quinta-feira, 21 de março de 2019

Retomada

Há alguns anos, deixei de utilizar esta importante ferramenta para ensinar e também revisitar a Teologia que estudei com muito esforço e honestidade.
Agora, vou retomar aqui algumas postagens, textos interessantes e reflexões acerca do Evangelho dominical, no que compreendemos sobre o ano litúrgico cristão católico.
No mais agradeço meus leitores de ontem e de hoje.
Cordialmente
Prof. Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral
Belo Horizonte, MG.

domingo, 30 de outubro de 2016

Oração, ou quando ouvimos e falamos com Deus

     No Evangelho de Mateus, o Evangelho do próximo ano litúrgico (2017), mais precisamente no interior do primeiro discurso[1] deste Evangelho, encontramos uma preciosa passagem bíblica, que nos ensina a verdadeira prática da oração, Mt 6,  5-8: “E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente.E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes”.
            A comunidade de Mateus, que era organizada em sua maioria por judeus convertidos a palavra de Jesus e de novos seguidores, provenientes do paganismo, todos são convidados à prática de oração em segredo, na discrição, numa sintonia amorosa com Deus. Certamente, na comunidade mateana (de Mateus) havia muita gente que se aparecia nas assembleias, tais assembleias se reuniam para celebrar a memória de Jesus Cristo, à luz da Torá, do Pentateuco, celebravam a eucaristia, ação de Graças do Cristo ao Pai, na comunhão do Espírito Santo.
O contexto vital da pequena passagem acima, no Sermão da Montanha, evidencia que alguns pagãos participavam das assembleias com gritos, em um verdadeiro show para tocar o coração de Deus, não muito diferente de alguns cristãos fanáticos de hoje, que acham que Deus é surdo ou que tem ouvidos moucos. Na comunidade de Mateus havia também alguns ex-judeus que nas assembleias se comportavam como se estivessem nas sinagogas e nas praças, fazendo verdadeiros comícios para Deus. Ao contrário, a comunidade de Mateus e nossa Igreja, hoje, são convidadas a prática discreta da oração, no segredo do quarto, do coração propriamente dito. Mesmo reunidos em assembleias litúrgicas, não precisamos gritar, nem teatralizar, pois Deus, O que tudo sabe,  conhece tudo  em nós, sobretudo nossos corações.
            A oração deve ser entendida como uma arte que só o espírito humano é capaz de vivenciar e decifrar, na simplicidade. A oração pode ser considerada, antes de tudo, um diálogo fecundo, no qual Deus falamos com e ouvimos a Deus. Nós mesmos nos dizemos a Ele e Ele nos compreende com perfeição. A oração, quando praticada no silêncio do coração, no nosso quarto interior ou ainda na vida litúrgica da Igreja, torna-se realidade de intercâmbio e comunhão com Ele. Viver uma vida de oração é deixar-se exercitar e se consolar pelo Espírito Santo de Deus, que nos conduz à fé em Jesus Cristo, proclamando-o Filho de Deus e Senhor (Kírios). A oração nos conduz, ainda e acima de tudo, à prática da caridade, pois não somos convidados a orar apenas por nós, mas por todos, sem distinção.
Como nos ensina o Papa Francisco, podemos rezar na simplicidade, utilizando nossa mão, ou melhor, nossos cinco dedos. O primeiro, o dedo polegar, é o que está mais próximo de nós, com ele nos lembramos e oramos por todos os que amamos, todos os que nos têm amor. Com o segundo dedo, o indicador, lembramo-nos e rezamos por todos aqueles que nos ensinam neste mundo: o Papa, os bispos, os padres, os professores e professoras, profissionais da saúde e todos os que fazem da educação uma arte transformadora. Com o dedo maior, lembramo-nos e oramos por todos os que nos governam: Presidente, governadores, deputados, prefeitos, vereadores. Com o dedo anelar, nos lembramos e oramos por todos os que nós não amamos tanto, aqueles que nos fazem o mal, nos criticam, fofocam a nosso respeito, todos os que nós nem sempre tratamos com tanto afeto e vice-versa. Por fim, com o dedo mínino, somos convidados a orar por nós mesmos, como sempre os últimos, os servos indignos. Assim, aprendemos a fazer da oração uma prática de caridade e não apenas um murmurar a Deus, visando apenas benesses para nós e nada para os outros que vivem e convivem conosco.
Na oração, Pe. Junior Vasconcelos do Amaral


[1] O Evangelho de Mateus em sua estrutura narrativa está dividido em 5 grandes discursos, a saber: Mt 5-7 ou sermão da Montanha; Mt 10 ou discurso Missionário; Mt 13 ou discurso em Parábolas; Mt 18, ou discurso sobre a Igreja e Mt 24-25 ou discurso Escatológico ou no Monte das Oliveiras.Resultado de imagem para orar

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A Ressurreição no Evangelho de Marcos


Resumo: A palavra Ressurreição no Evangelho de Marcos está fundamentalmente associada aos termos paixão e morte. Tais léxicos dependem intrinsecamente de suas semânticas, para que deem sentido teológico à ressurreição e à morte. Contudo, no Evangelho de Marcos, a experiência narrada da Ressurreição de Jesus aparece no fim “curto”[1] do Evangelho e tem como desfecho um suspense seguido de medo. Este termo, no entanto, aparece antecipado nos anúncios da Paixão e permeia toda a narrativa do Segundo Evangelho. Desta maneira, neste artigo, procuraremos perceber a importância do lexema ressurreição para a cristologia do Evangelho de Marcos, sobretudo no que se refere às predições da Paixão-Ressurreição, da parte de Jesus (Mc 8,31; 9,31; 10,33-34), e sobremaneira ao relato da Paixão e Ressurreição, o livro da Paixão de Jesus (Mc 14,1 – 16,8). Buscaremos perceber o sentido proléptico, isto é, de antecipação, na narrativa de Mc, que aparece na palavra ressurreição nos anúncios da Paixão O recurso narrativo chamado de prolepse é comum no Segundo Evangelho e antecipa uma realidade a fim de que o leitor se prepare no conhecimento de algo, ou de alguém, nesse caso, no reconhecimento de Jesus Ressuscitado. O método que utilizaremos para a leitura e interpretação do Evangelho de Marcos (sobretudo os relatos de anúncio da Paixão 8,31; 9,31; 10,33-34 e o relato da Paixão propriamente dito 14,1 – 16,8), será o de análise narrativa. Como resultado, percebemos que o relato de Marcos está embebido do signo da Ressurreição e que, embora esta seja uma palavra discreta neste Evangelho, desempenha uma função teológica indispensável, tratando de orientar o leitor real (nós) do Evangelho marcano que Jesus, o Filho de Deus (1,1; 1,9; 9,7 e 15,39), passou pela experiência da morte, está Ressuscitado e precede aos seus à Galileia.Conclui-se que o Evangelho de Marcos se alicerça, como anúncio querigmático, na certeza de fé na Ressurreição de Jesus, além de que a Paixão, que antecede a Ressurreição, só tem sentido em vista da Vida Nova de Jesus. Assim, a narrativa de Marcos atinge seu objetivo mesmo com um fim em suspense, conferindo às mulheres (16,6-7) a missão de ir e anunciar Jesus Ressuscitado que precede a seus discípulos à Galileia eclesial. Pode-se aferir que o termo Ressurreição, no Evangelho de Marcos, não é apenas uma palavra que desencadeia suspense e medo, mas é uma realidade que perpassa toda narrativa marcana, assinalando a esperança da ação de Deus na vida de Jesus, seu Filho.

Palavras-chave:Evangelho de Marcos. Paixão. Ressurreição. Prolepse. Análise narrativa.
1.    Introdução
Este artigo objetiva ressaltar a importância do termo ressurreição, anástasis,[2] em grego, para o Segundo Evangelho. O termo ressurreição tem um caráter preponderante nas narrativas do Novo Testamento, assumido como fulcro da fé cristã, pois temos fé em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, Filho de Deus. Esse é o querigma primário, comumente observado nos relatos bíblicos, sobretudo na teologia paulina; nossa questão central consiste em observar que, no relato proposto pelo narrador de Marcos, o termo ressurreição está inserido como pressuposto fundamental, embora a narrativa marcana o evidencie, com expressão significativa, em 16,7. Há, segundo nossa perspectiva, indícios claros e prévios do anúncio da ressurreição, mesmo antes do “relato curto” em 16,1-8. Fazemos uso da análise narrativa, um método muito expressivo hoje, que pressupõe a importância dos relatos prolépticos, de antecipação, inseridos nos relatos bíblicos ou literários. No caso de Marcos, observamos tais antecipações, as prolepses, nas narrativas chamadas de pré-anúncio da Paixão, em Mc 8,31; 9, 32, 10,34. Contudo, também o relato da “transfiguração de Jesus”, na montanha, já simboliza prolepticamente o que irá acontecer no fim do relato, como uma “amostra-grátis” da ressurreição. Desse modo, analisaremos estes relatos antecipatórios, tendo em vista o relato fundamental de Marcos, o fim “curto” de seu Evangelho; daí, podemos corroborar nossa consideração sobre o fato de a narrativa marcana estar embebida da expressão ressurreição: ressurreição, podendo ser considerada o motivo condutor (leitmotiv) do Segundo Evangelho.
2.    Mc 16,1-8: fim “curto” do Evangelho
Marcos é, hoje, uma narrativa amplamente visitada. Depois da redescoberta desse Evangelho, fruto do estudo histórico-crítico, constata-se que o Segundo Evangelho é mesmo o primeiro a ser escrito, tratando-se de um relato primitivo e inspirador para Mateus e Lucas.
Desde alguns anos, o final “curto” de Marcos (16,1-8), tornou-se objeto de trabalhos expressivos que mostram a pertinência da hipótese segundo a qual esse constitui o final original do Evangelho (cf. CUVILLIER, 2003, p.105). Esse fim “curto” termina com o silêncio das mulheres (16,8) – e sem o relato da aparição do Ressuscitado. Nesse sentido, Élian Cuvillier propõe a pertinente questão: “qual importância e significação o evangelista dá à ressurreição de Jesus?” (CUVILLIER, 2003, p.105). De fato, não há, em Marcos, relato explícito sobre a ressurreição, mas, tão somente, aquele na boca de um jovem que está no sepulcro, vestido de branco, sentado à direita do lugar onde tinha sido posto o corpo de Jesus (16,7). É, pois, um fim em suspense (16,8): o fim primitivo, que rendeu a hesitação dos editores bíblicos dos primeiros séculos,a fim de ser completado, com os versículos 9-20,formando um epílogo resumido do Evangelho. Nossa questão, aqui, se debruça sobre o fim “curto”, por uma questão metodológica.
A palavra do jovem não porta nenhuma ambiguidade: “Jesus ressuscitou”, como havia prometido. Uma continuidade capital se impõe: mesmo após sua ressurreição, o Ressuscitado é o “crucificado” (16,7); ou seja, a ressurreição não apaga os traços da cruz. Em Marcos, manifesta-se o registro de uma teologia da cruz (cf. CUVILLIER, 2003, p.107).
3.    Mc 9,2-9 profecia da ressurreição
A narrativa da transfiguração, relatada pelos três sinóticos, representa, na estrutura do evangelho de Marcos, um momento culminante, correspondendo à cena do batismo na primeira parte, em 1,9-11. Novamente, Jesus é proclamado, pela revelação divina, o Filho amado (9,7b): “Trata-se de uma revelação direcionada aos discípulos, num momento decisivo e crítico da atividade pública de Jesus, isto é, depois da proclamação messiânica de Pedro”, em 8,27-33. (FABRIS, 2002, p.519).
De acordo com Camille Focant, o relato da transfiguração (9,2-9) pode ser entendido como uma prolepse da presença do Ressuscitado no Evangelho, que não comporta um relato de aparição (FOCANT, 2005, p. 211). Neste sentido, mencionamos aqui, além do relato da transfiguração, também os relatos considerados anúncios prévios da Paixão de Jesus, que comportam, em si, a promessa da ressurreição. Focant alude a Rudolf Bultmann,[3] em sua afirmação sobre o sentido da transfiguração na vida Jesus no Evangelho de Marcos: ela faz “refluir a messianidade em sua própria vida” (FOCANT, 2005, p. 212), o que, verdadeiramente, poderia “servir de confirmação celeste à confissão de Pedro e à profecia para a ressurreição sob a forma imaginada” (FOCANT, 2005, p. 212). A opinião de Bultmann não é hoje tão compartilhada, pois a diferença do relato da transfiguração com o gênero literário (dos relatos) de aparição do Ressuscitado é amplamente significante. A transfiguração pode ser compreendida como uma amostra-grátis da Ressurreição de Jesus, “uma antecipação da glória da ressurreição; a agonia, em contraste total, mostra o modo pelo qual Jesus caminha para a glória” (DELORME, 2006, p.97).
Portanto, na lógica paradoxal de Marcos, a transfiguração, a revelação da glória do Filho do Homem e a vinda do reino poderoso, não pode ser compreendida antes, mas somente depois da passagem pela cruz e ressurreição (cf. FOCANT, 2005, p. 214). O relato da transfiguração só pode ser compreendido em sentido estrito à Ressurreição, mesmo sendo relatado anterior à ela. Neste sentido, a transfiguração serve de chave de leitura para a compreensão da própria Ressurreição de Jesus, testemunhada por Pedro, Tiago e João; contudo, esses três não estão inseridos no relato da cruz nem da ressurreição de Jesus. Essa é mais uma ironia da teologia marcana.
4.    Mc 9,9: o Filho do Homem ressuscitado
            Como se pode observar, o relato da transfiguração é indispensável para compreender o significado da filiação divina de Jesus (“Filho amado”) e o sentido de sua ressurreição, como realidade visível. De realidade teofânica, de glória, a ressurreição pode ser entendida a partir da realidade da cruz. É o v. 9, referencialmente, que afirma, por parte do narrador: “Ao descerem da montanha, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinha visto, até quando o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos”. Aqui, notamos o “segredo messiânico” de Jesus, que revelará a sua glória na cruz. O narrador evidencia sua intenção: o Filho do Homem ressuscitará da morte; aparentemente, a experiência da ressurreição precede a cruz, pois tal título evidencia, aqui, em Mc, a humanidade de Jesus, visível e palpável na carne.
5.    Mc 8,31; 9,31; 10,33-34 – anúncios da Paixão e Ressurreição
            O intuito, nesse ponto, é perceber que, nos três anúncios da Paixão, o motivo da ressurreição ocupa um lugar preeminente. Isso significa dizer que, para o horizonte teológico de Marcos, a Ressurreição de Jesus é uma verdade que perpassa tanto o relato da Paixão,quanto o Evangelho como um todo.
Segundo Edwin Broadhead, seguindo a afirmação de Martin Kähler, “um pouco provocador, se poderia chamar as narrativas da Paixão de Evangelhos com extensas introduções” (BROADHEAD, 1994, p.12). De fato, o Evangelho de Marcos segue um propósito: narrar a vida de Jesus tendo, como perspectiva, a Ressurreição, a continuidade da Paixão, uma teologia da cruz. Desse modo, Jesus narra a si mesmo, como Filho de Deus que se doa para a remissão de muitos, de todos os que, nele, crêem. Aplicada à leitura do Evangelho de Marcos, supomos que a cruz é o critério hermenêutico a partir da qual se busca compreender a Revelação de Deus, de tal modo que o Segundo Evangelho a emprega em sua narração (cf. CUVILLIER, 2003, p.107).
            O primeiro anúncio da Paixão, em 8,31, apresenta o impacto das palavras do mestre em Pedro, o discípulo. Esse não admite a perspectiva da morte de Jesus, sendo, por esse, assimilado ao tentador (v.33) – Pedro parece tentar reduzir a força da pregação da cruz (8,34-38). Esse conjunto, de 8,27-9,1, situado numa mesma unidade espacial e temporal, tem como contexto o primeiro anúncio centrado na cruz. Contudo, tal anúncio parece revelar a incompreensão dos discípulos a respeito dessa realidade ignominiosa; não obstante, a última palavra de Jesus é Ressurreição – “[...]e depois de três dias, ressuscitar” (Mc 8,31).
            O segundo anúncio, em 9,31, afirma que o Filho do Homem será entregue (em grego, dídomi), às mãos dos homens, que o matarão. No primeiro anúncio, esses homens são identificados como anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas; são os que, na profecia de Jesus, o rejeitarão: o anúncio é seguido de incompreensão e do medo que todos tinham de interrogá-lo. O episódio seguinte, situado geograficamente em Cafarnaum (9,33-50), pode ser entendido como uma expressão da incompreensão dos discípulos, expressa pelo narrador no v.32.
            Já no terceiro anúncio, Mc 10,33-34, o esquema é diferente. Tudo tem início num clima de medo (v.32) e não há, em sua esteira, menção à incompreensão dos discípulos. Mas há um relato que parece fruto do medo explícito: no v.32, os filhos de Zebedeu, Tiago e João, pedem para Jesus que, na sua glória, ele se lembre de lhes conceder os dividendos – de um se assentar à sua direita e o outro à sua esquerda. A resposta de Jesus é uma ressignificação do sentido da ressurreição que, para ele, aponta que os discípulos, para participarem de sua glória, precisam, antes, participar de sua Paixão (v.39). Depois dessa questão, os dez discípulos se indignam (v.41) e Jesus passa a ensinar que, entre eles, não deve ser como na lógica do mundo: “aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor” (v.44); ele conclui a cena dizendo que o Filho do Homem, perseguido, assassinado e ressuscitado, não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos (v.45).
6.    Mc 9,1, uma possível chave de leitura?
Mc 9,1 é, de fato, um versículo intrigante. O que poderia significar “ver o Reino de Deus chegando com poder”? A priori, vale dizer que o versículo constitui uma abertura solene para o evento da Transfiguração de Jesus, situando-se, ali, não sem sentido. De fato, alguns, na transfiguração, verão Jesus em glória: constituindo-se a ressurreição manifesta de forma antecipada a Pedro, Tiago e João – e a transfiguração pode ser compreendida como a interpretação do versículo. O narrador é aquele que, contando o que se passa com Jesus, leva os leitores a interpretar em seus próprios signos ou enigmas. Mc 9,1 se constitui uma incógnita e, ao mesmo tempo, uma chave de leitura para 9,2-8, o relato da transfiguração. A vinda do Reino de Deus, em seu poder, pode ser compreendida a partir do revelar-se, de forma antecipada, de Jesus ressuscitado àqueles que o seguem (em hebraico, kadob signifca glória, designando a densidade de uma coisa; então, contemplar a glória de Jesus pode se compreender sua identidade mais profunda).
A transfiguração constitui a revelação daquilo que Jesus mesmo. Ele não é um homem fadado à morte, mas é Vivente, aquele que traduz o poder do Reino de Deus em si mesmo, por excelência. De outra forma, “a transfiguração pode se situar em continuidade com o apelo a um seguimento radical (8,34-38)” (CUVILLIER, 2003, p. 113).
7.    Considerações finais
            Conclui-se reafirmando que o Evangelho de Marcos consiste em um relato embebido de Ressurreição. Mesmo carecendo de um relato que formalize a aparição de Jesus Ressuscitado, como nos demais Sinópticos, o evangelho marcano traz como questão, no seu horizonte, o fio condutor da Ressurreição que perpassa vários relatos.
            O Segundo Evangelho transita da identidade do Jesus Galileano e taumaturgo para o Messias, Filho do Homem, que morrerá e revelará sua glória. Essa glória pode ser considerada, em Marcos, o Reino de Deus, que, de forma antecipada, se dá a conhecer no relato da Transfiguração.
O relato final de Marcos (16,7-8), embora curioso, por causa do silêncio das mulheres, não contradiz a verdade ou a veracidade do Ressuscitado, que não está mais preso ao sepulcro, segundo o jovem que o anuncia como Ressuscitado. Esse jovem, envolto em lençol branco, pode, simbolicamente, se referir ao divinal por causa do branco e do que ele mesmo transmite, expresso pelo querigma da Ressurreição, que se associa à certeza-fé de que a morte não supera nem suplanta a vida; contudo, é preciso que as mulheres possam ir e anunciar o Ressuscitado. Para Marcos, Jesus, o Vivente, precede os discípulos e a Pedro à Galileia (cf. 14,28), o primeiro lugar do anúncio, lugar do testemunho dos primeiros milagres.
            Por fim, o Evangelho de Marcos, embora sendo uma narrativa concisa e pequena, em relação aos demais relatos, não deixa de lado o sentido último e mais precioso do Evangelho: o gênero literário de Boa Nova, inaugurada por Marcos, o anúncio de Jesus morto e Ressuscitado.
8.      Referências Bibliográficas
BROADHEAD, Edwin K. Prophet, Son, Messiah. Narrative form and function in Mark 14-16. Sheffield: JSOT, 1994.
CUVILLIER, Élian. La résurrection dans l’évangile de Marc ou: La finale courte... et puis avant? In : MARGUERAT, D. Quand la Bible se raconte. Paris : Cerf. 2003.
DELORME, Jean. Leitura do Evangelho segundo Marcos. 5. ed. São Paulo: Paulus, 2006.
FABRIS, Rinaldo. O Evangelho de Marcos. In: BARBAGLIO, Giuseppe; FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos I. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002.




[1] Refere-se a fim “curto” aquele dito canônico Mc 16,8, o acréscimo tardio 16,9-20 pode ser considerado longo ou também chamado de final atual do Evangelho (cf. DELORME, 2006, p. 139).
[2] O termo anástasis, “ressurreição”, “ação de levantar-se”,pode ser encontrado em Mc 12,18.23, no relato de controvérsia com os saduceus.
[3] Artigo: Die Geschichte der synoptischen Tradition Göttingen, FRLANT, 29, 1931, p. 279. 

sábado, 18 de outubro de 2014

XXIX DOMINGO COMUM

"Devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22,21)

Mt 2215os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. 16 Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes, para dizerem a Jesus: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. 17 Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” 18 Jesus percebeu a maldade deles e disse: “Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha? 19Mostrai-me a moeda do imposto!” Levaram-lhe então a moeda. 20 E Jesus disse: “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” 21Eles responderam: “De César”. Jesus então lhes disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Estamos diante de um texto clássico que retrata a astúcia dos malvados: pôr Jesus à prova, mediante suas próprias palavras. Ele, o bom contador de histórias, é hoje assediado pelos discípulos dos fariseus e por alguns herodianos, os que eram bajuladores de Herodes. Vejam que os malvados às vezes se unem para combater os “filhos da luz”. E, em um plano bem armado, desejam fazer Jesus cair na armadilha de suas próprias palavras.
A cilada é introduzida por um elogio. Quem faz um elogio também é capaz de criticar. Então, como diz por aí, prefiramos quem nos critiquem, que os que elogiam às vezes retratam apenas o jogo da perversidade humana. Eles dizem: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências”. Eles bem sabiam que Jesus não se deixava influenciar por ninguém, nem por esquemas e interesses humanos. Eles conscientemente sabiam que Jesus não era manipulado, mas, que ao contrário, exercia um poder sobre muitos homens e mulheres, principalmente os desfavorecidos. Portanto, para os poderosos do tempo de Jesus, tê-lo ao lado deles era melhor do que tê-lo como inimigo.
A questão crucial apresentada para Jesus era: “É lícito ou não pagar o imposto a César?” (v.17). Em caso de uma resposta afirmativa, a pregação de Jesus cairia por terra diante do povo, que estava saturado com a ocupação romana, que explorava e se beneficiava com a miséria sempre maior do povo. Além do mais, pagar o imposto a César, religiosamente falando, era dobrar-se diante do imperador, como num culto prestado a ele. Na inscrição da moeda corrente do tempo de Jesus podia-se ler: Tibério César, Filho do Divino Augusto. Por isso muitos se opunham a pagar os impostos, pois pagá-los era incensar o homem divinizado por ser Rei.
Contudo, se Jesus respondesse que não se devia pagar o tributo ele seria apanhado em aberta afronta ao império. Os próprios herodianos, que comungavam da exploração de Roma e que estavam ao lado de Herodes, o “peixe-grande” do Imperador, inclusive escolhido por ele, poderiam acusar Jesus de inflamar o povo à anomia, ou seja, à inviabilização do cumprimento da lei.
As palavras de Jesus desmascaram o fetichismo religioso e a legitimação do sistema Cesariano. Jesus certamente não concordava com a imposição do sistema religioso romano, ou seja, o lucro proveniente da cobrança de impostos às províncias conquistadas por Roma. Jesus dissocia César de Deus. Ora naquela época, como nos tempos subsequentes, César era glorificado, exaltado e cultuado. Inclusive havia pessoas que acendiam incensos a César. Hoje, infelizmente não é diferente. Tem gente que acende uma vela para Deus e outra para o diabo, quando não elevam a outros homens no lugar de Deus.
No tempo de Jesus, alguns desejavam a expulsão dos dominadores romanos. Roma se beneficiava das províncias pequenas, captando para si todos os bens do povo pobre. Os impostos cobrados faziam circular a própria moeda romana, desmerecendo as moedas nacionais. Hoje, quando falamos em dólares, muitos olhos chegam a brilhar, porém, nem podemos imaginar que tudo, como no tempo de Jesus, se repete até hoje. Quanto mais valorizamos o dólar, mais depreciamos o Real, facilitando ainda mais o culto diabólico a potência romana dos dias atuais, chamada de Estados Unidos.
No entanto, estamos falando de uma questão de duas faces. Pois para alguns, patrícios e contemporâneos de Jesus, era vantajoso oferecer um incenso ao divino César, pois isso garantia a permanência no poder e viabilizava as benesses próprias tiradas deste culto diabólico. Nos dias hodiernos, não é diferente, há quem se favoreça enormemente da exploração das classes minoritárias em detrimento do direito das classes majoritárias, isto se chama capitalismo, que beira a selvageria. Note-se que nesta semana os noticiários estão pululando o desejo das potências européias (Itália e Grécia) de não se afundarem no precipício da recessão. Assim com a ajuda de países menos favorecidos, os grandes não se afundam.
Mateus, que segue a tradição deixada por Marcos (12,13), coloca juntos fariseus e herodianos. Já a narrativa lucana opta por nomeá-los como “espiões que fingiam de justos” (Lc 20,20). Enquanto os falsos justos perguntam a Jesus se é lícito ou não “pagar” (dídomiem grego de Mateus), ele responde com a expressão apodídomi, de mesma raiz é claro, porém, dando outra ênfase, não se tratando mais de pagar, mas de devolver. Para Jesus, a liceidade (do que é lícito) não está em pagar, mas devolver aquilo que pertence a César. Mas, também, devolver a Deus o que lhe é de direito (v.21).
Na moeda está inscrito a imagem (termo correto é epigrafe) do seu proprietário. O dinheiro pertence ao dominador romano e a ele deve ser devolvido. Os fariseus e herodianos perguntam a Jesus se é lícito devolver ou não o tributo a César, dando a entender que eles poderiam inclusive reter este dinheiro, ficando com aquilo que não lhes era de direito, tratando também de uma posse ilegal do dinheiro do império. O que Jesus anuncia faz toda diferença. Para ele é “preciso erradicar toda dependência do dinheiro. Não basta romper com o domínio político estrangeiro, é necessário romper a opressão que nasce do apego ao dinheiro e de suas possibilidades de exploração dos demais"afirma Gustavo Gutiérrez (O Deus da vida. São Paulo: Loyola, 1990. p. 87-88).
No versículo 18 se diz: “Jesus percebeu a maldade deles e disse: ‘Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?’”. A palavra hipócritas, do grego hupokritai, significa “dissimulação”, “mascaramento” retratando perfeitamente a malícia daqueles que queriam colocar Jesus a prova, sendo para ele uma pedra de tropeço. O versículo seguinte, apresentando o imperativo reflexivo mostrai-me, indica bem a impaciência de Jesus frente à maldade farisaico-herodiana. Jesus não tolera a perfídia destes homens. Eles retratam muito bem a astúcia dos malvados. Porém Jesus é muito mais astuto. Ele diz de quem é a figura e a epígrafe. Eles não poderiam negar. Tratava-se de César, o divino imperador.
Jesus usa o imperativo grego apódote, que se pode traduzir por “entregai”, “devolvei”, na liturgia está “dai”. Portanto, devolver ao imperador o que lhe é devido e da mesma forma a Deus, o que lhe pertence. Em Mt 6,24, Jesus disse que “não se pode servir a dois senhores”. Assim, “o culto a Deus não se coaduna com o culto a Mamon, aqui representado pelo sistema romano”, afirma o biblista Edmilson Schinelo (cf.http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=21&noticiaId=2449).
Mas o que é de César e o que é de Deus? Certamente tudo aquilo que provinha da invasão romana, toda maldade, espoliação e, os próprios representantes de César – Pilatos e Herodes – toda esta realidade pertencia a César. No evangelho de Marcos, capítulo 5, 1-20, lemos a passagem da precipitação dos porcos ao mar. Neste relato nos perguntamos o que os porcos fazem na narrativa, e por que os possuídos dizem “legião”, termo grego exclusivamente utilizado pelos romanos, para falar do seu exército? Claramente, os porcos são os próprios romanos que estão invadindo e possuindo, como demônios, os povos explorados, o povo da terra que, em contrapartida, pertence a Deus, o único Senhor. O que pertence a Deus é, sem dúvida, seu povo, o Povo de Deus (Js 24). O que ainda pertence a Deus é a terra, a sua terra, a terra concedida ao povo (Lv 25,23), o povo da aliança.
Destarte, esta narrativa nos convida a despertar para uma última e grave questão: a quem nós pertencemos? A quem prestamos culto de verdade? Esta questão nos lança ao desafio da prática do Evangelho: “devolvei a Deus o que é de Deus”. De fato, precisamos devolver ao mundo o que a ele pertence, respeitando as leis, viabilizando os projetos humanitários, certificando o que é bom, belo e ético em nossa vida. Mas, evidentemente, precisamos devolver a Deus o verdadeiro sacrifício, nossa verdadeira obediência, nossa inalienável liberdade que só a ele, o Criador, pertence.
Pe. Junior Vasconcelos

XXIX DOMINGO COMUM

"Devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22,21)

Mt 2215os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. 16 Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes, para dizerem a Jesus: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. 17 Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” 18 Jesus percebeu a maldade deles e disse: “Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha? 19Mostrai-me a moeda do imposto!” Levaram-lhe então a moeda. 20 E Jesus disse: “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” 21Eles responderam: “De César”. Jesus então lhes disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Estamos diante de um texto clássico que retrata a astúcia dos malvados: pôr Jesus à prova, mediante suas próprias palavras. Ele, o bom contador de histórias, é hoje assediado pelos discípulos dos fariseus e por alguns herodianos, os que eram bajuladores de Herodes. Vejam que os malvados às vezes se unem para combater os “filhos da luz”. E, em um plano bem armado, desejam fazer Jesus cair na armadilha de suas próprias palavras.
A cilada é introduzida por um elogio. Quem faz um elogio também é capaz de criticar. Então, como diz por aí, prefiramos quem nos critiquem, que os que elogiam às vezes retratam apenas o jogo da perversidade humana. Eles dizem: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências”. Eles bem sabiam que Jesus não se deixava influenciar por ninguém, nem por esquemas e interesses humanos. Eles conscientemente sabiam que Jesus não era manipulado, mas, que ao contrário, exercia um poder sobre muitos homens e mulheres, principalmente os desfavorecidos. Portanto, para os poderosos do tempo de Jesus, tê-lo ao lado deles era melhor do que tê-lo como inimigo.
A questão crucial apresentada para Jesus era: “É lícito ou não pagar o imposto a César?” (v.17). Em caso de uma resposta afirmativa, a pregação de Jesus cairia por terra diante do povo, que estava saturado com a ocupação romana, que explorava e se beneficiava com a miséria sempre maior do povo. Além do mais, pagar o imposto a César, religiosamente falando, era dobrar-se diante do imperador, como num culto prestado a ele. Na inscrição da moeda corrente do tempo de Jesus podia-se ler: Tibério César, Filho do Divino Augusto. Por isso muitos se opunham a pagar os impostos, pois pagá-los era incensar o homem divinizado por ser Rei.
Contudo, se Jesus respondesse que não se devia pagar o tributo ele seria apanhado em aberta afronta ao império. Os próprios herodianos, que comungavam da exploração de Roma e que estavam ao lado de Herodes, o “peixe-grande” do Imperador, inclusive escolhido por ele, poderiam acusar Jesus de inflamar o povo à anomia, ou seja, à inviabilização do cumprimento da lei.
As palavras de Jesus desmascaram o fetichismo religioso e a legitimação do sistema Cesariano. Jesus certamente não concordava com a imposição do sistema religioso romano, ou seja, o lucro proveniente da cobrança de impostos às províncias conquistadas por Roma. Jesus dissocia César de Deus. Ora naquela época, como nos tempos subsequentes, César era glorificado, exaltado e cultuado. Inclusive havia pessoas que acendiam incensos a César. Hoje, infelizmente não é diferente. Tem gente que acende uma vela para Deus e outra para o diabo, quando não elevam a outros homens no lugar de Deus.
No tempo de Jesus, alguns desejavam a expulsão dos dominadores romanos. Roma se beneficiava das províncias pequenas, captando para si todos os bens do povo pobre. Os impostos cobrados faziam circular a própria moeda romana, desmerecendo as moedas nacionais. Hoje, quando falamos em dólares, muitos olhos chegam a brilhar, porém, nem podemos imaginar que tudo, como no tempo de Jesus, se repete até hoje. Quanto mais valorizamos o dólar, mais depreciamos o Real, facilitando ainda mais o culto diabólico a potência romana dos dias atuais, chamada de Estados Unidos.
No entanto, estamos falando de uma questão de duas faces. Pois para alguns, patrícios e contemporâneos de Jesus, era vantajoso oferecer um incenso ao divino César, pois isso garantia a permanência no poder e viabilizava as benesses próprias tiradas deste culto diabólico. Nos dias hodiernos, não é diferente, há quem se favoreça enormemente da exploração das classes minoritárias em detrimento do direito das classes majoritárias, isto se chama capitalismo, que beira a selvageria. Note-se que nesta semana os noticiários estão pululando o desejo das potências européias (Itália e Grécia) de não se afundarem no precipício da recessão. Assim com a ajuda de países menos favorecidos, os grandes não se afundam.
Mateus, que segue a tradição deixada por Marcos (12,13), coloca juntos fariseus e herodianos. Já a narrativa lucana opta por nomeá-los como “espiões que fingiam de justos” (Lc 20,20). Enquanto os falsos justos perguntam a Jesus se é lícito ou não “pagar” (dídomiem grego de Mateus), ele responde com a expressão apodídomi, de mesma raiz é claro, porém, dando outra ênfase, não se tratando mais de pagar, mas de devolver. Para Jesus, a liceidade (do que é lícito) não está em pagar, mas devolver aquilo que pertence a César. Mas, também, devolver a Deus o que lhe é de direito (v.21).
Na moeda está inscrito a imagem (termo correto é epigrafe) do seu proprietário. O dinheiro pertence ao dominador romano e a ele deve ser devolvido. Os fariseus e herodianos perguntam a Jesus se é lícito devolver ou não o tributo a César, dando a entender que eles poderiam inclusive reter este dinheiro, ficando com aquilo que não lhes era de direito, tratando também de uma posse ilegal do dinheiro do império. O que Jesus anuncia faz toda diferença. Para ele é “preciso erradicar toda dependência do dinheiro. Não basta romper com o domínio político estrangeiro, é necessário romper a opressão que nasce do apego ao dinheiro e de suas possibilidades de exploração dos demais"afirma Gustavo Gutiérrez (O Deus da vida. São Paulo: Loyola, 1990. p. 87-88).
No versículo 18 se diz: “Jesus percebeu a maldade deles e disse: ‘Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?’”. A palavra hipócritas, do grego hupokritai, significa “dissimulação”, “mascaramento” retratando perfeitamente a malícia daqueles que queriam colocar Jesus a prova, sendo para ele uma pedra de tropeço. O versículo seguinte, apresentando o imperativo reflexivo mostrai-me, indica bem a impaciência de Jesus frente à maldade farisaico-herodiana. Jesus não tolera a perfídia destes homens. Eles retratam muito bem a astúcia dos malvados. Porém Jesus é muito mais astuto. Ele diz de quem é a figura e a epígrafe. Eles não poderiam negar. Tratava-se de César, o divino imperador.
Jesus usa o imperativo grego apódote, que se pode traduzir por “entregai”, “devolvei”, na liturgia está “dai”. Portanto, devolver ao imperador o que lhe é devido e da mesma forma a Deus, o que lhe pertence. Em Mt 6,24, Jesus disse que “não se pode servir a dois senhores”. Assim, “o culto a Deus não se coaduna com o culto a Mamon, aqui representado pelo sistema romano”, afirma o biblista Edmilson Schinelo (cf.http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=21&noticiaId=2449).
Mas o que é de César e o que é de Deus? Certamente tudo aquilo que provinha da invasão romana, toda maldade, espoliação e, os próprios representantes de César – Pilatos e Herodes – toda esta realidade pertencia a César. No evangelho de Marcos, capítulo 5, 1-20, lemos a passagem da precipitação dos porcos ao mar. Neste relato nos perguntamos o que os porcos fazem na narrativa, e por que os possuídos dizem “legião”, termo grego exclusivamente utilizado pelos romanos, para falar do seu exército? Claramente, os porcos são os próprios romanos que estão invadindo e possuindo, como demônios, os povos explorados, o povo da terra que, em contrapartida, pertence a Deus, o único Senhor. O que pertence a Deus é, sem dúvida, seu povo, o Povo de Deus (Js 24). O que ainda pertence a Deus é a terra, a sua terra, a terra concedida ao povo (Lv 25,23), o povo da aliança.
Destarte, esta narrativa nos convida a despertar para uma última e grave questão: a quem nós pertencemos? A quem prestamos culto de verdade? Esta questão nos lança ao desafio da prática do Evangelho: “devolvei a Deus o que é de Deus”. De fato, precisamos devolver ao mundo o que a ele pertence, respeitando as leis, viabilizando os projetos humanitários, certificando o que é bom, belo e ético em nossa vida. Mas, evidentemente, precisamos devolver a Deus o verdadeiro sacrifício, nossa verdadeira obediência, nossa inalienável liberdade que só a ele, o Criador, pertence.
Pe. Junior Vasconcelos

sábado, 4 de outubro de 2014

XXVII DOMINGO COMUM

Mt 21,42a “A pedra que os construtores rejeitaram 

tornou-se a pedra angular”


Mt 21, Jesus disse aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo: 33 Escutai esta outra parábola: Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou-a a vinhateiros, e viajou para o estrangeiro. 34 Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber seus frutos. 35 Os vinhateiros, porém, agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram. 36 O proprietário mandou de novo outros empregados, em maior número do que os primeiros. Mas eles os trataram da mesma forma. 37 Finalmente, o proprietário, enviou-lhes o seu filho, pensando: `Ao meu filho eles vão respeitar'. 38 Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: `Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!' 39 Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram. 40 Pois bem, quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?' 41 Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: 'Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo.' 42 Então Jesus lhes disse: 'Vós nunca lestes nas Escrituras: `a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos'? 43 Por isso eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos.

Este relato parabólico constitui o enredo final do capítulo 21 de Mateus. Como já se viu, este capítulo tem como clímax teológico duas parábolas, a dos dois filhos (vv. 28-32), e a, supramencionada, dos vinhateiros homicidas (vv. 33-46).
Pode-se perceber que ambas as parábolas são dirigidas aos mesmos interlocutores sacerdotes e anciãos do povo. O mensageiro delas é Jesus, o mestre-didáskalos. A título de esclarecimento, no grego de Mateus, no início das parábolas não está explícito a quem Jesus se dirige. Isso é possível ser percebido apenas no versículo 23 “e entrando ele no templo aproximaram-se dele, ensinando os principais sacerdotes e os anciãos do povo”. Portanto, quando Jesus abre a boca para dizer, já se sabe muito bem a quem ele está dirigindo-se.
Continuando a observar o original de Mateus, a parábola inicia-se com esta invectiva (pedido de autoridade): “Ouvi outra parábola. Havia um homem, um dono de casa que plantou uma vinha”. Esta consideração é muito peculiar para os interlocutores de Mateus, ou ainda seus ouvintes e leitores. Um dono de casa, um dono de vinha, são referências diretas àqueles proprietários que arrendavam suas terras aos pobres, ao povo da terra, chamados de anauins, uma classe minoritária, destituída de bens. De acordo com o comentário exegético de C.H. Dodd[1], naqueles tempos, anterior e contemporâneo de Jesus, a região das colinas da Galileia tinha como proprietários os ricos latifundiários estrangeiros, que alugavam seus sítios a agricultores do lugar. O relato reflete uma situação muito bem conhecida por todos.
O versículo que se segue à situação vital alude a Is 5,2 onde se narra “um amigo meu plantou uma vinha, circundou-a com uma cerca cavou um lagar e construiu uma torre”. Na profecia isaiana, o capítulo 5 trata-se do cântico da vinha. Um cântico ao amigo por causa de seu amor para com a sua vinha. “Ele cavocou, arrancou as pedras, e ali plantou mudas selecionadas...” Portanto, este dono da terra tinha também posses para poder plantar, cultivar e depois colher. O vinhateiro do Evangelho de Mateus, também possuidor de posses, ao terminar o plantio e as construções ao derredor da vinha, a arrenda aos lavradores, porque precisava viajar.
Esta realidade do arrendamento da vinha é diferente daquele a que estamos acostumados a ver no Brasil. Pelo que se sabe o dono da terra, que muitas vezes não tem condições financeiras para cultivá-la ou, às vezes, está cansado de levar prejuízos por tantas causas, arrenda a terra para outros plantarem. Ele fica isento de qualquer compromisso com o cultivo da lavoura. No Evangelho de hoje, em contraposição, o vinhateiro já tinha plantado, deixando tudo pronto. Este diferencial se dá pois a cultura da vinha era permanente e não carecia de replantios posteriores, diferente de uma cultura temporária, como no Brasil temos a soja e o milho. O que notamos é que ele arrendou aos lavradores com tudo pronto e acabado. Para este ação do dono da vinha, a tradução da bíblia CNBB apresenta o verbo alugar, denotando um sentido mais comum para nós do que aquele do verbo arrendar.
Quando se aproximou a estação que daria dos frutos, que evidentemente pertenceriam a ele, pois a terra era sua, enviou seus servos para receber os frutos. Um de seus servos foi espancado, outro assassinado, outro apedrejado. Não dado por satisfeito, o dono da vinha enviou ainda outros servos, mais homens que na primeira vez, e, fizeram a estes o mesmo que àqueles. Por fim, o dono da vinha enviou seu filho, pensando que os lavradores o respeitariam por se tratar de uma autoridade qualificada. Mas os lavradores confabularam a morte do filho, dizendo entre eles: “Este é o herdeiro; vinde matemos o mesmo e tenhamos a herança dele”. Lançando-o fora da vinha mataram-no. Obviamente, naquela época se ninguém procurasse a posse da terra, isto é os herdeiros, a terra passava a pertencer aos seus cultivadores.
Qual é, portanto, o significado da parábola em questão? Qual a finalidade desta narrativa para o Evangelho e a comunidade de Mateus? Estas dúvidas podem ser facilmente respondidas com a consideração de que “a morte do filho, enviado como extrema tentativa do proprietário para obter os frutos do sítio, é a chave de leitura do relato”, isto significa que Jesus está preanunciando sua trágica morte, seu próprio destino[2]. O Filho do Homem, Jesus de Nazaré, será preso, torturado, e, por fim, morrerá como o filho do dono da vinha fora de Jerusalém, no Gólgota.
Contudo, quem são os personagens que antecederam o filho do dono da vinha na visita ao local arrendado por seu pai? Obviamente os profetas. Para isso, basta observar a vida dos homens porta-vozes de Deus. Entre eles destacamos João Batista, morto cruelmente por causa de sua palavra, de sua exigência, de sua práxis comprometida com o eminente advento do Reino de Deus. O profeta batizador, em sua exigência, buscava colher os frutos de justiça semeados pela palavra divina anunciada por Moisés e pelos profetas que o precederam. Mas, João derramou seu sangue em nome da intolerância dos malvados que frutos de vida não o concederiam, somente os de morte.
No fim da parábola dos vinhateiros homicidas, como tradicionalmente ficou conhecida esta narrativa, Jesus indaga seus os ouvintes[3]: “Pois bem, quando vier o dono da vinha, o que fará àqueles vinhateiros?” Jesus pergunta. Eles respondem: “Inflingirá uma dura morte àqueles miseráveis e arrendará a vinha para outros vinhateiros que lhe entregarão os frutos no tempo certo” (Mt 21, 41). Jesus não diz concordar com esta sentença executória aos miseráveis vinhateiros. Ele apenas continua a dizer, entrando, agora em outro assunto.
Mateus deixa claro que Jesus não é um dos profetas, afirma R. Fabris[4], embora a narrativa parabólica se conclua: “pois as multidões o tinham na conta de profeta”. Não obstante a estas considerações, Jesus é o Filho do Pai, o enviado de Deus, o Messias, o ungido para a missão. A ação de Jesus é confiada e autorizada pelo Pai. Jesus, enviado ao mundo, é acolhido por alguns e rejeitado por muitos. Pelos lavradores da vinha Israel (note-se que Israel é conhecida pelos profetas como a vinha do Senhor), os que tinham a missão de cuidar da vinha do Senhor, o Filho Jesus é rejeitado, levado para fora dos muros de Jerusalém, sendo assim executado. Jesus profetiza aos vigilantes, aos representantes da religião, ao senado do povo, aquilo que lhe deverá acontecer.
 Obviamente Mateus, o teólogo compilador dos fatos e dos ditos de Jesus, está elaborando uma teologia pós-pascal, isto significa que após os fatos acontecidos com com Jesus em Jerusalém Mateus escreverá sua narrativa. Faz importante lembrar que Mateus escreve seu Evangelho por volta da década de 80 do I século cristão. Para ele, as palavras de Jesus, suas invectivas (palavras exortativas), estão vivas e prenhas de significados, haja vista a alusão ao profeta Isaías.
Jesus continua a falar com seus ouvintes. Ele introduz outra profecia na qual se diz que a pedra rejeitada na construção dos projetos humanos, na edificação da vinha Israel, era a pedra fundamental. A pedra que os construtores rejeitaram (dizia o Sl 118,22-23),  constituía-se a pedra angular. Nas construções antigas, a pedra angular era aquela sobre a qual o edifício e a casa estavam alicerçados. Jesus é a base fundamental deixada de lado na construção do edifício aparentemente santo de Israel.
No versículo 43, Jesus conclui estas duas comparações, a da vinha e a da pedra angular, dizendo que o Reino de Deus será tirado deles, os responsáveis pela edificação da vontade de Deus, de seu plano salvífico. Para piorar a situação, este projeto será dado para outro povo, que o fará frutificar.
Destarte algumas questões submergem após esta profecia de Jesus: serão, obviamente, os cristãos os responsáveis pelo projeto salvífico, que tem como autor Deus? Estamos hoje colaborando na instauração do Reinado de Deus? Mas, como o edificamos em meios às atitudes farisaicas que ainda persistem vigorar entre nós? Como tornar real este Reinado – o domínio de Deus – quando muitas vezes, na estrutura institucionalizada, o que se sobressai ainda é a vontade ou interesse humano? Certamente, se nós não colaborarmos na construção deste Reinado, ele será confiado a outros, talvez àqueles que julgamos por demais secularizados (inseridos no mundo), que independem da religião.
Por fim, a narrativa deste domingo comum nos alerta para o compromisso real e legítimo com a construção do Reino de Deus, na abertura de coração a um projeto que não é só nosso, mas é de Deus. O Reinado de Deus, sua soberania em relação às estruturas humanas, nos convida a transformar a realidade imanente, nosso chão, nossa casa-mundo, tornando-a um lugar fecundo para a semente da Palavra, que se encarna sempre em nossos corações, conduzindo-nos à profunda experiência do apreço à carnalidade (a realidade plena da vida), na vivência da alteridade (do cuidado do outro) no belo exercício de nossa liberdade-dignidade. Oxalá, o Senhor da vinha nos encontre fiéis a sua iniciativa de colher em nós os frutos de esperança, de fé e de caridade.






[1] DODD, C. H. Le parabole del regno. Bréscia: Paideia, 1970, p. 120.
[2] FABRIS, R. Os Evangelho (I). 2. Ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 323.
[3] Observe que no versículo 45 Mateus referirá aos ouvintes de Jesus: os altos funcionários do templo e os fariseus. Altos funcionários eram os sacerdotes. Jesus acrescenta nesta altura os fariseus, já que tinha dito que os anciãos eram aqueles que ouviam.
[4] Idem, p. 324.

sábado, 2 de agosto de 2014

XVIII DOMINGO COMUM

"Dai-lhes vós mesmos de comer" 

Mt 14, 13 Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu  e foi de barco para um lugar deserto e afastado.  Mas quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé.  14 Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão.  Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: 'Este lugar é deserto e a hora já está adiantada.  Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!' 16 Jesus porém lhes disse:  'Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!' 17 Os discípulos responderam: 'Só temos aqui cinco pães e dois peixes.' 18 Jesus disse: 'Trazei-os aqui.' 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos.  Os discípulos os distribuíram às multidões.  20 Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. 21 E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

         A morte de João Batista é sentida a fundo por Jesus. Por isso Jesus vai para um lugar a parte, a fim de meditar e orar, realizando um verdadeiro retiro espiritual que tem como elemento catalisador a morte. João era figura fundamental para a ação missionária de Jesus. João foi seu precursor, isto é, aquele que antecipou a missão de Jesus, anunciando-o a todos os que eram seus contemporâneos. João é também profeta testemunha da fidelidade a Deus. Por isso sua morte foi fortemente sentida por Jesus, pois João era fiel à missão confiada por Deus. João não excitava, nem abandonava o chamado de Deus, mas o testemunhava com fé. Mesmo com a morte de João, Jesus deve continuar sua missão. Deste modo, ele se retira em silêncio, mas as multidões o seguem, buscando aquele que era maior do que João Batista.
         Ao descer do barco, Jesus percebe que a multidão o seguia. Jesus vê a multidão e sente compaixão, pois muitos eram doentes. Jesus tem compaixão, deixa ser tocado pela indigência de seus conterrâneos e seguidores, que estavam sedentos de um alimento físico e espiritual. A multidão era pobre e doentia, como ainda hoje, e não encontrava um alimento que a saciava, esta multidão estava sem amparo e desvalida. Contudo, as palavras de Jesus são o verdadeiro alimento que os homens e mulheres buscam. Jesus cura por sua palavra e ação. Trata-se da palavra de vida, de saúde, que Jesus anuncia, que ele trás consigo. Jesus é o alimento por Excelência que os homens e mulheres buscam, ele cura, pois, vem da parte de Deus.
         A multidão acompanhava Jesus, persistia estar com ele. Mas os discípulos pedem para Jesus despedir a multidão. Os discípulos não entendem a prática de Jesus, não conseguem entendê-lo em sua prática libertadora e missionária. Para Jesus, a presença da multidão é garantia de que sua palavra e ação provinham de Deus. Contudo, para os discípulos, a presença da multidão não era compreendida. Jesus pede para que os discípulos alimentem a multidão e não a despeça de mãos vazias: 'Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!' (v. 16). Contudo, os discípulos duvidam da capacidade de alimentar um número grande de pessoas, sedentas e famintas. 'Só temos aqui cinco pães e dois peixes.' Esta resposta dos discípulos ao Mestre Jesus evidencia a incompreensão que antecipa o mistério da multiplicação dos pães.
         Jesus, por sua vez, persiste e chama a multidão para que se assente. Ele toma os pães e os peixes, dá graças, em sentido de eucaristia, abençoando. Jesus crê, fielmente, que Deus fará, por sua parte, o necessário. A eucaristia é ação de abençoar, de agradecer, de render graças a Deus por tudo o que ele nos faz. É com esta atitude que Jesus concede aos discípulos a autoridade, a exousia, de alimentar a todos os famintos que se encontram ao seu derredor. É a partir da experiência de eucaristia, de ação de graças a Deus, de bênção, que Jesus realiza o milagre da multiplicação dos pães. Mesmo em uma leitura em sentido sociológico, na qual se pensa que todos partilharam em comum o pão que traziam consigo, o sentido da eucaristia está envolto à ação de Jesus. A bênção de ação de graças, que Jesus realiza, é capaz de motivar os corações de todos para a partilha do pão, para a possibilidade de servirem uns aos outros, de dar o essencial para o outro se manter.
         Após a oração de Jesus, os discípulos distribuem o pão para a multidão. É Jesus quem toma a iniciativa, a fim de que os discípulos partilhem o pão. É Jesus quem toma iniciativa na ação multiplicadora do pão pela partilha. O sentido que está por trás de toda esta ação de Jesus só pode ser divino. É Deus quem age no coração dos discípulos pela oração de Jesus. Todos comeram e ficaram saciados. As migalhas que restaram dos pães encheram doze cestos. Trata-se de uma ação miraculosa para o Novo Israel simbolizado pelos doze cestos e os doze discípulos, liderados por Jesus.

         O milagre da multiplicação dos pães nos recorda que Jesus se preocupa com a indigência de seus seguidores. Ele sente compaixão dos pobres e enfermos, ele os alimenta e os cura. Jesus sensibiliza o coração dos discípulos e seguidores para a prática da partilha, da generosidade. Servir os pobres, dar de comer para eles é a missão dos discípulos e nossa missão hoje. Devemos, portanto, continuar a multiplicar o pão da solidariedade e da partilha, da generosidade para com aqueles que nada têm, para com aqueles que passam fome e são vítimas da enfermidade.

domingo, 27 de julho de 2014

XVII DOMINGO COMUM


 ENCONTRAI VOSSO TESOURO ESCONDIDO

Mt 13, 44 'O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. 45 O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola. 47 O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E ai, haverá choro e ranger de dentes. 51 Compreendestes tudo isso?' Eles responderam: 'Sim.' 52 Então Jesus acrescentou: 'Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.'

            
              As parábolas do Reino fascinam a todos. Nós, os ouvintes das parábolas de Jesus, hoje ficamos deslumbrados com tamanha beleza. O Reino sempre foi a preocupação de Jesus, pois ele é Reinado da  primazia de Deus, de sua hegemonia sobre a vida humana, foi Deus quem nos criou e é Ele quem nos mantém no horizonte de nossa existência. Deste modo, o Reinado de Deus significa para Jesus toda realidade humana que se deixa ser tocada por Deus em toda sua força amorosa e santificante. Deus é amor e a partir deste amor somos tocados e firmados. Deus é santo e através de sua santidade nos mantemos vivos e participantes de sua santidade.

            As parábolas do Reino desejam refletir como, sutilmente, a ação amorosa e de Deus nos toca. Somos atingidos por Ele em sua santidade.

            O reino dos céus é comparado com um tesouro escondido num campo. Um campo provável da vinha de Deus, de seu reino, onde ele planta e cultiva todo aquele que ele ama. O tesouro é símbolo da procura. Um tesouro está sempre escondido e precisa ser achado. Nesta parábola, o tesouro no campo é de grande valor, pois faz com que aquele que o encontra abdique de tudo para comprá-lo. A venda de todos os bens significa relativizar o desnecessário pelo essencial. No campo de nossas vidas, precisamos com destreza deixar o que não é essencial para encontrar aquilo que é fundamental. Tesouros significam realidades que ainda estão escondidas em nós, mas que, com muito esforço e dedicação, podem ser encontrados, desvelados.

            O reino dos céus é comparado com um homem que procura pérolas. Quando encontra uma pérola especial, vende todas as outras para comprá-la, pois ela tem maior valor. Algumas pérolas são simples, outras são de grande valor. Contudo, nem sempre se encontra pérolas especiais, elas aparecem como exceção, isto é, como algo especial no itinerário da vida de um procurador de pérolas. A pérola é uma realidade nobre que fascina aquele que a busca no coração das ostras. A pérola é uma realidade fruto do sofrimento de uma ostra. Só a partir de muito sofrimento, no interior da ostra, é que a pérola nasce. Deste modo, pode ser comparada a pérola de nossa vida. Para que ela chegue a ser mais preciosa ainda é preciso que o sofrimento a modele e a torne nobre. É na vivência do sofrimento, na luta contra toda miséria que nos assola, que somos capazes de gerar pérolas em nós. Na resistência, ou seja, na resiliência, somos capazes de gerar belezas inigualáveis e inestimáveis como as pérolas.
            
              O reino dos céus é comparado ainda com uma rede lançada ao mar, ela apanha em suas tramas os peixes variados, grandes e pequenos. O pescador, por sua parte, fará a seleção, alguns peixes servirão para a venda outros serão jogados e não servirão nem para o consumo. Deste modo, Jesus compara o reino dos céus a pescaria, na qual os homens pescados por Deus serão selecionados no final. Os bons servirão para a salvação, os maus serão condenados.

            
         Jesus finaliza as parábolas do Reino dos céus com uma afirmação metafórica interessante: 'Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.' Aparentemente trata-se de uma conclusão sem nexo com tudo o que Jesus havia falado sobre o Reino, comparando-o com um tesouro escondido no campo, com uma pérola de grande valor e uma rede que comporta em si peixes bons e maus, que serão selecionados no fim. Contudo, Jesus quer dizer que o discípulo convidado a viver a realidade do Reino é aquele que tira de seu tesouro coisas antigas e novas, realidades que parecem contraditórias, mas ao mesmo tempo que podem ser vistas como complementares. O Reino é sempre um lugar que esconde coisas antigas e coisas novas de grande valor, realidades antigas e sempre novas. O reino é assim também um tesouro de realidades novas e antigas. Do novo de Deus e das realidades antigas, de sua criação, na qual todos os homens são chamados a viver.