terça-feira, 27 de setembro de 2011

Mt 16,24b Porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens

Mt 16, 21 Desde então, Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir à Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia. 22 Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: 'Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!' 23 Jesus, porém, voltou-se para Pedro, e disse: 'Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!' 24 Então Jesus disse aos discípulos: 'Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. 25 Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. 26 De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida? 27 Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta.

Este relato escrito por Mateus pode ser encontrado paralelamente em Mc 8,31-9,1 e Lc 9,22-27. Esta narrativa refere-se, na perspectiva de Mateus, ao primeiro anúncio da Paixão proferido por Jesus aos seus discípulos. No que se refere à tradição da Paixão é de se considerar que o relato construído por Marcos foi a primeira construção teológica do gênero literário chamado Evangelho, dando-se, portanto, a pensar que Marcos serviu de inspiração para o Evangelho de Mateus e de Lucas. Segundo alguns biblistas, a Tradição da Paixão existia como um material independente, que prestou serviço à teologia posterior, i. é., a dos Sinópticos e, mais tarde ainda, do Quarto Evangelho (João). Contudo, toda a discussão sobre a pré-existência da tradição da Paixão, neste artigo, parece mera especulação, pois a beleza teológica que se percebe no relato é, indubitavelmente, maior.
Rapidamente pode-se ver que Mateus não utiliza o termo Filho do homem, referido na tradição de Lucas  (9,44) e Marcos (8,31; 9,30; 10,32). A expressão apocalíptica (presente no AT em Dn 7,13-14) Filho do Homem, segundo o grande perito no AT, Gerard Von Rad, represtenta um personagem messiânico, no sentido mais amplo do termo. O Filho do Homem é o ungido, em hebraico Mashiah, aquele que levaria a cabo a construção de uma nova realidade em Israel, no eminente advento do Reinado de Deus. “Identificando a si mesmo no destino do Filho do Homem, Jesus prospectou não só sua morte trágica, mas também a exaltação gloriosa da parte de Deus”. Levando em consideração o Sitz in leben (contexto vital) em que Jesus estava inserido, já no clímax de sua missão terrena, era de se esperar que sua vida seria testada no “cadinho da humilhação” (Eclo 2,5; Is 48,10). A morte de Jesus, e ele bem sabia disso, foi o resultado ou a consequência da pregação do Evangelho, assim como uma reação dos poderosos à práxis libertadora de Jesus, que estava, evidentemente, em conformidade com a vontade do Pai.
O referido anúncio da Paixão dá início, na obra de Mateus, a uma nova fase da existência de Jesus, que consiste também em um passo novo em direção do “caminho da revelação do mistério de sua pessoa” (Barbaglio, 2002, p. 258). O relato tem início com estas palavras: “Desde então, Jesus começou...” (v.21). Nesta primeira mini-secção, Mateus diz que Jesus fala aos discípulos. Eles são os interlocutores de Jesus. Se muitas coisas foram ditas às multidões (Mt 5, sobre as bem-aventuranças), agora são ditas, diretamente, aos discípulos, àqueles que aceitaram o convite do mestre e o seguiram no caminho do discipulado. O verbo mostrar denota revelação. Para Marcos, por sua vez, trata-se de um novo ensinamento. Mateus leva em consideração a perspectiva apocalíptica da missão de Jesus (cf. Ap 1,1).  A história da paixão de Jesus é, sem dúvida, o vestígio clássico de sua revelação ao mundo. 
A morte de Jesus em Jerusalém, como afirma Barbaglio, não corresponde a uma “casualidade” banal, mas é expressão de sua opção e das consequências de sua missão. Nota-se em Mateus que a morte de Jesus é vontade divina. O Filho do homem devia sofrer, morrer para depois ressurgir. No entanto, o evangelista denuncia os algozes de Jesus, nas pessoas dos notáveis do povo, da hierarquia sacerdotal e dos mestres da Lei.
Na segunda secção, onde se vislumbra o clímax teológico e narrativo do relato (vv. 22-23), Pedro conduz Jesus à parte, na tentativa de tirá-lo do caminho para a cruz (v.22). Pedro não compreende o que passa na mente de Jesus. Mateus vislumbra, na imprecação “'Deus não permita tal coisa”, a intransigência do discípulo, que não compreende os desígnios de Deus para vida do seu Ungido. Pedro recusa-se a aceitar Jesus em “seu messianismo de morte” (Barbaglio, 2002, p. 259). Eis que surge a célebre cena de confrontação, traduzida pelas duríssimas expressões: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço”. No texto grego de Mateus encontramos “hipague opíso mou”, que ao pé da letra se traduz “Vai para trás de mim”. Isto significa, literalmente, que Pedro precisa voltar ao seu lugar. Objetivamente na “escola” do mestre Jesus, Pedro ainda é seguidor e aprendiz. Pedro não está, ainda, em condições de conduzir o mestre, mas deve deixar-se conduzir por ele. Jesus quer, formal e enfaticamente, dizer a Pedro que seu lugar é na esteira do caminho e não na precedência da missão. No original de Mateus encontra-se em seguida o termo “skandalon”, traduzido por “pedra de tropeço” ou “obstáculo”. O discípulo se torna pedra de tropeço para Jesus, pois não pensa segundo os desígnios de Deus, mas de acordo com os esquemas humanos, mesquinhos e covardes. Pedro ainda permanece acrisolado na pequenez de sua fé. Para ele, o Messias Jesus precisaria reinar, contudo, o anúncio de sua morte eminente parece desarticular tais intenções triunfalistas. 
Pedro é denunciado por Jesus como tentador satânico, pedra de tropeço e homem de sabedoria humana. A escassez de fé da parte de Pedro põe em risco a obediência fiducial de Jesus ao Pai. Fazer a vontade humana de Pedro faria com que Jesus colocasse tudo a perder, como mero capricho humano, afastado da verdadeira vontade de Deus. Obviamente, não é difícil ver cristãos hoje que pensam como Pedro. Para muitos, a radicalidade de Jesus, sua confiança na Palavra do Pai e sua obediência não passam de meras idiossincrasias do mestre, não tocando sequer o mínimo de suas vidas na dimensão do serviço ao Reino de Deus, ao bem do próximo e à construção de um mundo melhor para se viver. 
A recusa do messianismo de Jesus, que pressupõe abraçar a Paixão e a morte, para alcançar à Ressurreição, é diabólica. Tal recusa parece ser um capricho diante da vontade e benevolência de Deus. Pensar no messianismo dos cristãos de hoje é deparar-se com as cruzes do mundo e com todos os Cristos que caminham em direção aos Calvários. A tentação de Pedro, por um cristianismo de poder e de glórias ainda ronda muitos corações e mentes, principalmente dos que estão no poder-serviço. O messianismo de hoje, dos cristãos pós-modernos, se traduzirá fielmente na busca pelo verdadeiro Messias que não triunfou, que sentiu todas as dores, que se humilhou e pacificamente morreu por todos nós. Nosso messianismo se depara hoje com tantos sofredores, homens e mulheres, crianças e idosos, jovens sem futuro. Há fome na África, ditaduras em ebulição em muitos países, pessoas sem sentido, perambulantes. Há muito que se fazer. Não podemos nos ater, como Pedro, à ideia de uma Cristandade triunfalista quando vemos um mundo em declínio. Não podemos apenas pensar em nós e em nossos interesses pessoais, enquanto o mundo carece de paz, justiça e amor. Há que se superar a tendência atual do eclesiocentrismo quando o Reinado de Deus é verdadeiramente a palavra áurea proferida e vivida por Jesus.  
A terceira e última secção do relato de Mateus (vv. 24-27) se inicia com o advérbio de circunstância: “então”. Esta parte, considerada o desenlace da intriga é conhecido também como parênese ou ainda exortação parenética, considerado o eixo ou o suporte moral de uma intriga, da história narrada. Esta secção está sempre presente nas parábolas ou estórias narradas pelos que os mestres aos seus discípulos. O que vale a pena é a “moral da história”. Daí Jesus tira de seu anúncio da Paixão, seguido da interrupção confusa de Pedro, uma moral para os discípulos, seus interlocutores: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Evidentemente, para Mateus e a comunidade dos Doze o discipulado é a melhor maneira de compreender o destino de Jesus, o Messias. Quem não se coloca atrás de Jesus para segui-lo não atinge o conhecimento nem a compreensão afetiva e efetiva de sua missão. Jesus perderá sua vida, ele depositará sua própria existência no altar do Gólgota, no madeiro da cruz. 
Para Jesus, perder é ganhar. A dinâmica, do mestre Jesus, evidentemente na contramão dos “valores” hodiernos, é sempre um desafio. Nem sempre queremos perder, nem sempre queremos nos doar, mas receber e acumular. Para Jesus, ganhar a vida consiste em renunciar ao mundo e seus fascínios e ilusões. Para nós, a vida de Jesus, sua pregação, o anúncio do Reino, a relação com o outro e o desejo de se doar ilimitadamente ao projeto de Deus, dão a pensar que sua vida só tem sentido na consumação da cruz, que é o lugar da exaltação, onde o Pai acolhe a perfeita oferenda de seu Filho, o amado, o único e sumo sacerdote de toda Criação. Jesus compreende que na consumação de sua vida, extenuada por sua misteriosa morte, que também é obra da maldade humana, ele exultará o Pai e receberá a glorificação eterna. 
Para nós cristãos, a glória de Jesus Cristo é realidade tangível. Ele evidencia que nossa práxis é também condição de possibilidade para nos conduzir à sua vida divina, à glória do Pai. Jesus é, portanto, o caminho. Ele é quem nos convida e nos viabiliza a adentrar a glória do Pai, na vida beata e sem fim.

Pe. Junior Vasconcelos do Amaral

Nenhum comentário:

Postar um comentário