominador romano e a ele deve ser devolvido. Os fariseus e herodianos perguntam a Jesus se é lícito devolver ou não o tributo a César, dando a entender que eles poderiam inclusive reter este dinheiro, ficando com aquilo que não lhes era de direito, tratando também de uma posse ilegal do dinheiro do império. O que Jesus anuncia faz toda diferença. Para ele é “preciso erradicar toda dependência do dinheiro. Não basta romper com o domínio político estrangeiro, é necessário romper a opressão que nasce do apego ao dinheiro e de suas possibilidades de exploração dos demais", afirma Gustavo Gutiérrez (O Deus da vida. São Paulo: Loyola, 1990. p. 87-88).
No versículo 18 se diz: “Jesus percebeu a maldade deles e disse: ‘Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?’”. A palavra hipócritas, do grego hupokritai, significa “dissimulação”, “mascaramento” retratando perfeitamente a malícia daqueles que queriam colocar Jesus a prova, sendo para ele uma pedra de tropeço. O versículo seguinte, apresentando o imperativo reflexivo mostrai-me, indica bem a impaciência de Jesus frente à maldade farisaico-herodiana. Jesus não tolera a perfídia destes homens. Eles retratam muito bem a astúcia dos malvados. Porém Jesus é muito mais astuto. Ele diz de quem é a figura e a epígrafe. Eles não poderiam negar. Tratava-se de César, o divino imperador.
Jesus usa o imperativo grego apódote, que se pode traduzir por “entregai”, “devolvei”, na liturgia está “dai”. Portanto, devolver ao imperador o que lhe é devido e da mesma forma a Deus, o que lhe pertence. Em Mt 6,24, Jesus disse que “não se pode servir a dois senhores”. Assim, “o culto a Deus não se coaduna com o culto a Mamon, aqui representado pelo sistema romano”, afirma o biblista Edmilson Schinelo (cf. http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=21&noticiaId=2449).
Mas o que é de César e o que é de Deus? Certamente tudo aquilo que provinha da invasão romana, toda maldade, espoliação e, os próprios representantes de César – Pilatos e Herodes – toda esta realidade pertencia a César. No evangelho de Marcos, capítulo 5, 1-20, lemos a passagem da precipitação dos porcos ao mar. Neste relato nos perguntamos o que os porcos fazem na narrativa, e por que os possuídos dizem “legião”, termo grego exclusivamente utilizado pelos romanos, para falar do seu exército? Claramente, os porcos são os próprios romanos que estão invadindo e possuindo, como demônios, os povos explorados, o povo da terra que, em contrapartida, pertence a Deus, o único Senhor. O que pertence a Deus é, sem dúvida, seu povo, o Povo de Deus (Js 24). O que ainda pertence a Deus é a terra, a sua terra, a terra concedida ao povo (Lv 25,23), o povo da aliança.
Destarte, esta narrativa nos convida a despertar para uma última e grave questão: a quem nós pertencemos? A quem prestamos culto de verdade? Esta questão nos lança ao desafio da prática do Evangelho: “devolvei a Deus o que é de Deus”. De fato, precisamos devolver ao mundo o que a ele pertence, respeitando as leis, viabilizando os projetos humanitários, certificando o que é bom, belo e ético em nossa vida. Mas, evidentemente, precisamos devolver a Deus o verdadeiro sacrifício, nossa verdadeira obediência, nossa inalienável liberdade que só a ele, o Criador, pertence.
Pe. Junior Vasconcelos

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